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VOLTO AO TEMA DESENVOLVIMENTO DA PESQUISA AGROPECUÁRIA, EM SUA NOVA FASE

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É indiscutível que o trabalho do Brasil em termos de pesquisas, ciência e inovação, nas décadas de 1970 e 1980, foi exemplar. Basta dizer que, nessas duas décadas, o País conseguiu desenvolver o necessário conhecimento para o uso dos seus recursos tropicais, coisa ainda não realizada em nenhuma parte do mundo. Fomos capazes de criar uma nova agricultura tropical altamente competitiva e sustentável. Fizemos, em 20 anos, o que a agricultura temperada do globo levou quatro milênios. O maior atestado desse fato é que, de país importador, na década de 1970, em quase um terço do que consumíamos internamente, passamos a nos colocar, hoje, como um dos maiores players na produção e na exportação de produtos agrícolas no mundo. Isso só foi possível porque, na realidade, esse assunto não só foi colocado como prioridade no programa de Governo, mas, principalmente, porque se constituiu nessa fase um verdadeiro Projeto de Estado, que foi capaz de mobilizar todos os recursos disponíveis no País e colocá-los, de forma harmônica, na execução de uma tarefa antes considerada impossível e que, pela determinação da ação de Governo, se viabilizou.

Infelizmente, as três décadas que se seguiram não foram capazes de manter a efetiva prioridade necessária a um projeto dessa natureza, e a falta de recursos, principalmente provocada pelos famigerados planos econômicos, levou o projeto integrado de pesquisa, chave do sucesso das duas décadas anteriores, a se desmanchar. Uma harmônica integração, na qual todas as instituições federais, estaduais, municipais e privadas foram destruídas pela falta de recursos financeiros, e cada um dos agentes passou a digladiar-se na busca de suas sobrevivências.

Não sei se podemos dizer que faltaram recursos financeiros ao grande projeto que revolucionou a agricultura brasileira pela busca do conhecimento, da tecnologia e da inovação que deram ao País as condições de se tornar um dos maiores produtores de alimentos, produtos agrícolas e de bioenergia. Os orçamentos anuais sempre foram contemplados com fundos específicos para a manutenção das instituições de pesquisa. No entanto, os planos econômicos, com sua voracidade, comiam todos os recursos intencionalmente colocados para manter o nível da pesquisa pelo menos de forma satisfatória. Todos os recursos disponíveis passaram a ser contingenciados, na realidade, para fazer a rolagem da famigerada dívida pública, que, ao fim do século passado, já ultrapassava R$ 1 trilhão, e que, 19 anos depois, atingira a inimaginável quantia dos R$ 5 trilhões. Haja vista o nosso Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT), esperança que se frustrou antes de começar. Este e tantos outros recursos sumiram como que por encanto, até mesmo os orçamentos individuais de cada instituição, qualquer que fosse sua origem, passaram a receber cortes imprevisíveis.

Uma outra incongruência surgia também com relação a pessoal treinado para fazer ciência. Neste ano, o Brasil deverá formar 21 mil doutores – e pelo menos uns 4 mil nas áreas de Biologia e Ciências Agrárias. Todos eles sem praticamente nenhuma esperança de ter chance de exercer o seu preparo em um trabalho sério e rentável à nação brasileira. É triste ver o número de condutores de Uber nas ruas de nossas capitais, com seus títulos de doutores e pós-doutores. O descompasso entre a formação e a utilização de uma nobre mão de obra como essa, que acabou sendo também contingenciada com os recursos do orçamento nacional. Hoje, vivemos o drama. As nossas instituições carentes de recursos financeiros e privadas dos melhores recursos humanos que podiam dispor porque o Projeto Nacional de Apoio à Pesquisa Agropecuária até agora não veio.

O mundo globalizado é cada vez mais competitivo. Fizemos a proeza de colocar em funcionamento uma nova e progressista agricultura tropical sustentável e altamente competitiva. Se não tivermos condições de fazê-la se desenvolver e aproveitar como já antevemos as nossas vantagens comparativas nos seis biomas tropicais que possuímos, vamos perder a bola da vez. Vamos todos ajoelhados pedir, com muita fé, que a nossa economia se renove e que as coisas possam voltar aos devidos lugares de onde não deveriam ter saído.

Engenheiro-agrônomo, produtor, presidente-executivo da Abramilho e ex-ministro da Agricultura