Plantio Direto

O AVANÇO gradual de uma implantação mais adequada

Bruno Fardim, Valmir Assarice e Pablo Reveles, da Agroconsult

Plantio

O Rally da Safra é a expedição técnica que avalia, anualmente, as lavouras de soja e milho segunda safra, e já concluiu que, nos últimos 13 anos, aumentou o nível de proteção do solo nesse período

Não dá para explicar o desenvolvimento da agricultura brasileira sem considerar o papel do plantio direto. A disseminação do sistema nas últimas décadas ajudou a consolidar a produção no Sul do País de forma sustentável e a expandir as fronteiras agrícolas, transformando regiões como o Centro-Oeste e o Matopiba (Maranhão, Tocantins, Piauí e Oeste de Bahia) nas importantes regiões produtoras que são hoje em dia. Mas a adoção integral do sistema, com a efetiva rotação de culturas, por exemplo, ainda não é a regra. Seria uma forma de reduzir alguns problemas, como os relacionados à compactação do solo e à necessidade de seu revolvimento de tempos em tempos.

Os dados sobre o estado da arte do plantio direto no Brasil coletados pelo Rally da Safra 2019 mostram alguns pontos em que ainda é preciso avançar. Houve, por exemplo, um aumento na quantidade de amostras com sinais de solo compactado em praticamente todas as regiões. Mas o levantamento traz, também, algumas boas notícias. Uma delas é o aumento nas lavouras de milho com cobertura viva – um sinal de que os produtores estão interessados em aprimorar o manejo de suas propriedades. E, se essa for a tendência, a agricultura brasileira terá muito a comemorar nos próximos anos.

De fato, nesta temporada, os produtores brasileiros aumentaram o plantio consorciado de milho de segunda safra com braquiária. Isso levou a um aumento das lavouras de milho com cobertura viva de 0% para 3% no Sul e de 6% para 7% no Centro-Oeste. A expansão foi mais significativa, porém, no Norte do Paraná e no Sul do Mato Grosso do Sul, passando de 4% para 20%. As duas regiões foram fortemente afetadas por um longo período de estiagem durante o desenvolvimento da segunda safra 2017/18, o que pode ter estimulado os produtores a buscar alternativas para melhorar o perfil do solo, aumentando os teores de matéria-orgânica e melhorando a capacidade de sustentar as lavouras em períodos de estiagem. Trata-se de uma mudança, até certo ponto, sutil, é verdade. Mas não deixa de ser um avanço rumo à implantação adequada do sistema de plantio direto em sua totalidade, além de um indício de uma alternativa viável à rotação de culturas, ainda bastante limitada à soja e ao milho. Se há algo marcante na evolução desse sistema no Brasil, é o seu avanço gradual.

O Rally da Safra é a expedição técnica que avalia, anualmente, as lavouras de soja e milho segunda safra no Brasil. Desde 2006, o projeto conta com o apoio da Fundação Agrisus. Os dados coletados pelo Rally da Safra nos últimos 13 anos deixam muito claro como aumentou o nível de proteção do solo nesse período. A parcela das lavouras de soja amostradas com mais de 40% do solo coberto com resíduos orgânicos praticamente dobrou em uma década, chegando a cerca de 65% em 2019.

São duas as principais fontes dos dados do Rally da Safra. A primeira delas é a avaliação direta das condições das lavouras de campo. Em 2019, a expedição coletou 1.315 amostras de lavouras de soja e 469 de milho segunda safra em 422 municípios – o maior número de amostras coletadas em toda a história do projeto. De janeiro a junho, 12 equipes rodaram cerca de 105 mil quilômetros. As outras fontes de informação são os próprios agricultores. O Rally realiza uma série de eventos para produtores nas principais cidades-polo da produção agrícola – foram dez em 2019. Nesses encontros, os participantes são convidados a responder a um questionário no qual há perguntas sobre o nível de investimento das lavouras, o planejamento das safras e as técnicas de plantio. Neste ano, 866 produtores responderam voluntariamente a essas questões.

Os dados ajudam a construir um retrato do estado da arte do plantio direto no Brasil, cujas práticas estão se disseminando em todas as regiões. O estudo divide o País em quatro áreas com diferentes características agronômicas e climáticas: Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Sul do Paraná (Região 1); Norte e Oeste do Paraná, Sul do Mato Grosso do Sul e São Paulo (Região 2); Norte do Mato Grosso do Sul, Mato Grosso e Goiás (Região 3); e Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia (Matopiba), a Região 4.

É na Região 1 que o plantio direto está mais disseminado: 100% dos produtores da região que responderam aos questionários afirmaram que adotam as técnicas do sistema. Não chega a ser uma surpresa. As medidas de preservação do solo são praticamente imperativas diante das condições geográficas. Na média, 88% das amostras coletadas pelo Rally da Safra a cada ano nessa região situam-se em terrenos inclinados ou muito inclinados. Há, também, algumas características agronômicas muito particulares do Sul, como a maior aptidão para o cultivo de lavouras de inverno, especialmente trigo e aveia. As duas culturas proporcionam um benefício importante para o plantio subsequente da soja e do milho. Por isso, os resíduos de aveia e trigo estão presentes em três quartos das amostras. Pelas suas características, elas quebram os ciclos de pragas prejudiciais às lavouras de verão e produzem uma excelente palhada, que fica no solo para a safra seguinte. De acordo com os dados do Rally, 86% das lavouras de soja amostradas nessa região em 2019 apresentavam mais de 40% do solo coberto por resíduos – o maior percentual desde que o levantamento começou a ser feito, em 2006. O alto grau de cobertura nessa região já é esperado: algumas condições específicas, como o clima mais frio, fazem com que os resíduos demorem mais para degradar.

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Os dados do Rally da Safra ajudam a construir um retrato do estado da arte do plantio direto no Brasil, cujas práticas estão se disseminando em todas as regiões

Na Região 2, chama a atenção o aumento das lavouras de soja semeadas sobre resíduos de culturas de inverno. De 2018 para 2019, a participação das amostras em que foram identificados resíduos de trigo e aveia mais do que triplicou, passando de 7% para 25% – a parcela das amostras em que havia milho da segunda safra anterior caiu de 83% para 68%. Trata-se de uma consequência dos problemas de calendário enfrentados na safra anterior (2017/18), quando o plantio do milho segunda safra foi atrasado na região pelo clima frio e chuvoso e pelo excesso de dias nublados. Muitos agricultores decidiram, então, cultivar trigo e aveia, evitando os riscos de semear o milho fora do período considerado ideal nessa parte do País. É importante ressaltar que a Região 2 se situa na transição entre o Sul e o Centro do País, e boa parte dela é apta para os cultivos de inverno, embora grande parte das lavouras de verão sejam sucedidas pela segunda safra.

a segunda safra. Na Região 3, composta por boa parte do Centro-Oeste, também predomina o cultivo de milho na segunda safra, o que explica o fato de seus resíduos serem encontrados em 72% das amostras de lavouras de soja. A temporada 2018/19 no Centro-Oeste brasileiro foi marcada por uma significativa expansão da área plantada de algodão segunda safra, e será interessante avaliar, em 2020, a presença de resíduos dessa cultura sob as lavouras de soja. De acordo com os dados do levantamento, a adoção do plantio direto aumentou na Região 4 – formada, basicamente, pelo Matopiba. Nas respostas aos questionários, apenas 6% dos produtores disseram não adotar o sistema, ante 8% em 2018. A parcela das amostras sem resíduos coletadas na região caiu de 23%, no ano passado, para 13% neste ano. Deve-se levar em conta que, em muitos casos, a aparente ausência de resíduo pode acontecer devido à rápida degradação da palhada nesse lugar do País, caracterizado por clima úmido e quente durante a temporada chuvosa.

A história está cheia de exemplos de como grandes transformações costumam ocorrer pouco a pouco, e é preciso estar muito atento para percebê-las. Ainda há muito a fazer para aprimorar a aplicação do plantio direto nas lavouras do Brasil. Mesmo assim, os dados de 2019 do Rally da Safra mostram um avanço do sistema e alimentam as esperanças de que a agricultura brasileira continuará em uma trajetória de crescente desenvolvimento.

Funcionamento da metodologia — As equipes técnicas do Rally da Safra percorrem cerca de 100 mil quilômetros por safra avaliando lavouras de soja e de milho. Um dos aspectos avaliados diz respeito ao sistema de plantio direto. O trabalho, nesse caso, consiste em identificar a origem da palhada presente no solo e o percentual coberto pelos resíduos. Para isso, aplica-se, de forma adaptada, uma metodologia sugerida pelo Instituto Agronômico (IAC), de Campinas/SP. Veja como isso é feito: ● O ponto de amostragem é escolhido no interior do talhão, em uma distância de, pelo menos, 50 metros da borda. O primeiro passo é averiguar se há, no solo, resíduos da cultura anterior, e, em caso afirmativo, de qual cultura se trata. ● Para avaliar quanto do solo está coberto pelos resíduos, percentualmente, os técnicos estendem uma trena no solo por um metro, de modo a formar um ângulo de 45° em relação às linhas de plantio. ● O próximo passo é dividir a extensão da trena em dez segmentos de dez centímetros cada. Conta-se quantos dos segmentos se sobrepõem a resíduos no solo. Considera-se que cada um deles corresponde a 10% da área. Assim, se há, por exemplo, cinco segmentos sobrepostos a solo coberto com resíduos, 50% do solo está coberto.

● O procedimento é repetido uma segunda vez em um local diferente, e as duas amostras fornecem a média aproximada do solo coberto com resíduos das safras anteriores, uma das principais características do plantio direto