O Segredo de Quem Faz

A inovação como LEGADO

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As referências familiares direcionam o trabalho do produtor Rafael Kümmel na fazenda Dr. Paulo, em Nova Mutum, no Médio Norte do Mato Grosso. Ele conta que cresceu no campo e, já na adolescência, teve convicção de que dedicaria a vida à agricultura. Ao lado do primo, João Paulo, Rafael segue os exemplos recebidos do pai e do avô, e mantém investimentos constantes em tecnologias que favorecem o desempenho das lavouras de soja, milho e algodão. Na entrevista a seguir, ele lembra parte da história do avô, que desbravou o Centro-Oeste na década de 1970, e destaca as inovações que auxiliam na redução dos custos e no aumento da produtividade

Denise Saueressig
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A Granja – Qual é a trajetória da sua família na agricultura?

Rafael Kümmel – Meu avô, Paulo, era gaúcho de Palmeira das Missões, mas começou a trabalhar no campo em Santa Catarina. Depois, foi para Arapongas, no Paraná, onde, até hoje, a nossa família tem negócios. Ele cresceu bastante na atividade e teve a oportunidade de conhecer o Mato Grosso, onde se estabeleceu na fazenda em Nova Mutum, em 1978. Meu avô se formou em Agronomia na Universidade Federal de Viçosa/MG, em 1944. Nessa época, as pessoas tinham o costume de chamá-lo de doutor, porque ele tinha um diploma. Então, quando ele pensou no nome da fazenda, decidiu chamar de Dr. Paulo. Eu nasci em Cianorte, no Paraná, mas vim para o Mato Grosso com cinco meses de vida. Até os meus quatro anos e meio, morei e estudei na fazenda, porque minha mãe e outra professora davam aulas para mim, meus irmãos e os filhos dos funcionários. Mas, em um determinado momento, ela viu que isso não era mais viável, porque meu irmão já tinha cinco ou seis anos, então mudamos para Cuiabá. Mas eu passava todos os finais de semana e as férias na fazenda.

A Granja – Quando você precisou assumir, de fato, a condução das atividades na fazenda?

Kümmel – Meu pai, Salvador, que era genro do meu avô, faleceu em 2003. Eu estava fazendo faculdade de Administração no Paraná e, em 2007, vim para o Mato Grosso trabalhar. O João Paulo, meu primo, veio um pouco antes. Quando o João Paulo e eu tínhamos entre 12 e 14 anos, combinamos que iríamos trabalhar na fazenda. E nunca perdemos essa vontade. Nós temos 39 anos, com um mês de diferença de idade, então crescemos juntos. Meu avô faleceu em 2011. Dois anos antes disso, nós já estávamos tomando as rédeas dos negócios, mas meu avô ainda vinha para a fazenda, ficava conosco, cobrava, deixava a gente errar, que é o jeito mais difícil de aprender, mas é o melhor. Mesmo assim, ele nos dava bastante liberdade. Quando ele faleceu, foi bem difícil. Nós sabíamos lidar com as coisas, aprendemos muito com ele, mas ainda hoje acho que temos 65% da capacidade dele. Ele era muito visionário, tinha capacidade de enxergar muito na frente. Eu precisava de, pelo menos, mais uns 30 anos ao lado dele para aprender tudo o que ele poderia me ensinar. O João Paulo é bacharel em Direito e cuida da parte administrativa e da compra de insumos. A minha parte é tecnologia, maquinário e um pouco de campo, porque acompanho o plantio e a colheita. Hoje, temos 26 funcionários. A matriz da empresa fica em Arapongas, no moinho de trigo, que foi a primeira empresa que meu avô fundou.

A Granja – Quais são as principais referências que seu avô deixou? Quais os exemplos que você vai lembrar sempre?

Kümmel – Meu pai e meu avô são minhas principais referências. Quando meu avô foi morar no Mato Grosso, em 1978, não tinha praticamente nada na região. Ele começou com a lavoura de arroz e plantou soja, mas viu que era difícil escoar, então optou pela pecuária, e, até 1996, 1998, tínhamos muito gado na fazenda, que era o foco naquela época. Depois disso, quando começou a ficar menos difícil transportar grãos, ele migrou para a lavoura de novo. O maior problema eram as estradas. A rodovia MT-235 foi criada com recursos privados e do estado. Quando propuseram ao meu avô uma sociedade para construir a rodovia, ele topou na hora. Ele sabia que seria positivo. Hoje, essa estrada representa um trecho de 113 quilômetros que liga Nova Mutum a Santa Rita do Trivelato. O custo do frete melhorou muito com esse investimento. Em um outro momento, falei a ele que nos procuraram para testar uma variedade de soja e expliquei que teríamos que plantar, colher e jogar fora, porque a soja ainda não estava registrada para a venda. E ele aceitou sem pensar. Meu avô viveu até os 90 anos e deixou boas lembranças entre quem conviveu com ele. Era uma pessoa muito humilde, que ajudava todo mundo.

A Granja – Qual é a estrutura da fazenda atualmente?

Kümmel – Hoje, são 2,7 mil hectares de lavoura. Neste ano, começamos a plantar algodão também. Então, na safra, cultivamos 100% soja e, na segunda safra, milho e algodão. Plantamos apenas 50 hectares de algodão em 2019 e 2 mil hectares de milho. O restante foi cultivado com braquiária para manter o solo em boas condições para a próxima safra de verão. No próximo ciclo, pretendemos ampliar a área de algodão para 250 hectares.

A Granja – Quais as razões para o início do investimento no algodão?

Kümmel – Primeiro, para termos mais uma renda, que, no caso do algodão, é diferenciada em relação ao milho. Segundo, para termos mais um desafio. Entendemos que são os desafios que nos ajudam a crescer. Aprendemos, neste primeiro ano, que o algodão é uma lavoura extremamente técnica e que você não pode entrar nela para fazer de um jeito “mais ou menos”. É preciso estar 100% focado, senão o prejuízo será grande. A produtividade foi um pouco mais do que esperávamos. Ainda não tenho o resultado exato, porque começamos a entregar o algodão nesta semana (de 19 de agosto) e estamos pesando as cargas. Provavelmente, no início de setembro, teremos o resultado exato de média, porque foram plantadas três variedades que apresentaram desempenhos distintos. Testamos para decidirmos o que plantaremos no ano que vem. Na nossa fazenda, temos essa cultura de sempre testar. Seja milho, seja soja, realizamos muitos experimentos para sabermos o que é bom na nossa localidade, nas nossas condições. Não adianta eu plantar a mesma variedade do vizinho e achar que vou produzir igual. É bom experimentar, é uma das ferramentas que usamos para aprimorar nosso trabalho.

A Granja – E quais são as demais ferramentas utilizadas na fazenda para incorporar inovação aos processos?

ssos? Kümmel – Utilizamos a agricultura de precisão há uns 15 anos. Foi quando passamos a investir bastante em tecnologia. Passamos a operar com piloto automático e pulverizar seguindo a linha de plantio para diminuir a perda de plantas por amassamento. Quando você faz a pulverização cruzada, tem uma perda de cerca de 3%. E, na hora que você põe na ponta do lápis, essa diferença é o pagamento pela tecnologia do piloto automático. O piloto faz qualquer maquinário autopropelido dirigir reto e apenas com uma variação de 2,5 centímetros para a direita e de 2,5 centímetros para a esquerda, ou seja, varia apenas cinco centímetros de uma ponta a outra. Hoje, também trabalhamos com um software bem completo, que é o JDLink, da John Deere, que auxilia no gerenciamento com a transmissão das informações da lavoura via Wi-Fi, que temos em toda a propriedade. Temos um provedor em Nova Mutum que fornece internet na fazenda via rádio. Então, hoje, faço monitoramento de pragas e mapas de plantio, de colheita e de adubação. Tudo em tempo real e on-line. Consigo ver as máquinas trabalhando no campo a partir do meu celular, do meu computador ou do meu tablet.

A Granja – Quais são os principais benefícios da agricultura de precisão?

ecisão? Kümmel – Com a agricultura de precisão, projetamos uma redução de custos de até 19% na adubação, porque deixamos de aplicar o fertilizante em uma taxa só. Fazemos as análises de solo, e essa análise cria um mapa para cada hectare. Existe uma média, mas cada ponto do talhão é diferente, então reduzimos a quantidade de adubo onde não precisamos. Essa economia com adubos, de quase 19%, foi há 15 anos, quando começamos. Hoje, a adubação mudou, essa economia some, mas você deixa de gastar com o que não precisa. Se voltar para a adubação a uma taxa fixa, o custo vai subir.

A Granja – O que você imagina para o futuro das tecnologias relacionadas ao agronegócio?

Kümmel – Acredito que a robotização deverá ser o próximo passo, com todos os equipamentos operando de forma autônoma. Você vai ter um operador que ficará dentro de um veículo observando as máquinas trabalhando sozinhas. Estive na Alemanha há poucos dias, e percebemos que essa é uma tendência forte na área. Claro que existe a questão da legislação de cada país, mas penso que, nos próximos anos, essas inovações estarão espalhadas pelo mundo todo.

Também não acredito que essa tecnologia vá tirar o emprego das pessoas, mas certamente vai exigir uma mão de obra mais qualificada. Esse será mais um desafio para o campo. No Mato Grosso, a mão de obra tem que ser qualificada por nós mesmos. Se você quiser rentabilidade, esse é um dos caminhos que precisa ser seguido.

A Granja – Como as inovações colaboram para o aumento da produtividade?

Kümmel – Na última safra, a soja fechou na média de 65 sacas por hectare, número que vem melhorando desde que começamos a incorporar novas tecnologias e a pensar na nossa lavoura como indústria, como negócio que precisa ser rentável. Não temos a maior média do estado, mas estamos acima da média. Minha grande vontade é passar de 90 sacas como média geral, mas sabemos que, além do nosso trabalho, dependemos muito do clima. Em alguns talhões, conseguimos colher em torno de 80 sacas. Há produtores que conseguem colher até 120 sacas em alguns talhões, o que mostra o potencial que ainda existe para o crescimento da produtividade.

A Granja – Quais são os principais projetos de vocês para o futuro?

Kümmel – Entre os planos para os próximos anos está a continuidade da ampliação da lavoura de algodão, em um esquema de rotação com o milho na segunda safra. E, se tudo der certo, teremos nossa própria beneficiadora, porque vai chegar o momento em que não vai mais compensar beneficiar a produção em outro local. Também queremos ampliar nossa estrutura de armazenagem. Hoje, temos capacidade para 180 mil sacas, o suficiente para toda nossa soja, com uma produtividade de 65 sacas por hectare. Já o milho caberia em torno de 45% da colheita. Nos últimos anos, usamos silos-bolsa para guardar o restante da produção, mas, no momento certo, vamos expandir os armazéns na fazenda.