Fundação MT

Manejo e retornos de solos arenosos do MT

Pesquisa conjunta entre Aprosoja/MT e Fundação MT abordou o cultivo de soja em ambientes de textura média e arenosa. A conclusão: “É necessário sair do ciclo vicioso e trabalhar em um ciclo virtuoso, propiciando condições favoráveis ao estabelecimento de um bom sistema de produção”

Sistema

Táimon Semler, pesquisador da Fundação MT

O início da agricultura no Cerrado mato-grossense foi marcado pela grande disponibilidade de áreas agricultáveis, planas e de textura argilosa ou média. Com a progressão do cultivo nessas condições, valorização dos imóveis e melhorias na infraestrutura e na logística, as áreas de textura mais leve passaram a ser incorporadas aos cultivos anuais, mesmo quando teoricamente eram consideradas inaptas para essa modalidade de uso. Portanto, à medida que o cultivo avançou, na maior parte dos casos, o manejo seguiu o padrão praticado anteriormente, o qual não se adaptava a tal condição, e o reflexo disso foram produtividades baixas e múltiplos problemas em uma intensidade maior que o observado em outras situações.

No experimento com 12 modalidades de adubação de sistema voltados a nitrogênio e potássio na sucessão braquiária/soja, à esquerda, sem adubação na cobertura; à direita, com adubação de N e K na planta de cobertura

Devido à problemática relatada e à projeção atual de aumento do cultivo com soja em áreas de textura arenosa, provenientes, principalmente, de áreas de pastagens degradadas, duas instituições – a Associação dos Produtores de Soja e Milho do Mato Grosso (Aprosoja/MT) e a Fundação de Apoio à Pesquisa Agropecuária do Mato Grosso (Fundação MT) – iniciaram uma grande parceria em 2016 para implantação do Centro de Aprendizagem e Difusão (CAD) Parecis. O objetivo dessa iniciativa é desenvolver trabalhos multidisciplinares sobre manejo de solos de textura média e arenosa, sendo um projeto pioneiro nessa condição de solo no Mato Grosso. Após três anos, foram conduzidos 82 protocolos de pesquisa, destacando projetos de rotação de culturas, calagem, manejo de nematoides e de nutrientes como potássio, enxofre, fósforo etc., seguindo todos os critérios básicos da experimentação. Para concepção dos protocolos, foi fundamental a experiência dos produtores associados à Aprosoja MT e a obtida em outro projeto da Fundação MT, chamado Validação de Pesquisa, que acompanha, junto a produtores, lavouras comerciais.

A classificação dos ambientes de produção é tida como o primeiro passo para a definição do uso e do manejo a longo prazo, pois, dentro da classe dos solos arenosos (<15% de argila), há grandes variações. Como exemplo, solos de mesma textura, que, com características granulométricas distintas na fração areia (grossa, média e fina), apresentam condições diferenciadas principalmente sobre a disponibilidade hídrica. Outro fator de grande importância é a avaliação da Capacidade de Troca de Cátions (CTC) do solo, que definirá a capacidade de reter nutrientes como cálcio, potássio e magnésio. A CTC dos solos tropicais está diretamente ligada à matéria orgânica, que, por sua vez, está correlacionada com atividade biológica, retenção de água e agregação do solo, entre outros atributos. O clima também é um fator de grande relevância, por variações no período chuvoso, frequência de estiagens, temperatura etc. Em alguns casos, após todo o levantamento realizado, é necessário aceitar que o ambiente é inapto para sistemas de produção com cultivo anual ou perene, sendo que as chances de um retorno econômico positivo são raras. Já em outros casos, um adequado planejamento e o manejo podem tornar o cultivo viável economicamente.

Após a classificação de aptidão dos solos e a sua correção química, a primeira ação que reflete para esse ser considerado “menos produtivo” é o ciclo vicioso no qual são manejados em grande parte dos casos. Na prática, a operação da semeadura da soja em uma propriedade ocorre, primeiramente, em áreas com maior retenção de umidade, ou seja, de maior estabilidade, as quais são argilosas e que receberam uma boa cobertura vegetal na safrinha anterior. Os solos arenosos dessa maneira são semeados por último, com cultivares de soja ditas de maior “estabilidade” associadas a ciclo longo, aumentando a exposição da cultura às pragas, às doenças (a exemplo, a ferrugem asiática) e às condições climáticas menos favoráveis. Em reflexo disso, a formação de cobertura vegetal na safrinha é prejudicada devido ao curto período de disponibilidade hídrica após a colheita. Portanto, na safra subsequente, o solo ficará novamente exposto às altas temperaturas e à menor disponibilidade hídrica. Por consequência, a semeadura acontecerá tardiamente, dificultando a melhoria dessas áreas.

Sistema

Imagem de plantas de soja em um solo cultivado com braquiária ruziziensis na safrinha anterior (à esquerda) e sem cobertura vegetal por apenas uma safrinha (à direita)

Adubação de sistema — É necessário sair do ciclo vicioso e trabalhar em um ciclo virtuoso, propiciando condições favoráveis ao estabelecimento de um bom sistema de produção. Uma das ferramentas para essa transição entre os ciclos é a aplicação de um conceito de adubação de sistema, quando a cobertura – no caso, a braquiária ruziziensis (Urochloa ruziziensis) – recebeu aduba ção nitrogenada e potássica, agregando maior produção de massa seca e aumentando a ciclagem de nutrientes ao longo dos anos, com melhoria do sistema para o cultivo de soja na sequência. Quando o potássio exportado pela cultura da soja é reposto e a adubação nitrogenada na braquiária é realizada de forma adequada, resulta em incremento médio de 28% de massa seca em relação ao tratamento sem adubação nitrogenada, e, no mesmo trabalho, aplicando todos os nutrientes do sistema na cultura cobertura, não houve influência sobre a produtividade da soja.

É possível inferir que a cobertura vegetal com bom aporte de carbono, grande volume de solo explorado e boa ciclagem de nutrientes se torna primordial para aqueles que cultivam solos arenosos, sendo o manejo de dose, fonte, parcelamento e modo de aplicação definido a partir da qualidade do sistema de produção adotado. Portanto, pequenas falhas no cultivo da segunda safra apresentam grandes prejuízos ao cultivo da soja posterior. Em outro exemplo, o efeito de apenas uma safrinha sem cobertura vegetal versus uma safrinha com cobertura de braquiária em um solo arenoso sobre a cultura da soja cultivada em sucessão. Nesse caso, a planta de cobertura propiciou condições para uma diferença de 13,9 sacas/ha de soja em um ano agrícola.

Sob o ponto de vista de adubação isolada em áreas arenosas corrigidas quanto à acidez e ao fósforo, as prioridades de atenção são para os manejos de nitrogênio, potássio, enxofre e boro, devido à dinâmica desses nutrientes no solo. Lembrando que as respostas são relativas ao ambiente e ao sistema de produção adotado. Nessa situação, o termo atenção não está ligado diretamente ao aumento de dose e parcelamento de fertilizantes, e sim aos cuidados básicos com a fonte certa, no local certo, na hora certa e na dose certa para obter maior eficiência. Resultados de pesquisa na íntegra e discussões técnicas mais aprofundadas sobre os assuntos citados são obtidos nos relatórios publicados no site da Aprosoja-MT e em contato com a Fundação MT. Parafraseando Paul Fixen: “Sim, os solos arenosos são sustentáveis. Dentro da realidade deles!”.