Glauber em Campo

A ARTE DA GUERRA

Glauber

Glauber Silveira

Como o nosso presidente Bolsonaro é um militar, achei interessante fazer esta análise com relação ao livro A Arte da Guerra, que é um tratado militar escrito durante o século IV a.C. pelo estrategista conhecido como Sun Tzu. O presidente provavelmente leu e, acredito, empregou grande parte dos seus ensinamentos na sua campanha eleitoral, afinal, o tratado de Sun Tzu aborda como planejar e liderar. E, como candidato, Bolsonaro, nitidamente, usou bem os ensinamentos e, melhor ainda, os adequou à era digital. Porém, infelizmente, não temos visto o mesmo desempenho na liderança do seu Governo. Não que ele tenha mudado os seus princípios, ainda é nítida a sua aversão à ideologia folclórica e radicalista de esquerda, seus discursos continuam ainda condizentes com os da campanha. Mesmo as confusões o perseguem de forma até meio que cômica, mas, realmente, se passaram alguns meses e sua popularidade vem caindo, o que preocupa a todos que o apoiaram e esperam dele um grande Governo.

Quando perguntamos a alguns líderes o que eles acham da atuação do presidente, eles dizem que o que já desvendou ou destruiu de “malvadezas e sacanagens” com o agronegócio já valeu o seu mandato. Os recados que ele já mandou nas questões indígena, de segurança e ambiental já fizeram valer todo o apoio. O presidente até empregou, e vejo que tem empregado, às vezes, os ensinamentos que estão no capítulo 2 do tratado de Sun Tzu, voltados a en-sinar que o sucesso na guerra depende da capacidade de terminar um conflito de forma rápida. Vimos isso no embate com o presidente do Congresso, Rodrigo Maia, logo no início do mandato. Porém, com o passar dos dias, temos visto novos embates diretos em outros setores, o que vai contra os ensinamentos do capítulo 7 do tratado.

O presidente assumiu com uma grande popularidade e, refletindo as esperanças de mudanças, montou um quadro minis-terial muito bom, nunca tivemos um mi-nistro do Meio Ambiente que realmente 2019defendesse os interesses do Brasil e do meio ambiente. Ricardo Salles foi uma ótima surpresa, fala com propriedade e conhecimento, não se sujeita aos interes-ses mais que escusos de ONGs. O mesmo ocorre com a ministra da Agricultura, Tereza Cristina, que é um presente pela facilidade e habilidade que tem em discu-tir as questões relevantes do agronegócio. Sem falar na competência do ministro dos Transportes, Tarcísio Gomes de Freitas.

Mas, infelizmente, não basta ter boa intenção. O Governo, em sua maioria, o tem, seja o presidente Bolsonaro e seus ministros. No Brasil, assim como em muitas democracias no mundo, há os servidores que, em sua maioria, são concursados e possuem o que chamamos de estabilidade. No Brasil, não é tão sim-ples demitir um servidor concursado. Ao contrário, nos EUA, se necessário, ele é demitido como um funcionário privado, enquanto que, na França, a estabilidade é inquestionável.

Enfim, o que quero dizer com tudo isso? Que os órgãos de Governo funcio-nam tocados por, na sua maioria, servi-dores concursados. Sendo assim, nem sempre o que o ministro quer será feito se não for conversado com os servidores. O mesmo acontece nas outras esferas, mesmo nas municipais. Muitas vezes, vemos um prefeito querendo fazer algo e não conseguindo devido aos servidores travarem. Afinal, são eles que executam, travam por ideologia, por interpretação ou por convicção. Ou seja, o desafio é maior do que se imagina. Não importa de qual ministério estejamos falando, afinal, para se ter uma nova norma ou mudar um decreto, precisa-se de um parecer etc.

Após mais de 120 dias de Governo, os entraves começam a ser mais notórios, e daí é que entra uma característica muito importante na liderança, que é o poder de negociação e influência. E, talvez, na minha visão, este esteja sendo um dos grandes gargalos do Governo, seja na ne-gociação dentro do próprio Governo, com os subordinados servidores concursados e com estabilidade, seja do Governo com os outros Poderes – em particular, com Legislativo, que, por si só, representa centenas de minorias. O Governo pre-cisa urgentemente conseguir aprovar reformas importantes, sendo a primeira delas a da Previdência. Mas me preo-cupa o que tenho ouvido em Brasília, pois tenho dúvidas, mesmo sabendo da sua importância para o Brasil voltar a crescer. Tenho dúvidas se a renovação do tamanho que foi no Congresso Na-cional foi positiva, principalmente em um momento crítico como este. Afinal, tenho visto mais os deputados reelei-tos apoiarem o presidente Bolsonaro do que muitos novos, que se elegeram pegando carona na onda bolsonariana.

Preocupo-me, mas tenho fé que o pre-sidente Bolsonaro, sendo da origem que é, e provavelmente tendo estudado muito o tratado A Arte da Guerra, venha a usar seus princípios, que são 13, e que use ur-gentemente o primeiro, que aborda a im-portância de avaliar e planejar, com cinco fatores que podem influenciar: caminho, terreno, as estações (clima), liderança e gestão. Além disso, são abordados sete elementos que melhoram os resultados das investidas militares. A guerra é algo que tem consequências para o Estado ou País, e, por isso, não deve ser iniciada sem muita consideração.

Presidente do Sindicato Rural de Campos de Júlio/MT, presidente da Câmara Setorial da Soja, presidente da Associação de Reflorestadores do MT, vice-presidente da Abramilho e Diretor Conselheiro da Aprosoja