Fitossanidade

Como GERENCIAR a resistência aos fungicidas

O manejo integrado, que prevê a utilização racional e coerente de diferentes estratégias de controle das doenças da soja, pode evitar ou mitigar o danoso problema dos fungos resistentes a fungicidas. Da mesma forma, ações como rotação de culturas, adubação equilibrada e sementes com qualidade fisiológica e sanitária

Fitopatologista Luís Henrique Carregal, da Agro Carregal Pesquisa e Proteção de Plantas

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A resistência pode ocorrer em função da cultura, do fungo, do fungicida e também da forma como os fungicidas são utilizados

A resistência de fungos a fungicidas é um processo natural, hereditário, caracterizado pela redução ou perda de sensibilidade do fungo a determinado fungicida ou grupo químico. Algum tempo atrás, a resistência era detectada a campo quando um ou alguns agricultores percebiam que o fungicida não apresentava a mesma eficácia de anos anteriores. Hoje em dia, com o crescimento da pesquisa em instituições privadas, boa parte dos problemas são primeiramente detectados em testes de campo (experimentos de eficácia) e também em laboratório (baselines), antes mesmo que o agricultor verifique o problema em suas lavouras. No caso específico da cultura da soja, diferentes casos de resistência foram diagnosticados nos últimos 15 anos. Na tabela a seguir, encontram-se os dados referentes ao patossistema, época da diagnose e pesquisadores responsáveis pelos primeiros relatos no Brasil.

É importante salientar que a resistência pode ocorrer em função da cultura, do fungo, do fungicida e também da forma como os fungicidas são utilizados. Cada fator será elucidado a seguir.

Cultura: quanto maior a área plantada, maior será a diversidade de situações de aplicação. A soja, hoje, representa a principal cultura do País com mais de 35 milhões de hectares. Se considerada a média de aplicações de fungicidas no Brasil, ou seja, 3,4 aplicações por hectare, são, anualmente, quase 120 milhões de hectares expostos à aplicação de fungicidas.

Fungos: todos os fungos geram variabilidade genética como forma de sobreviver às condições adversas. A mesma pode ser gerada de diferentes formas, entre as quais destacam-se a reprodução sexuada e as mutações. Fungos como o causador da ferrugem asiática desenvolvem epidemias policíclicas, sendo capazes de produzir milhares de esporos (uredosporos) a cada sete a 12 dias. A taxa de mutação é de 10-6, ou seja, a cada 1 milhão de esporos, um é geneticamente diferente. Ainda pode ocorrer o ciclo parassexual do fungo, o que gera ainda mais variabilidade. Quanto maior a quantidade de propágulos produzidos pelo fungo, maior a chance da ocorrência de resistência.

Fungicidas: muitos fungicidas apresentam sítio de ação específico, ou seja, inibem predominante um único processo vital no fungo. Como exemplo, os triazóis afetam a síntese de ergosterol inibindo a enzima C-14 α desmetilase, enquanto as estrobilurinas inibem o transporte de elétrons no citocromo BC1 e as carboxamidas inibem a enzima succinato desidrogenase. Todos esses grupos químicos apresentam sítio de ação específico. Quanto mais específico for o fungicida, maior o risco de ocorrência da resistência. É importante salientar que o fungicida não induz a resistência dos fungos, apenas selecionam os indivíduos naturalmente resistentes. Após essa seleção, os indivíduos resistentes que permanecerem na população irão se multiplicar, evidenciando as falhas de controle.

Forma de uso dos fungicidas: talvez esse seja um dos principais fatores que favoreçam a seleção de indivíduos resistentes. Refere-se à forma com que agricultores utilizam os fungicidas. Aplicações curativas ou erradicativas, alta pressão de inóculo, sub ou superdose são os equívocos mais comuns cometidos a campo. Seguir intervalo e número de aplicações de um determinado produto ou modo de ação também são rotineiramente desobedecidos à campo.

Soluções — Então, como evitar, atrasar ou gerenciar os problemas de resistência dos fungos aos fungicidas? De antemão, o agricultor deve sempre seguir as recomendações técnicas de um engenheiro-agrônomo. Além disso, desenvolver a cultura do manejo integrado, a qual preconiza a utilização racional e coerente de diferentes estratégias de controle. O bom manejo de doenças inicia-se com rotação de culturas, adubação equilibrada e aquisição de sementes de excelente qualidade fisiológica e sanitária.

No caso específico da cultura da soja, o vazio sanitário se destaca como principal estratégia para redução de inóculo, principalmente das populações resistentes, e atraso no início das epidemias. O vazio sanitário engloba o período em que as áreas de cultivo não tenham a presença da soja, seja cultivada ou tiguera (soja remanescente da colheita). Um fato que vem preocupando os técnicos e pesquisadores é a ânsia de algumas instituições que representam os produtores rurais em alterar o período do vazio sanitário e, até mesmo, incentivar e liberar o cultivo da soja em segunda época, a denominada safrinha. O problema da soja safrinha é ainda maior, uma vez que há aumento no número de pulverizações de defensivos e, com isso, maior pressão de seleção de indivíduos resistentes. Isso ocorre não somente para o fungo causador da ferrugem, mas para todos os demais, além da maior pressão de seleção também nas ervas invasoras e pragas como mosca-branca, percevejos e lagartas.

artas. Outros pontos devem ser observados no que tange à boa tecnologia de aplicação dos defensivos, respeitando-se as doses, o número e o intervalo entre as aplicações. Nutrição adequada das plantas, plantio na época recomendada para cada região, opção por cultivares de ciclo mais curto e resistência genética também são fundamentais no manejo integrado de doenças. Em relação ao controle químico, a melhor opção para atrasar a ocorrência de resistência ou gerenciá-la é através da obediência às recomendações técnicas já mencionadas neste texto. Além disso, o agricultor deverá aplicar os fungicidas sempre preventivamente e utilizar o maior número de grupos químicos disponíveis, além de rotacioná-los. A introdução de fungicidas multissítios, como clorotalonil, cúpricos e mancozebe, é fundamental nesse processo e deve estar associada às aplicações dos fungicidas sítio-específicos com ação penetrante (triazóis, morfolinas, estrobilurinas e carboxamidas). No entanto, para que seu efeito atinja o objetivo, é necessário respeitar as doses e os intervalos de aplicação. E consultar sempre um engenheiro-agrônomo.

Syngenta no 12º Congresso Brasileiro do Algodão

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Convidar o cotonicultor a “experimentar o futuro” foi a estratégia da Syngenta para atrair a atenção dos participantes da 12ª edição do Congresso Brasileiro do Algodão, que aconteceu no mês passado, em Goiânia. De acordo com o gerente de Mercado de Algodão, Marcio Trento, a base do conceito de experimentar o futuro foi disponibilizar ao cotonicultor “todas as nossas soluções para a cultura do algodão. Vale destacar, entre elas, o Ampligo Pro, e também o serviço Strider Protector, que oferece um controle mais eficiente de pragas e doenças, agregando gestão sustentável ao uso de defensivos”. Outra novidade foi a extensão do Manejo Consciente Syngenta à cultura do algodão. “Tratam-se de dez princípios fundamentais para realizar o manejo do cultivo de forma adequada e sustentável”, revelou.

FMC com novo diretor de Negócios

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A diretoria de Negócios do Brasil da FMC, agora, está com Marcelo Magurno, que assumiu com objetivo de dar sequência à estratégia de crescimento da empresa, fortalecendo a parceria com produtores, cooperativas e demais elos da cadeia produtiva. Magurno possui mais de 25 anos de experiência em agronegócio e começou sua carreira na FMC em 1995, ocupando diversas posições de liderança, tendo sido, inclusive, transferido para o México, entre 2013 e 2016, quando assumiu a função de Diretor Nacional de Vendas. Ao retornar para o Brasil, recebeu o cargo de diretor de Negócios para a Região Norte, onde permaneceu por três anos.


Contra os mitos que atacam a ciência

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Mario Von Zuben, diretor-executivo da Associação Nacional de Defesa Vegetal (Andef)

Quais são as principais iniciativas da Andef em defesa da agricultura sustentável?

A Andef, como representante das empresas que atuam em pesquisa e desenvolvimento de soluções para controle fitossanitário, tem o compromisso de promover a ciência e a inovação neste setor, preservando a saúde humana e o meio ambiente. As empresas de pesquisa e desenvolvimento têm investido em pesquisa científica que possibilite a descoberta de novas moléculas, cada vez mais modernas e seguras. Há um grande avanço científico, não só no desenvolvimento de produtos com melhor perfil e nas formas de uso desses produtos, mas, principalmente, na ciência aplicada aos procedimentos que suportam os estudos e as avaliações de risco ocupacional, dietético e ambiental.

Como a Andef avalia a acusação que a agricultura brasileira se utiliza de defensivos banidos na União Europeia?

Em primeiro lugar, é importante destacar que cada país adota diretrizes próprias sobre registro de produtos. Além disso, diferentes condições climáticas e tipos de culturas requerem diferentes manejos fitossanitários. E também é preciso diferenciar defensivos banidos de defensivos que não são registrados. Quando um produto é banido, significa que ele havia sido aprovado e que, por alguma reavaliação baseada nas regulações de cada país ou região global, sua utilização deve ser descontinuada. Já a ausência de registro significa que o produto não teve sequer um pedido de avaliação em determinado país, e isso pode acontecer por diversos motivos, como, por exemplo, o produto ser destinado a uma praga que não tem incidência significativa na região em questão ou até ser voltado a uma lavoura que não é cultivada no local. Por isso, o fato de países europeus não utilizarem produtos que são usados no Brasil significa apenas que lá esses pesticidas não são necessários. Com essas informações expostas, chegamos a uma informação que tem sido bastante apresentada: que o Brasil utiliza cerca de 150 produtos banidos na União Europeia. Essa alegação é falsa, e apresento uma análise para comprovar a afirmação: desse total de 150 produtos, 40 não são destinados à agricultura (são de uso exclusivo, como domissanitários, biológicos, preservativos de madeira, feromônios e fumigante, por exemplo); 43 não tem qualquer registro de uso agrícola no Brasil; e nove são registrados no Brasil, mas nunca sequer foram submetidos à aprovação na União Europeia (pois são produtos usados em culturas de clima tropical). Nessa conta, restam, então, 58 produtos que são registrados no Brasil e não são autorizados na União Europeia, dos quais 57 são utilizados em países como Estados Unidos, Canadá, Japão e Austrália. E por que isso acontece? Porque cada país tem uma necessidade específica para atender às suas características de agricultura e clima.

Por exemplo?

Por exemplo, fungicidas são mais utilizados no Norte da Europa, nas culturas de cereais, sob clima úmido e relativamente frio; já inseticidas são mais requisitados em climas quentes, nos quais existe maior diversidade de pragas, como no Brasil. Isso quer dizer que os produtos são avaliados e aprovados de acordo com a necessidade de uso específica e particular de cada país. Se um produto é utilizado no Brasil, mas não em outros locais, significa que ele está atendendo a uma necessidade característica daqui que não existe em outros países, e não necessariamente que ele esteja banido nesses lugares. Para ilustrar, mostro dois exemplos práticos: para a cultura das oliveiras, em Portugal, existem 26 produtos disponíveis para esse cultivo, enquanto que, no Brasil, apenas três, apenas porque essa é uma produção muito mais significativa naquele país; para o trigo, na Alemanha existem mais 30 produtos aprovados para uso nessa cultura, que sequer têm registro para uso agrícola no Brasil. E isso não é um problema, indica apenas que a Alemanha tem necessidades específicas e que não são as mesmas do Brasil.