Gesso

Quando é a vez do GESSO

Correção

O insumo é importante para os sistemas de produção para minimizar o efeito tóxico do alumínio e aumentar os teores de cálcio em profundidade e fornecimento de enxofre. Mas a recomendação precisa ser criteriosa e baseada na condição de fertilidade das camadas superficiais e subsuperficiais

Tales Tiecher e Cimélio Bayer, Departamento de Solos da Faculdade de Agronomia, Interdisciplinary Research Group on Environmental Biogeochemistry (IRGEB) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), e Osmar Henrique de Castro Pias, da Ufrgs

A acidez e a baixa disponibilidade de nutrientes são os principais fatores que restringem a produtividade das culturas em solos brasileiros. A calagem é a prática mais difundida para correção da acidez do solo, promovendo a redução da toxidez por Al3+ e o aumento do pH e da concentração de cátions básicos, como cálcio (Ca) e magnésio (Mg). Contudo, devido à baixa solubilidade do calcário, a calagem nem sempre é eficiente na correção da acidez em subsuperfície (abaixo de 20 centímetros de profundidade), principalmente em solos com baixos teores de matéria orgânica, compactados e degradados. Esse problema é agravado quando o sistema plantio direto é implantado em áreas sem a correção prévia da acidez em profundidade, resultando em alta saturação por alumínio (Al) e baixa concentração de Ca e Mg logo abaixo de dez centímetros de profundidade. Além disso, devido aos princípios de mínimo revolvimento no plantio direto, há a indução da formação de um gradiente de concentração de nutrientes e matéria orgânica, devido à sucessiva deposição de resíduos e da aplicação de fertilizantes e corretivos em superfície. A alta acidez subsuperficial reduz o desenvolvimento radicular das plantas e, consequentemente, compromete a absorção de nutrientes, aproveitamento da água disponível e, por fim, a produtividade das culturas.

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Figura 1 – Localização de estudos com gesso em solos sob plantio direto Obs.: Os números entre parênteses representam os cultivos em cada local

Nas últimas décadas, muitos estudos têm sido realizados para avaliar o potencial do gesso agrícola como condicionador de solos que apresentam de mediana a elevada acidez em subsuperfície. Globalmente, o gesso é utilizado na agricultura como fonte de Ca e enxofre (S), condicionador de atributos físicos e mitigador da salinidade dos solos. O potencial de uso do gesso visando mitigar a acidez subsuperficial foi descoberta no Brasil no final da década de 1970 em sistema de preparo convencional e ainda vem sendo utilizado para esse fim quase que unicamente neste País. O gesso agrícola apresenta solubilidade (2,5 gramas/litro) aproximadamente 150 vezes superior ao calcário, o que possibilita uma alta mobilidade de cátions básicos (tais como Ca2+, Mg2+ e potássio, K+) associados, principalmente, ao sulfato (SO42-) da superfície para camadas mais profundas. Dessa forma, o gesso promove a redução da atividade e da toxicidade do Al3+ trocável às plantas ao se dissociar em subsuperfície, possibilitando o aprofundamento do sistema radicular das plantas e, consequentemente, melhora o aproveitamento de água e nutrientes.

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Figura 2 – Critérios para aplicação de gesso em áreas de plantio direto com base na saturação por Al da camada de 20/40 cm

As respostas das culturas à aplicação de gesso reportadas na literatura têm sido amplamente variáveis, ocorrendo desde substanciais incrementos e ausência de efeito até reduções em produtividade de grãos. Esses resultados contrastantes podem estar relacionados a uma série de fatores, como textura, acidez e tipo de solo, disponibilidade hídrica, tipo de cultura, dose de gesso, tempo entre aplicação do gesso e o cultivo das culturas. Em um estudo recente do Interdisciplinary Research Group on Environmental Biogeochemistry (IRGEB), da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), foram analisados 43 pu blicações científicas sobre o uso do gesso no plantio direto no Brasil e no Paraguai, totalizando 129 safras (Figura 1), para compreender melhor as condições nas quais há maior probabilidade de resposta ao gesso agrícola.

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Figura 3 – Rendimento relativo das culturas com resposta positiva à aplicação de gesso em áreas de plantio direto

A Figura 2 ilustra uma síntese dos resultados quanto à tomada de decisão na aplicação ou não de gesso. Os resultados indicam que cereais como milho, trigo, aveia-branca, cevada e arroz apresentam alta probabilidade (de 77% a 97%) de resposta à aplicação de gesso agrícola, com incremento médio de 7% e 15% na produtividade de grãos, em solos com saturação por Al >5%, sem e com a ocorrência de déficit hídrico, respectivamente (Figura 2). Por sua vez, a cultura da soja apresenta resposta ao gesso apenas quando ocorre a combinação de solos com saturação por Al>10% e a presença de déficit hídrico (Figura 2), incrementando, em média, 23% o rendimento de grãos, com probabilidade de resposta positiva de 88%. O fato de os cereais responderem mais ao gesso em solos com alta saturação por Al no subsolo pode ser parcialmente atribuído ao uso mais eficiente do nitrogênio aplicado devido ao maior crescimento radicular. Assim, o efeito do gesso menos acentuado com a soja ocorreu porque ela obtém a maior parte do N via fixação biológica.

Na ausência de deficiência hídrica, a soja responde positivamente ao gesso (aumento médio de 6,7%) somente em solos com teor de Ca2+ trocável menor que 5 milimols de carga por decímetro cúbico (mmolc/dm3) e saturação por Al3+ superior a 40%. Em condições de deficiência hídrica, o gesso potencializa a produtividade não apenas da soja, mas RS também dos cereais cultivados em solos com teores trocáveis de Ca2+ inferiores a 20 mmolc/dm3. Nessas condições, a resposta também pode estar relacionada ao suprimento de S para as culturas. Quando o objetivo principal da aplicação de gesso é o fornecimento de S, o gesso pode ser usado em doses de 150 a 200 quilos/hectare quando o teor de S disponível no solo é menor que 7,5 miligramas por decímetro cúbico (mg/dm). Contudo, é importante ressaltar que, devido à alta mobilidade do sulfato no solo, especialmente quando ele é aplicado juntamente com o Ca, como no gesso agrícola, existe um efeito residual muito curto de doses baixas, e o incremento nos teores de sulfato nas camadas superficiais (acima de 20 centímetros) diminuiu rapidamente logo depois das primeiras chuvas após sua aplicação.

Tomada de decisão — De acordo com o estudo, os critérios de tomada de decisão para aplicação de gesso em áreas de plantio direto para produção de grãos observado na análise conjunta dos estudos desenvolvidos no Brasil e no Paraguai são mais rigorosos que os atualmente utilizados nas recomendações oficiais, segundo as quais o gesso é recomendado em situações em que o solo apresenta saturação por Al superior a 20% em subsuperfície (Figura 2). Apesar de os efeitos na produtividade das culturas aumentar com o aumento da saturação por Al em subsuperfície, estudos tem mostrado que, em solos com acidez subsuperficial muito elevada (saturação por Al >40%), situação que ocorre quase que exclusivamente quando o plantio direto foi iniciado de forma inadequada sem correção da acidez do perfil do solo, o gesso agrícola não tem efeito satisfatório quanto à produtividade das culturas. Nessas situações, é preconizado que seja realizada a aplicação e a incorporação do calcário, estabelecendo o reinício do sistema plantio direto (Figura 2).

As respostas ao gesso reportadas na literatura variam desde substanciais incrementos até reduções em produtividade de grãos, passando por ausência de efeito.

Os estudos que relatam aumento da produtividade das culturas devido à aplicação de gesso demonstram que doses entre duas a três toneladas/hectare são suficientes para se obter produtividade em torno de 95% do rendimento máximo (Figura 3). É importante destacar que, para esses estudos avaliados, na grande maioria dos casos, a dose de máxima eficiência econômica não apresentou boa relação com as doses de gesso calculadas utilizando o teor de argila e teor/ saturação por Ca.

Cabe salientar que a aplicação de gesso em solos com saturação por Al <5% pode causar efeito adverso na produtividade das culturas, especialmente quando da utilização de altas doses de gesso em solos mais arenosos e com baixa Capacidade de Troca de Cátions (CTC). A literatura disponível demonstra que mesmo aplicações de 0,5 toneladas/ hectare em solos arenosos (<17% argila) da Fronteira Oeste do Rio Grande do Sul com menos de 5% de saturação por Al na camada de 20 a 40 centímetros já são suficientes para diminuir a produtividade do milho. Existem ainda relatos na literatura que demonstram que doses maiores que 6 a 9 toneladas/hectare podem, inclusive, diminuir a produtividade das culturas em solos argilosos (>60% argila) no Paraná. O efeito negativo do gesso na produção de grãos de algumas culturas de solos com baixa saturação por Al na camada de 20 a 40 centímetros é resultado da competição do Ca por outros cátions na CTC do solo, resultando em maiores perdas por lixiviação e deficiência induzida de Mg2+ e K+ trocáveis. Uma estratégia eficiente para reduzir os efeitos indesejáveis do gesso (deficiência induzida na superfície por Mg2+) é a aplicação prévia de calcário dolomítico.

O gesso agrícola é um importante insumo para os sistemas de produção agrícolas do Brasil, tanto pelo efeito de minimizar o efeito tóxico do Al e aumentar os teores de Ca em profundidade, quanto pelo fornecimento de S. Contudo, a sua recomendação deve ser criteriosa e baseada em um bom diagnóstico da condição de fertilidade das camadas superficiais e subsuperficiais do solo, evitando custos desnecessários ao sistema de produção ou inclusive problemas adversos à produtividade das culturas.