Plantadeiras

Regulagem e manutenção: você está fazendo tudo certo?

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Pesquisa do Iapar constatou que, dos 35 produtores analisados, 40% erram “mais do que o aceitável” na regulagem/dosagem de sementes, enquanto que, no caso do fertilizante, o índice é de 60%. Artigo detalha como ajustar a plantadeira para o plantio de verão

Ruy Casão Junior, pesquisador colaborador do Instituto Agronômico do Paraná (Iapar)

Se perguntássemos para a cultura, como ela deseja ser semeada, possivelmente responderia o seguinte: “A máquina deve fazer o que a planta gosta”. No sistema plantio direto, comprometido com a cobertura morta sobre o solo, principalmente no clima tropical brasileiro, deseja-se também o “plantio direto invisível”, ou seja, quando, após a passagem da máquina, a palhada permaneça intacta sobre o terreno. A equipe do Instituto Agronômico do Paraná (Iapar) avaliou, em 2018, 35 máquinas semeando soja no Paraná e no Mato Grosso do Sul. Quando perguntado especificamente sobre o uso de plantas de cobertura, constatou-se que 57,1% não utilizam, priorizando a sucessão soja/ milho; 8,6% usam esporadicamente; e 34,3% utilizam frequentemente plantas como braquiária, milheto, aveia, entre outras. Mesmo assim, constatou-se que, antes da semeadura, 86,1% do solo estava recoberto com palha e, após a passagem da máquina, ainda permanecia com 63,3% de cobertura em média. Embora a meta seja 100% do solo coberto, observase uma evolução. No entanto, ainda há necessidade de aumentar o uso de plantas de cobertura na rotação de culturas (Casão Junior et al., 2019).

Esse conceito é importante, pois diz respeito ao projeto das máquinas semeadoras. Elas evoluíram muito da década de 1980 até os dias de hoje, conseguindo trabalhar sobre razoável quantidade de palha, mas, quando se tem mais de dez toneladas por hectare de cobertura morta sobre o terreno, as máquinas precisarão evoluir mais ainda sobre esse aspecto. De acordo com Casão Junior (2016, http://blog. agropro.com.br/semeadoras-para -plantio-direto-2/), existem 235 modelos de semeadoras de plantio direto no Brasil e 23 fabricantes, mostrando que há um domínio quase completo dessa tecnologia, desde equipamentos de uma linha tracionados por animal até máquinas com mais de 20 metros de largura, as quais crescem impressionantemente a cada ano. Como sugestões de regulagem de sementes e fertilizante, cabe ressaltar que, da pesquisa realizada pelo Iapar, já citada anteriormente (Casão Junior et al., 2019), constatou-se que, dos 35 produtores avaliados, 40% estão errando mais do que o aceitável na regulagem (dosagem) de sementes. E, no caso do fertilizante, esse valor já é de 60% (Casão Junior et al., 2019). Destaca-se que isso não tem a ver especificamente com a semeadora, e sim com o capricho do produtor. Iniciando-se o processo de regulagem, a máquina deve estar nivelada em relação à superfície do terreno. Isso é obtido pelo posicionamento apropriado do ponto de engate e observado pelo paralelismo do chassi da máquina com o solo.

Discos de corte — Os discos de corte, na maioria dos casos, são lisos, mas podem ser ondulados, estriados, lisos nas bordas e corrugados no centro, entre outros modelos. Também variam quanto ao seu diâmetro, de 16” a 22”. Quanto maior o diâmetro do disco, maior será o peso necessário para que o mesmo tenha a pressão mantida sobre o solo. Os mais usados são de 18”. A principal função do disco de corte é cortar a palha, portanto não é recomendado trabalhar a profundidade muito superior a cinco centímetros. Isso pode ocorrer quando o solo não está seco em sua superfície, aí a palha é empurrada, e não cortada, podendo ser capturada pela haste sulcadora, provocando embuchamentos ou formando bolsões de ar, prejudicando a implantação da cultura. Deve-se esperar que a superfície do terreno seque, juntamente com a palha, e funcione como uma contrafaca para a atuação do disco de corte.

Atrás do disco de corte vem o abridor de sulco para a deposição do fertilizante. Pode ser uma haste sulcadora ou um disco duplo. Nos solos mais argilosos, ou quando há um adensamento maior da superfície ou subsuperfície do solo, as hastes sulcadoras são as mais utilizadas. O Iapar estudou bastante esse rompedor de solo desde a década de 1990, recomendando para os solos mais argilosos que o ângulo de ataque deve ser em torno de 20° e a espessura da haste em torno de 20 milímetros. É lógico que não se pode generalizar para todas as situações, necessitando, ainda, de estudos para a recomendação em situações específicas. Muitos fabricantes oferecem hastes com características próximo dessa recomendação, possibilitando, inclusive, a alteração do ângulo de ataque, inclinando a haste, afastando-a ou aproximando-a do disco de corte e possibilitando alterar sua profundidade, e todas permitem a alteração da pressão da mola sobre o disco.

O importante é que essa haste abra um sulco na profundidade desejada para a deposição do fertilizante, considerando que ela não deve trabalhar como um subsolador. Deve, sim, efetuar a mínima mobilização do solo com a menor exigência de Na distribuição de sementes, podem haver dois tipos de erros: de dosagem, responsabilidade dos dosadores; e de deposição, que inicia-se ao cair no tubo de descarga Massey Ferguson/Divulgação potência possível. Há preocupação dos fabricantes quanto à ponteira, tanto quanto à forma como quanto à sua resistência, pois devem suportar o impacto e resistir ao desgaste. Todas as hastes possuem um pino que se rompe ao encontrar um esforço exagerado, algumas possuem desarme automático e outras um sistema denominado de “pula-pedra”, o qual é vinculado ao disco de corte. Outro componente que pode ser usado é uma roda de controle de profundidade da haste que também acumula a função de ajudar no fechamento do sulco.

Em solos menos argilosos ou menos adensados na superfície, é comum o uso de discos para abertura do sulco e deposição do fertilizante. São usados os discos desencontrados, os quais possuem o mesmo diâmetro, normalmente em torno de 15” e 16”, mas se desalinham no eixo, ou podem ser os discos defasados, esses com diâmetros ligeiramente diferentes, como, por exemplo, 15” e 15,5”. Há variações entre os fabricantes inclusive no ângulo de convergência dos disco à frente e na abertura dos discos atrás. Na sua maioria, os fabricantes procuram fechar ao máximo os discos até o ponto que permita a introdução do tubo de descarga do fertilizante no interior deles. Depositado o fertilizante, o solo deve retornar ao sulco, permitindo que os abridores de sulco para deposição de sementes atuem. Os discos duplos – que, na sua maioria, são encontrados em torno de 15” a 16” – também apresentam a característica de serem o mais fechado possível, para que o solo não seja lançado longe do sulco. Nesse caso, o desenho e o material do tubo de descarga são importantes. Recomenda-se que o mesmo tenha uma ligeira curva para trás.

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Na distribuição de sementes, podem haver dois tipos de erros: de dosagem, responsabilidade dos dosadores; e de deposição, que inicia-se ao cair no tubo de descarga

Distribuição de sementes — Na distribuição de sementes, podem haver dois tipos de erros: de dosagem e de deposição. Os de dosagem são de responsabilidade dos dosadores, sejam com discos horizontais perfurados ou pneumáticos. No caso dos erros de deposição, iniciam-se ao cair no tubo de descarga. Se a semente ricochetear nas paredes do tubo, é possível que se perca a uniformidade da distância entre as sementes, podendo ocorrer as famosas sementes duplas e as falhas no estande. Com a semente na profundidade, dosagem e posição obtida no sulco, deve, então, ser aterrada e compactada para que entre em contato com o solo, absorva água e ainda tenha oxigênio para iniciar sua germinação e completar a emergência.

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Existem 235 modelos de semeadoras de plantio direto no Brasil e 23 fabricantes, mostrando que há um domínio quase completo dessa tecnologia

Para que as sementes permaneçam na profundidade adequada, normalmente são usadas as rodas de controle de profundidade. Essas variam muito entre os fabricantes, e é comum o mesmo fabricante oferecer várias opções. Normalmente, são revestidas de borracha, podem estar próximas ou mais distanciadas longitudinalmente dos discos duplos, estar afastadas lateralmente, em ângulo para auxiliar no aterramento, e ainda podem permitir regulagem de abertura desse ângulo. Podem ser puxadas ou empurradas, e possuir um balancim permitindo que uma roda se movimente de forma independente à outra. O que todas oferecem é a regulagem de profundidade, que, com a evolução, estão cada vez mais práticas. O revestimento de borracha pode ser plano ou côncavo, ou labiado, ou seja, esse lábio funciona como um limpador do disco e direcionando o solo de volta ao sulco.

A compactação do solo junto às sementes, na sua maioria, é obtida com rodas inclinadas estreitas em “V”, revestidas de borracha maciça que simulam uma pressão lateral do solo, comprimindo as sementes. Mas não existe somente esse. Há as rodas mais largas, revestidas com borracha flexível, que podem possuir ressaltos para evitar espelhamento, e ainda, no centro das mesmas, um sulco convexo, para não haver pressão sobre as sementes. Todos esses componentes possuem regulagem para pressionar mais ou menos o solo. Na unidade de semeadura ou linha, todos esses componentes em contato com o solo exigem manutenção, e não é um processo simples. No passado, todos esses componentes tinham que ser engraxados, mas as máquinas normalmente eram pequenas, com cinco a nove linhas. Mas, agora, complicou, pois há máquinas semeando soja com mais de 60 linhas. Na maioria das máquinas, os dosadores de fertilizante já possuem mancais blindados, reduzindo a necessidade de engraxá-los, mas há dosadores que possuem graxeiras.

O problema está nos componentes em contato com o solo, que são agressivamente solicitados. Esse é o caso do disco de corte e dos discos abridores de sulco para fertilizante. Varia muito a opção entre os fabricantes. No caso dos discos de corte, há graxeiras no mancal do eixo que suporta o disco e no próprio disco de corte. Nos discos desencontrados ou defasados para fertilizante, varia muito se há ou não graxeiras ou rolamentos blindados. Nos discos duplos de sementes e nas rodas de controle de profundidade, a maioria são com rolamentos blindados, pois esse local é de difícil acesso, havendo menos solicitação de esforços. Nas rodas compactadoras, quase todas são engraxadas. Destaca-se que a eliminação de graxeiras é uma tendência, mas há polêmica em adotar essa opção entre os fabricantes e até entre os produtores. Uma coisa é certa: as máquinas estão aumentando e gasta-se muito tempo nessa operação. O assunto não se esgota aqui, mas foram apresentados alguns conselhos para tornar o produtor mais demandante na escolha e preocupado com sua máquina semeadora