Milho

Atenção ao PPP: perfil, palha e plano de manejo

O sucesso da lavoura de milho depende que três componentes sejam bem administrados: perfil de solo, cobertura do solo permanente em quantidade (palha) e eficiente plano de manejo (PPP). E é o planejamento bem feito de todos os fatores que vai definir o desenvolvimento das plantas

Emerson Borghi, Israel Alexandre Pereira Filho, Álvaro Vilela de Resende, Miguel Marques Gontijo Neto e Décio Karam, pesquisadores da Embrapa Milho e Sorgo, e Samuel Campos Abreu, analista de pesquisa da unidade

Considerada cultura estratégica para o alicerce da agricultura brasileira, o milho compõe diversos sistemas de cultivo, seja na sucessão após a colheita da soja, em cultivo consorciado com gramíneas forrageiras para compor sistemas integrados de produção lavoura-pecuária, ou mesmo compondo esquema de rotação de culturas no sistema plantio direto, principalmente na Região Sul. A diversidade de tecnologias empregadas nas regiões produtoras deste cereal torna dinâmica a oferta de grãos no mercado, e também impacta diretamente os preços das commodities agrícolas e/ou pecuárias que compõem os sistemas produtivos nos quais o milho está inserido.

Muitos produtores apostam no milho como a cultura que necessariamente deve estar compondo esquema de rotação de culturas. A alta produção de palha após a colheita e a grande capacidade adaptativa em cultivos outonais, além da possibilidade de retorno no investimento aplicado à cultura, são fatores que tornam essa cultura produtora de grãos indispensável para a intensificação sustentável da agricultura brasileira.

Desde o advento de tecnologias revolucionárias, como uso de hibridação, até a incorporação de ferramentas de biotecnologia adotadas nos últimos anos (transgenia com o milho Bt), o potencial genético da cultura aumentou significativamente. Os rendimentos observados recentemente têm relação direta com o desenvolvimento de híbridos cada vez mais produtivos e com a adoção de práticas agronômicas eficientes. Mas, para que esse fato seja conseguido, é necessário levar em conta três fatores principais: perfil de solo, cobertura do solo permanente em quantidade (palha) e eficiente plano de manejo. Tudo isso pode ser observado com antecedência, prevendo riscos, custos e a viabilidade de suas execuções. Para quem busca potencializar a produtividade, seja de grãos ou de silagem, esses fatores determinam a garantia de boas colheitas.

Milho

Imagem da colheita do milho safrinha na região de São Gotardo/MG, com destaque para a matéria seca sobre o solo após passagem da colheitadeira

Normalmente, a fertilidade do solo está associada somente aos atributos químicos – em especial, à disponibilidade de nutrientes e às suas complexas reações químicas. Porém, na busca por altas produtividades, a fração física do solo (especialmente a porosidade) e a fertilidade biológica são fatores essenciais. Importante ressaltar que alterações na fertilidade química, física e biológica do solo não são observadas em períodos curtos de tempo. Experimentos conduzidos em várias regiões brasileiras demonstram que a rotação de culturas aumenta consideravelmente a produção das culturas ao longo do tempo de adoção desta prática. Segundo Pendleton (1965), o milho necessita de 450 a 600 milímetros de água durante todo o ciclo de desenvolvimento. Além disso, segundo o mesmo autor, cada milímetro de água disponível para a planta é responsável pela produção de 20 quilos de grãos por hectare.

O armazenamento de água no solo ocorre, principalmente, nos microporos, que são partículas muito pequenas (entre 0,005 e 0,03 milímetros), e geralmente estão presentes em agregados. Nessa fração do solo, além da presença de água, concentra-se um habitat ideal para o desenvolvimento de bactérias benéficas à atividade microbiana (Batista et al., 2018). Em solos cultivados com intenso preparo do solo, ou mesmo em áreas de colheita de milho para silagem, normalmente o solo apresenta elevada compactação (restrição à penetração acima de 2 MPa), o que, como já comprovado nas pesquisas, limita o desenvolvimento de raízes e compromete o acesso à água.

Milho

Plantas de milho com enrolamento e secamento foliar do terço inferior durante período de veranico, com o detalhe da ausência de cobertura morta sobre o solo

Assim, além da correção química e a verificação de camadas de compactação, determinando a profundidade e o correto manejo para correção dessa limitação, aumentam a infiltração de água. Além disso, a redução da densidade do solo pela descompactação permitirá maior porosidade, em especial, macro e microporos, proporcionando às raízes maior acesso a água e ar, respectivamente. Em situações de restrição hídrica, esse benefício se torna mais evidente.

Palhada — Borghi et al. (2017) relataram que o manejo eficiente da fertilidade do solo começa com o estabelecimento de um bom sistema plantio direto, que possibilite maior acúmulo de palhada e crescimento radicular mais profundo, fatores-chave para o melhor desempenho das lavouras em condições sujeitas a déficit hídrico. A palha tem inúmeros benefícios para o solo e, consequentemente, para as culturas semeadas na sequência. Após a colheita de grãos, o milho deixa sobre o solo uma camada de palha que pode chegar a oito toneladas/hectare, a depender do nível de tecnologia empregada na cultura. Essa densa camada sobre o solo diminui a perda de água por evaporação, diminui as oscilações térmicas na camada superficial do solo e, indiretamente, tem consequências positivas no manejo cultural de plantas daninhas, por exemplo.

Além dos fatores mencionados anteriormente, a palha é o principal fator que incrementa os teores de matéria orgânica do solo (MOS) em condições tropicais. O aporte de matéria seca de palha, por meio da decomposição microbiana nesses resíduos, propicia ambiente favorável ao desenvolvimento microbiano no solo. O interesse pela atividade biológica e suas interações com o sistema plantio direto e consequente aumento de produtividade ganhou notoriedade graças aos trabalhos desenvolvidos por várias instituições no Brasil. A interpretação de bioindicadores já está sendo possível nas condições de Latossolos para o Bioma Cerrado, e detalhes podem ser adquiridos em Lopes et al. (2018) e Mendes et al. (2018).

Plano de manejo — Planejar significa antecipar-se a eventuais problemas que poderiam ser evitados. Cada vez mais, os produtores conseguem antecipar decisões graças a tecnologias e serviços que, através de processos modernos de acesso à informação, chegam rapidamente ao seu conhecimento. O período crítico de prevenção à interferência (PCPI) para o milho vai entre os 15 e os 45 dias após a emergência das plantas. Esse é o período em que a planta define seu potencial produtivo, e qualquer competição pode comprometer significativamente a produtividade de grãos (Borghi et al., 2017), principalmente em relação às plantas daninhas.

Regulagem da semeadora — Existem vários pontos que, se bem trabalhados, podem aumentar as chances de se obter boas produtividades. O primeiro ponto diz respeito à regulagem da semeadora. Mais importante que regular o equipamento para a população final desejada, é importante que o produtor se atente a pontos específicos, como a escolha do disco correto de acordo com a peneira informada na embalagem da semente, a germinação do lote de sementes (também deve estar impressa na embalagem) e, principalmente, em qual velocidade o conjunto trator-semeadora irá operar. Não é comum verificar aumento na velocidade de semeadura.

É possível verificar que, ao aumentar 1 km/h, uma nova regulagem deve ser realizada, pois, a cada segundo, uma semente a mais deve ser depositada no sulco para manter o mesmo estande de plantas inicialmente requerido. Borghi et al. (2018), ao analisar os dados de 289 talhões de milho safrinha no Mato Grosso, verificaram que em somente 20% dos talhões amostrados a plantabilidade estava realmente adequada. Desconsiderando a perda de plantas por falhas e a presença de plantas duplas, a precisão na semeadura foi de 86%, representando uma redução de até 12 sacas/ hectare somente pela irregularidade na operação de semeadura.

Como pode ser visualizado nas figuras ao lado, a má distribuição longitudinal das plantas pode provocar o maior crescimento de indivíduos em altura, sendo que o gasto metabólico para vencer a concorrência pode comprometer, além do componente rendimento, aspectos morfológicos importantes, como o menor diâmetro do caule, que pode levar ao acamamento, por exemplo (Santos et al., 2018). O fornecimento de nutrientes deve ser dimensionado a partir dos requerimentos de todas as culturas que compõem o sistema em rotação ou sucessão. Assim, toda vez que o agricultor aduba o milho com quantidades abaixo das necessárias para repor o que é exportado na colheita, há um empobrecimento das reservas de nutrientes disponíveis no ambiente solo + palhada.

O manejo integrado de pragas é a tecnologia mais barata e a de maior retorno para o produtor. Ao realizar o monitoramento para identificação do nível de dano econômico, o produtor ganha a opção de escolher as tecnologias que lhe permitem reduzir o custo com aplicações “calendarizadas”. É importante ressaltar que, no caso dos inseticidas, o controle químico deve ser iniciado a partir do nível de dano econômico, ou seja, o uso desses produtos será sempre em caráter curativo. O uso de produtos químicos para controle de pragas em baixo nível de infestação ou em caráter preventivo não é recomendado e gera custos sem necessidade.

Milho

Milho

Acima, distribuição irregular de plantas na linha de semeadura gerando a presença de falhas; abaixo, plantas dominadas em decorrência da presença de espaçamentos entre plantas inferiores ao ideal

Sistema de produção — Para obter altas produtividades de milho, é preciso observar o passado e traçar o presente com maior assertividade possível. A estratégia PPP (perfil, palha e plano de manejo) surge como uma proposta de planejamento com foco em todos os fatores que interferem no desenvolvimento das plantas e impactam diretamente na produtividade, seja de grãos ou de silagem. O milho faz parte de um complexo sistema de produção, que envolve outras culturas, em arranjos produtivos que podem estar em rotação, sucessão ou consórcio. Existem tecnologias que podem não estar claramente demonstradas neste artigo, como tratamento de sementes, escolha dos cultivares em razão da presença de traits específicos (tolerância a herbicidas e pragas, por exemplo), uso de produtos biológicos, entre outras tecnologias que se colocam como alternativas viáveis para seu uso. O produtor deve priorizar o uso das boas práticas agrícolas.