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Safra 2019/2020: alerta aos custos

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Às vésperas do plantio de uma nova safra, tudo indica que os produtores brasileiros gastarão mais para formar as lavouras. O momento é de analisar o comportamento do mercado e planejar com cautela a gestão dos negócios, que sofrem a interferência de fatores como as turbulências no cenário internacional e a alta no valor dos insumos. A perspectiva de um maior desembolso, no entanto, não deverá significar redução no cultivo da soja, principal commodity da agricultura nacional. E, se o clima colaborar, o Brasil ultrapassará os Estados Unidos e será, em 2020, o maior produtor mundial do grão

Denise Saueressig
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A conjuntura nos mercados interno e externo remetem a incertezas sobre o cultivo da safra 2019/2020 no Brasil. Por outro lado, é cada vez mais evidente que as próximas lavouras serão formadas com aumento nos custos, provocado, especialmente, pela alta nos preços dos insumos. “Devemos iniciar esse ciclo com o maior custo de produção da história, segundo levantamento do Imea (Instituto Mato-Grossense de Economia Agropecuária). Adubos, defensivos e sementes estão mais caros, e a média de produtividade do País não aumenta na mesma proporção, o que pode impactar na rentabilidade”, constata o presidente da Associação Brasileira dos Produtores de Soja (Aprosoja Brasil), Bartolomeu Braz Pereira. Dados referentes ao mês de junho indicam custo operacional (CO) de R$ 3.498,10 por hectare e custo total (CT) de R$ 3.905,45 por hectare para a soja 2019/20 no Mato Grosso, informa o Imea. O CT supera o maior valor até então, que havia sido na safra 2016/17, de R$ 3.862,81/ha, e o número da temporada 2018/19, que foi de R$ 3.628,50/ha.

No Rio Grande do Sul, a Federação das Cooperativas Agropecuárias do Estado (FecoAgro/RS) calcula um custo total de R$ 3.388,37/ha para a soja e de R$ 4.583,80 para o milho. Com base em preços do início de junho, para cobrir o CT, o produtor precisará de um rendimento de 47,72 sacas na soja e de 152,79 sacas no milho. “De uma forma geral, tivemos um aumento entre 8% e 10% nos insumos. Houve um período em que o dólar passou dos R$ 4,00, e a maior parte das matérias-primas é importada, então há uma influência direta”, descreve o diretor-executivo da FecoAgro/RS, Tarcísio Minetto, lembrando que também favorecem essa alta a elevação das taxas de juros para custeio e os valores do frete, dos combustíveis e das máquinas e implementos.

O estudo de avaliação dos custos nas lavouras gaúchas considerou produtividade de 60 sacas por hectare na soja, o que resultaria em uma rentabilidade de R$ 871,63, ou 12,28 sacas/ha. “É importante lembrar que esse trabalho é uma referência, já que cada produtor tem suas particularidades. Também há propriedades com médias acima de 70 sacas e que, portanto, obtêm margens diferenciadas”, ressalva Minetto.

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Bartolomeu Braz Pereira, presidente da Aprosoja Brasil: projeção do maior custo da história para a soja no Mato Grosso é ameaça à rentabilidade

Em levantamento realizado em diferentes regiões do País, o Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), da Esalq/USP, também aponta acréscimo nos custos em 2019/20. Segundo a pesquisa, no primeiro semestre deste ano, foi registrado o pior poder de compra (soja x fertilizante) das últimas safras. Em Cascavel/PR, por exemplo, a produtividade de nivelamento, considerando custos e preços, passou de 40 sacas por hectare, em 2018/19, para 47 sacas agora.

Rumo à liderança na soja — A perspectiva de um maior desembolso, no entanto, não deverá significar redução no cultivo da soja. Em estimativa preliminar, o Imea projeta um pequeno avanço de 0,59% na área a ser plantada com a oleaginosa no Mato Grosso, para 9,72 milhões de hectares, e uma produção de 32,83 milhões de toneladas, em torno de 1% acima da última temporada. A preocupação com a rentabilidade é um dos motivos para o tímido incremento estimado até agora, já que, além da elevação dos custos, há indefinições quanto ao mercado internacional e aos preços, devido à disputacomercial entre Estados Unidos e China, e à peste suína africana no gigante asiático, que ameaça a demanda do país pela soja.

No primeiro levantamento de intenção de plantio para 2019/20, divulgado no mês passado, a consultoria Safras & Mercado estima um aumento de apenas 0,8% para a área com o grão em todo o Brasil, em um total de 36,6 milhões de hectares. Caso seja confirmada a elevação da produtividade, de 3.270 quilos para 3.396 quilos por hectare, a produção brasileira crescerá 4,7%, ficando em 123,78 milhões de toneladas. O número representará não apenas um recorde para o Brasil, mas a posição de liderança mundial na produção no ano que vem, ultrapassando os Estados Unidos. Os produtores norte-americanos enfrentam sérios problemas climáticos, e a projeção mais recente do Departamento de Agricultura do país (Usda) indica uma produção de 104,64 milhões de toneladas em 2019/20.

Desafios demandam maior eficiência – A conjuntura exige planejamento visando à máxima eficiência dos recursos. Em um cenário como o atual, de elevação nos custos e de indefinições no mercado, o recomendável é aproveitar as oportunidades com base em informações qualificadas. “É importante prestar atenção aos movimentos de preços para, pelo menos, conseguir travar os custos e trabalhar com mais tranquilidade ali na frente. Em seguida, haverá o desafio do clima, que preocupa, com chance de atraso no plantio da safra de verão e, consequentemente, possibilidade de problemas fitossanitários e também atraso na segunda safra”, alerta Pereira. A lavoura de soja é complexa, e o produtor não pode deixar de fazer a sua parte, continua o presidente da Aprosoja Brasil. “Precisamos manter o investimento nas boas práticas, no preparo adequado do com possíveis veranicos, o plantio da soja é realizado entre 15 de outubro e 20 de novembro com oito cultivares de diferentes ciclos. Até a primeira quinzena de julho, 75% dos materiais que serão utilizados na safra 2019/20 já estavam escolhidos. “O restante, vamos decidir quando tivermos uma clareza maior sobre o clima, o que deverá ocorrer em agosto”, explica o produtor, que se define como um estudioso da climatologia, com planilhas elaboradas a partir de dados coletados nos últimos 30 anos. Informações sobre produtividade, investimentos e preços também são computadas detalhadamente, o que permite analisar, por exemplo, a escalada no desembolso necessário para o plantio da soja nos últimos anos. Em 2015/16, recorda Costa Beber, o custo variável foi de 19 sacas por hectare. Passou para 22 sacas no ano seguinte, 25 em 2017/18 e 26 sacas no último ciclo. Para 2019/20, praticamente 90% dos insumos já estão comprados, e o custo variável é calculado em 28 sacas/ha. Por outro lado, o valor de venda da soja disponível – que, em 2015, estava em R$ 82,00 a saca –, hoje, está em R$ 75,00. “Tivemos aumentos importantes em itens como o óleo diesel e em alguns adubos, como o cloreto de potássio, que, em 2015/16, valia R$ 1,2 mil a tonelada e, hoje, está em R$ 1,6 mil”, enumera. Os custos fixos, segundo o produtor, também vêm subindo, com gastos como salário de funcionários, impostos e depreciação de máquinas. O cálculo, hoje, é de 12 sacas por hectare. “Tudo isso faz com que a rentabilidade seja muito estreita. Quem não solo, no plantio direto, na integração lavoura-pecuária”, acrescenta.

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Produtor Mauro Costa Beber: cultivares mais produtivas, formação de palhada e rotação de culturas no inverno auxiliam na produtividade

Além da discreta alta prevista para o cultivo da soja, o dirigente acredita que o milho também poderá ter um pequeno incremento no plantio, inclusive na safra de verão, que vem perdendo espaço para a soja nos últimos anos. Na avaliação de Pereira, o avanço poderá ocorrer motivado pelos bons resultados de produtividade na segunda safra deste ano e pela forte demanda do mercado. Para os analistas da Safras & Mercado, os preços mais altos dos fertilizantes poderão ser uma das razões para pequenos recuos na área, na produtividade e na produção de milho em 2019/20. A queda no cultivo é projetada em 1,8%, somando as duas safras, enquanto a produção passaria de 107,49 milhões de toneladas, em 2018/19, para 103,97 milhões de toneladas no próximo ciclo.

Investimento em tecnologia e diluição de riscos — Nas lavouras da família Costa Beber, a soja vai ocupar 1.680 hectares na safra de verão nas propriedades em Condor, Bozano, Ijuí e Palmeira das Missões, no Noroeste do Rio Grande do Sul. O milho, que antigamente dividia espaço com a oleaginosa, deixou de ser cultivado há três anos devido a dificuldades enfrentadas com o clima e à relação desfavorável entre custos e preços. “Por enquanto, nosso planejamento não inclui o cereal porque o risco é muito alto. Podemos pensar em plantar novamente se investirmos na irrigação, ou se a soja apresentar algum problema que possa ser minimizado com o cultivo do milho”, detalha o produtor Mauro Costa Beber, que é o administrador da Agropecuária Brasitália, empresa que mantém com seus pais e quatro irmãos.

Para diluir os riscos com possíveis veranicos, o plantio da soja é realizado entre 15 de outubro e 20 de novembro com oito cultivares de diferentes ciclos. Até a primeira quinzena de julho, 75% dos materiais que serão utilizados na safra 2019/20 já estavam escolhidos. “O restante, vamos decidir quando tivermos uma clareza maior sobre o clima, o que deverá ocorrer em agosto”, explica o produtor, que se define como um estudioso da climatologia, com planilhas elaboradas a partir de dados coletados nos últimos 30 anos.

Informações sobre produtividade, investimentos e preços também são computadas detalhadamente, o que permite analisar, por exemplo, a escalada no desembolso necessário para o plantio da soja nos últimos anos. Em 2015/16, recorda Costa Beber, o custo variável foi de 19 sacas por hectare. Passou para 22 sacas no ano seguinte, 25 em 2017/18 e 26 sacas no último ciclo. Para 2019/20, praticamente 90% dos insumos já estão comprados, e o custo variável é calculado em 28 sacas/ha.

Por outro lado, o valor de venda da soja disponível – que, em 2015, estava em R$ 82,00 a saca –, hoje, está em R$ 75,00. “Tivemos aumentos importantes em itens como o óleo diesel e em alguns adubos, como o cloreto de potássio, que, em 2015/16, valia R$ 1,2 mil a tonelada e, hoje, está em R$ 1,6 mil”, enumera. Os custos fixos, segundo o produtor, também vêm subindo, com gastos como salário de funcionários, impostos e depreciação de máquinas. O cálculo, hoje, é de 12 sacas por hectare. “Tudo isso faz com que a rentabilidade seja muito estreita. Quem não faz uma poupança não consegue se manter no caso de uma frustração de safra. E, no Rio Grande do Sul, em média, temos uma grande perda a cada sete anos”, diz.

Foco no crescimento — Em 2018/19, a média de produtividade da soja colhida pela Agropecuária Brasitália ficou em 71 sacas por hectare, meia saca acima do que havia sido produzido em 2017/18. Dados registrados desde a década de 1970 mostram que houve um crescimento no rendimento médio, por safra, em torno de uma saca na soja e no trigo. “A nossa meta continua sendo agregar um saco por ano. Acreditamos que o clima nos ajudou a alcançar esses números, mas o conjunto dos fatores é formado por novas cultivares mais produtivas, melhorias no manejo, formação adequada de palhada e rotação de culturas no inverno. Desde 2006, também investimos em agricultura de precisão, que permite um investimento mais aprimorado e racional em correção de solo e adubação”, avalia Costa Beber.

No inverno, em torno da metade das lavouras são cultivadas com trigo e aveia preta, que é destinada à produção de sementes. O restante recebe plantas de cobertura que favorecem a formação de palhada para o plantio da soja. Neste ano, como as projeções climáticas indicavam ocorrência do fenômeno El Niño, o trigo foi cultivado em 300 hectares. Em média, o cereal ocupa 500 hectares nas quatro propriedades. A perspectiva é de lucratividade em torno de R$ 800,00 por hectare com a safra que será colhida em novembro. “Nos últimos dois anos, vendemos metade da produção durante a colheita, e a outra metade, próximo ao plantio, entre abril e maio, para aproveitar os melhores preços. Se a safra de inverno é positiva, ajuda a diluir o custo fixo do negócio, não jogando todo o peso no cultivo do verão”, analisa o produtor.

Bem capitalizado e com possibilidade de armazenar a maior parte da safra nas propriedades, Costa Beber consegue programar também a venda da soja, que é destinada para a produção de sementes em sementeiras parceiras e grãos negociados com a cooperativa C.Vale. Até a segunda semana de julho, pouco mais de 30% da colheita 2018/19 havia sido vendido. A perspectiva é de que, até o final das vendas, a média de preço fique em R$ 75,00 a saca, o que vai permitir uma lucratividade de 25%.

Para o ciclo 2019/20, a certeza de incremento nos custos vem acompanhada das dúvidas sobre o comportamento do mercado. Por enquanto, a ideia é aguardar pelos acontecimentos e segurar investimentos mais pesados. “Felizmente, renovamos praticamente todo o maquinário nos últimos dez anos, porque os juros subiram e ficaram acima, inclusive, da taxa Selic”, declara o produtor, referindo-se à taxa do Moderfrota, que passou de 7% para 8% ao ano no atual Plano Safra.

Planejamento de longo prazo — Em Goiás, os sócios do Grupo Segredo, Adriano Barzotto e Paulo Roberto Bufon, também pretendem esperar para dar continuidade a grandes investimentos. No caso deles, um dos objetivos é ampliar as estruturas de armazenagem nas fazendas. O momento é de expectativa sobre as reformas estruturais e os movimentos da economia brasileira. “A situação do País não dá margens para melhores condições, tanto que os juros subiram, mas tivemos medidas positivas, como a incorporação da agricultura familiar ao Plano Safra, a ampliação de recursos para o seguro e a emissão de CPR (Cédula de Produto Rural), com correção pela variação cambial. Agora, esperamos um plano de médio e longo prazos para que possamos fazer um planejamento mais amplo do nosso negócio”, resume o produtor Paulo Roberto Bufon, que é conselheiro fiscal da Associação dos Produtores de Soja e Milho de Goiás (Aprosoja/GO).

Nas propriedades do grupo em Rio Verde, Montividiu, Paraúna e Acreúna, a soja vai ocupar 8,5 mil hectares na safra 2019/20. A projeção é de aumento médio de 2,5% nos fertilizantes que foram adquiridos em março e de 10% nos defensivos comprados em maio. “Nossa rentabilidade vai depender muito do que ocorrer ao longo do desenvolvimento da lavoura e do câmbio na hora da finalização dos negócios”, relata. Em Goiás, o custo da soja, dependendo do manejo, varia entre R$ 3,8 mil e R$ 3,9 mil. “Se pensarmos em um produtor que não colhe 60 sacas por hectare, haverá dificuldade de pagamento da lavoura, e, se olharmos as médias do Brasil, não chegamos a esse volume”, observa.

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Produtor Paulo Roberto Bufon: trabalho inclui atenção especial com o solo para manter o rendimento da soja acima das 65 sacas por hectare

Cuidados com a estrutura principal — Para manter as contas em equilíbrio, Bufon investe em melhorias constantes no manejo das áreas. “É importante contar com apoio técnico e prestar atenção às novas tecnologias e às alternativas, assim como buscar conhecimento sobre as moléculas que estão no mercado. Não podemos ficar só na propaganda. Nem sempre o mais caro é o mais eficiente”, afirma o produtor, que é presidente do Grupo Associado de Pesquisa do Sudoeste Goiano (Gapes), iniciativa que reúne 36 produtores responsáveis por 120 mil hectares de soja e 80 mil hectares de milho safrinha. Na última safra, o grupo colheu uma média de 66 sacas por hectare, bem acima da média estadual de 54,83 sacas e das 53,45 sacas estimadas para o Brasil pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). “Nossa meta é trabalhar para ficarmos sempre acima das 65 sacas, mas sabemos que nem sempre o clima colabora. Por isso, entendemos que precisamos manter nossa estrutura principal, que é o solo, com medidas que favoreçam a microbiota, com equilíbrio de micro-organismos. Há mais de 15 anos, não mexemos no solo, trabalhando com plantio direto em 100% das áreas”, relata.

Com cerca de 20% da safra futura vendida a uma média de R$ 74,00 a saca, Bufon espera por preços mais atrativos do que os atuais R$ 67,00 para dar sequência à comercialização da soja. “De forma geral, os produtores estão esperando maior clareza dos números da safra norte-americana e do desenrolar da disputa dos EUA com a China e da peste suína na China, que poderá afetar o comércio de soja e milho. Hoje (terceira semana de julho), a nossa safrinha de milho está a pleno vapor, com boa produção, preços remuneradores, entre R$ 28,00 e R$ 30,00 a saca, e as exportações estão evoluindo”, declara.

Algodão: momento de análise – Em plena colheita de uma safra recorde estimada em 2,8 milhões de toneladas, as expectativas para o algodão estão indefinidas para o ciclo 2019/20. “Estamos em uma fase de coleta de informações, de avaliação sobre a safra norte-americana. Ao mesmo tempo, estamos trazendo compradores da Ásia para o Brasil e indo até lá também”, explica o diretor -executivo da Associação Brasileira dos Produtores de Algodão (Abrapa), Marcio Portocarrero. “A diferença do algodão em relação às outras cadeias é que são poucos produtores e que eles se organizam com as associações estaduais. Então a discussão é coletiva. Todos sabem que o investimento e o risco são muito altos na cultura”, complementa.

Na safra 2018/19, o custo médio do algodão por hectare foi calculado em R$ 9,4 mil na Bahia e em R$ 9,6 mil no Mato Grosso, estados vice-líder e líder na produção, respectivamente. “A decisão do produtor passa pela avaliação da demanda mundial, infraestrutura e custos. Se o resultado de custo e preço empatar ou não estiver favorável, ele vai optar pela soja, porque tem essa flexibilidade”, cita o executivo.

A consultoria Safras & Mercado estima, inicialmente, uma redução de 7% no plantio de algodão em 2019/20. Entre as principais razões apontadas para essa projeção estão o recente recuo das cotações e as dúvidas sobre a capacidade de escoamento da produção via exportações. Portocarrero ressalta que há questões relacionadas à infraestrutura – como disponibilidade de contêineres, tabelamento de frete e logística nos portos – que precisam de soluções rápidas. “O volume de produção nos obriga a trabalhar o ano todo. Ser grande também representa ter grandes desafios”, salienta. No ciclo 2018/19, o Brasil ultrapassará os Estados Unidos e será o segundo maior exportador da pluma, posto que significa, também, aumento de responsabilidade para a cadeia nacional. “Queremos manter essa posição e nos preparar para crescer mais no futuro. Temos o diferencial da rastreabilidade, da certificação socioambiental e de um programa forte de qualidade”, frisa. Uma das estratégias da Abrapa para 2020 é a instalação de um escritório na Ásia. A estrutura, que estará em funcionamento em janeiro, pretende aproximar a cadeia brasileira dos cinco maiores compradores da pluma nacional: China, Vietnã, Índia, Bangladesh e Turquia. Para aprofundar o conhecimento sobre os diferenciais do algodão brasileiro e prospectar novos mercados, a associação também pretende investir na participação em feiras de moda na Europa, que é onde estão as grandes marcas fabricantes de roupas.


Arroz: cultivo nas áreas maisprodutivas e rotaçãofaz

Na hora de planejar a próxima lavoura, a palavra de ordem para os orizicultores é racionalizar. “O plantio deve ser feito apenas onde o potencial produtivo seja de, pelo menos, 160 sacas por hectare. Esse é o ponto de equilíbrio”, ressalta o presidente da Federação das Associações dos Arro-zeiros do Rio Grande do Sul (Federarroz), Alexandre Velho. Até o mês passado, não havia uma estimativa oficial sobre o custo nas lavouras gaúchas, que representam em torno de 70% da safra brasileira do cereal. “Ainda é difícil de dimensionar, porque há fatores que terão influência. O câmbio, por exemplo, em função da votação da reforma da Previdência, deu uma baixada, mas não sabemos se vai continuar assim”, pontua Velho. As primeiras impressões, no entanto, indicam que os valores serão bem seme-lhantes aos observados no ciclo anterior. “O que ocorre é que o custo do ano passado já foi o mais alto da história. Então, mesmo que tenhamos um valor muito parecido, é completamente exorbitante”, conclui.

O desembolso na lavoura de arroz, que não inclui itens como pró-labore, investimento e arrendamento, é calculado entre R$ 6 mil e R$ 6,2 mil por hectare. Para favorecer as contas, o presidente da Federarroz recomenda o investimento em produtividade, que pode ser ampliada com a rotação de culturas. Nas suas áreas em Mostardas/RS, ele optou por cultivar 50% da área com soja e 50% com arroz. A reciclagem de nutrientes e o controle de invasoras favorecem a fertilidade do solo e, consequentemente, o rendimento, garante o produtor. “Quando plantamos arroz depois de cultivar a soja, podemos baixar em até 15% o custo e elevar entre 10% e 20% a produtividade”, enumera. “Não é uma recei-ta pronta, porque cada propriedade tem as suas características. O importante é adaptar a área para a soja, fazendo macrodrenagem e investindo em um planejamento detalhado para o cultivo”, destaca.

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Alexandre Velho, presidente da Federarroz: rotação com a soja pode reduzir em até 15% o custo do arroz e elevar produtividade entre 10% e 20%

Diante da conjuntura de altos custos e grande endividamento enfrentado pelos orizicultores, a projeção é de um novo recuo para a lavoura de arroz no Rio Grande do Sul. Na safra passada, a redução no plan-tio foi de 7%, para cerca de 1 milhão de hectares. Velho acredita que, em 2019/20, essa queda poderá ficar entre 5% e 10%. Os preços – que hoje estão situados em torno de R$ 43,00 a saca – podem apresentar melho-ria nos próximos meses devido à previsão dos menores estoques de passagem dos últimos 20 anos. Essa tendência de alta, en-tretanto, não será o suficiente para reverter a perspectiva de queda no cultivo.

Além de defender uma mudança de pos-tura do produtor na condução da lavoura, o presidente da Federarroz vem atuando nas causas estruturais, que, segundo ele, também impactam no custo. “Esperamos enfrentar a pauta da reforma tributária, que pode dar à cadeia gaúcha uma condição melhor de competitividade em relação a outros estados do Brasil. Ainda estamos abordando com o Governo questões como um desconto maior na energia elétrica e a desoneração de impostos, que, hoje, estão acima de 30% dentro da porteira”, argumenta.