O Segredo de quem faz

A vitória da AgriculturA do cApricho

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Quais são os segredos de um campeão? Ou como explicar a produtividade de 123,88 sacas de soja por hectare obtida pelo gaúcho de Cruz Alta Maurício de Bortoli – vencedor, junto com o irmão Eduardo, da 11ª edição do Desafio Cesb de Máxima Produtividade de Soja, concurso promovido pelo Comitê Estratégico Soja Brasil (Cesb) e que mobilizou, neste ano, mais de 4 mil produtores? A explicação é simples: “A principal dica ou conselho que eu quero deixar para os demais produtores do Rio Grande do Sul e do nosso País é que temos que fazer o básico bem feito. O que é o ‘básico bem feito’? Chama-se ‘agricultura do capricho’”. A descrição dessa agricultura está a seguir, na entrevista de Bortoli, que é engenheiro-agrônomo e cultiva 10 mil hectares em nove fazendas no Estado, metade em área arrendada. O concurso se divide nas categorias Sequeiro e Irrigado, e ele foi o campeão geral, além de ter sido primeiro, segundo e terceiro colocado na Irrigado.

Leandro Mariani Mittmann
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A Granja – O que você fez de diferente, de excepcional para conquistar uma premiação tão importante?

Maurício de Bortoli – Na verdade, não teve nada de excepcional. Uma lavoura para ser campeã de um Desafio Cesb é uma lavoura construída ao longo dos anos. Ela é pensada em Agronomia pura e aplicada, ou seja, pega todos os conceitos da fertilidade, da rotação de culturas, da conservação de solos e aplica isso. Por quê? Porque para construir um ambiente campeão tem que condicionar todo seu solo a um sistema equilibrado, para que não falte nenhum tipo de nutriente para a planta, porque as raízes da planta exploram o solo, e esse solo tem que estar todo equilibrado para acondicionar essas raízes, a nutrir essa planta e conseguir canalizar toda essa energia para os grãos. Obviamente que é muito importante o manejo feito na área, ou seja, proteção do cultivo e o clima que ocorre nesse verão que, juntamente com a água que vai para o solo através da chuva e é armazenada por esse solo bem nutrido transforma tudo isso em energia para os grãos.

A Granja – E dessa lavoura diferenciada, o que em tecnologias e técnicas você já aplica na lavoura comercial?

Bortoli – As áreas do Desafio do Cesb são áreas modelo, ou seja, nelas implantamos diversas técnicas da Agronomia, capricha-se muito bem nesse manejo para equilibrar todo esse ambiente solo e planta, e também testam-se novas tecnologias, medem-se algumas implementações novas para que estas sirvam de referência para as demais. Temos evoluído muito nas áreas do Desafio do Cesb na parte de correção do perfil do solo e de nutrição de plantas. Essas áreas do Cesb são referência para nós, são cases de estudo. Como aplicamos novas tecnologias na área, conseguimos medir as tecnologias sobre quanto agregam em produtividade, e depois replicamos nas demais áreas da empresa. Eu não saberia dizer uma única estratégia que eu tiro das áreas do Cesb. Como eu já participo do Desafio há seis anos, já uso dezenas de estratégias que acabei implementando na área do Cesb nas minhas áreas convencionais. Por isso, eu consegui subir a média da minha empresa familiar aqui no município de Cruz Alta, que era em torno de 52 a 53 sacas por hectare, e, nesta safra, conseguimos fechar a média de quase 73 sacas/hectare. Ou seja, consegui aumentar a média da minha propriedade em 20 sacas por hectare adicionando as tecnologias novas, que viraram em resultado.

A Granja – E de todas as tecnologias e técnicas aplicadas na lavoura do concurso, o que você considera aplicáveis em uma lavoura comercial?

Bortoli – A técnica mais utilizada nas áreas do Cesb e que mais dão resultado no ambiente produtivo chama-se agricultura de precisão (AP). Por quê? Como eu falei, temos que condicionar esse solo a dispor de todos os nutrientes necessários para que as plantas consigam, equilibradamente, produzir mais, e as ferramentas de AP são muito necessárias, porque é com a observação, com a medição, ou seja, se tira uma amostra de solo e se consegue mensurar o quanto aquele solo está desequilibrado. Nós ficamos mais assertivos na tomada de decisão, ou seja, sabemos quais os caminhos para equilibrar esse solo, ficamos mais racionais no uso de insumos e fertilizantes minerais, ficamos muito mais técnicos, do ponto de vista custo-benefício. Ou seja, quando se identificam os problemas do teu solo, as limitações químicas deste, ou seja, nutricionais, você consegue agir da melhor forma e obter um resultado à altura do seu investimento. Então os caminhos para você crescer em produtividade média e em alta produtividade chama-se agricultura de precisão. A técnica que eu não utilizaria na minha área geral e que já medi na área do Cesb e não deu resposta foi o plantio alternado de linha, ou seja, colocar mais população de plantas para explorar o ambiente e reduzir o espaçamento convencional, que é de 45 a 50 centímetros, para algo em torno de 22 a 22,5 centímetros de espaçamento. O plantio alternado de linhas ou plantio adensado foi uma técnica que eu testei, medi, e não dá resposta significativa, e acabei não implementando nas demais áreas da minha propriedade.

A Granja – O que você aprendeu na lavoura do concurso que levará à lavoura comercial já em 2019/20 ou nas próximas safras?

Bortoli – A técnica ou tecnologia mais responsiva que posso utilizar nos campos das áreas campeãs do Cesb e também posso transmitir para as demais áreas é a escolha de uma semente de alta qualidade fisiológica. Em alta qualidade fisiológica, falo nos principais componentes, que são germinação e vigor, patologia e nutrição de sementes. São esses três fatores de qualidade quantitativa. Eu preciso observar isso porque notei, nas áreas do Cesb onde usamos lotes com sementes de maior germinação e maior índice de vigor, além de uma emergência mais uniforme, um padrão de plantas mais bem construído. Também precisamos observar a origem da semente, ou seja, qual o campo que gerou essa semente, porque as sementes de soja hoje têm memória transgeracional. Esse é um termo novo, recentemente pesquisado, mas ele tem muita resposta a campo, porque essa memória transgeracional carrega da safra anterior no seu DNA todo o código do último cultivo, ela expressa, no próximo cultivo, toda essa carga. Então, se uma semente foi produzida em um campo com alta nutrição, em um ambiente com chuvas regulares, com manejo de doenças muito bem feito e um controle até o final de todos os processos que geraram um lote de excelente qualidade, essa memória transgeracional vai ser passada para a próxima safra e vai responder em produtividade.

A Granja – E quais foram os custos por hectare da lavoura do concurso? São desembolsos para tornar viável uma lavoura comercial?

Bortoli – Os custos de produção estão todos explicados, decompostos na planilha do Cesb, no case campeão (www.cesbrasil.org.br/wp-content/ uploads/2019/06/case-campeao-CESBnacional-e-irrigado.pdf). Com certeza, uma área do Cesb recebe um pouquinho mais de cuidado na parte nutricional e na parte técnica, mas, digamos, eu não planto uma área para o Cesb, não planto uma área para o concurso. Eu semeio uma área para mim, uma área dentro da fazenda, onde escolhemos um ambiente produtivo, investe-se nesse ambiente na proporção correta, e obtenho um resultado. Eu quero desmistificar essa imagem que o Desafio Cesb tem de que as pessoas fazem áreas para o concurso, que, no meu caso, não se aplica. Eu não planto área para o Cesb. Planto as áreas normais da minha lavoura, as áreas tradicionais, e apenas faço um investimento nessas áreas para que elas consigam responder à altura. Então esse dado, para mim, é muito importante, porque ele tem que ser replicável, ou seja, a área que eu faço para o concurso tem que ser totalmente aplicável nos demais hectares e talhões da fazenda, porque eu não posso lançar mão de tecnologias que não sejam viáveis no campo e que não tenham resposta econômica e produtiva.

A Granja – Que dicas e orientações você daria a outros produtores para usarem em suas lavouras?

Bortoli – A principal dica ou conselho que eu quero deixar para os demais produtores do Rio Grande do Sul e do nosso País é que temos que fazer o básico bem feito. O que é o “básico bem feito”? Chama-se “agricultura do capricho”. É caprichar desde a cobertura do solo no inverno, fornecer uma excelente palhada para o cultivo de verão, condicionar esse solo para que ele tenha todos os nutrientes necessários para que essas plantas busquem, via raiz, absorver e conseguir nutrir essa planta; escolher uma excelente semente, com carga genética responsiva e também com qualidade fisiológica; semear de forma uniforme e com velocidade controlada para que as plantas consigam se desenvolver neste ambiente; nutri-las de forma assertiva e pontual em todo o ciclo; e proteger as folhas com relação ao manejo; fazer uma proteção de cultivos na qual você mantenha as folhas até o final, porque “as raízes exploram, as folhas transformam e o conjunto produz”. Então o resultado de uma área campeã, a dica que eu quero dar é que o produtor proteja a planta da melhor forma, porque ela é uma usina de energia que vai transformar tudo isso na produção de grãos.

A Granja – Quais são os maiores equívocos que o produtor brasileiro comete que comprometem as suas produtividades, seja de soja ou outras culturas?

Bortoli – Acho que o principal erro do produtor rural, hoje, é a tomada de decisão, a tomada de decisão baseada na opinião. Eu acredito que todos os produtores rurais que são mais técnicos e mais assertivos produzem mais porque tomam decisão baseados em informações, que é o meu caso. Eu jamais invisto em uma técnica, tecnologia ou produto na minha propriedade que eu não tenha informação. Eu não escuto opiniões de outros ou de terceiros que venham me dizer que tais tecnologias ou tais produtos tenham resposta no meu campo sem que eu faça medição disso em área menor. Eu tenho áreas experimentais, faço testes, conduzo experimentos na propriedade que me geram informação e, baseado na informação, tomo decisões e faço investimentos na propriedade. Eu acredito que o principal erro do produtor rural brasileiro é tomar decisões baseado em opiniões sem mensurar, e sem conseguir ter verdadeiro resultado, e, às vezes, adota tecnologias que não têm valor, têm apenas preço, que aumentam só o custo da propriedade e não respondem em produtividade.

A Granja – Quais são os teus planos e projeções para a safra 2019/20? Vai ampliar área ou não? E as perspectivas para a rentabilidade?

Bortoli – Meus planos são investir em solo, em qualidade de sementes, em manejo para verticalizar a minha produção sem precisar aumentar a área. Eu estou muito preocupado com os custos de produção, com os preços de aquisição de terras, com os valores de arrendamento. Então pretendo não aumentar a minha área, e sim aumentar a minha produtividade, porque, aumentando a produtividade, consequentemente, aumento a minha lucratividade. A minha empresa tenta se manter firme na agricultura fazendo investimentos pontuais e assertivos, aumentando os resultados de campo sem precisar crescer em tamanho, mas sim crescer de forma vertical, porque é investindo em tecnologias que conseguimos aumentar a produtividade e, consequentemente, a lucratividade de cada talhão da propriedade.

A Granja – O que mais você gostaria de ressaltar sobre a premiação e sobre o seu trabalho?

Bortoli – O produtor, hoje, deve estar atento a vários fatores que interferem na produtividade. Mas os fatores que mais interferem na produtividade, no meu entendimento, são três, que eu busco observar e atentar às decisões, que são genética, ambiente e manejo. Não existe como aumentar a sua produtividade sem conhecer a sua genética, sem saber a melhor época de semeadura, sem saber qual o melhor ambiente a ser semeado. Então, dominando a genética, conhecendo o ambiente e adotando boas práticas de manejo, você vai construindo a produtividade baseado em decisões mais assertivas. Esse é o caminho do produtor rural.