Herbert & Marie Bartz

APRENDIZADOS NA INFÂNCIA SÃO PARA A VIDA – DE GERAÇÃO EM GERAÇÃO

Herbert

Senti vontade em dar continuidade no assunto do artigo da edição passada. Talvez numa pers-pectiva diferente, contando, agora, um pouco de minha infância e de meus irmãos na lendária Fazenda Rhenânia, no Norte pioneiro do Para-ná, onde Papi iniciou o plantio direto e fomos criados até a adolescência. Muito longe e incomparável às difi-culdades que Papi vivenciou em sua infância durante a Segunda Guerra Mundial, tivemos uma infância reple-ta de pequenos sinais e experiências que foram determinantes e moldaram nossas personalidades para quem somos hoje. Tivemos a grandiosa oportunidade de termos praticamente nascido no campo, acompanhando e, principalmente, vivenciando o dia a dia da agricultura. Claro que não valorizamos isso quando mais novos, mas hoje, olhando para traz, vejo o privilégio que tivemos.

E como já afirmei em outros mo-mentos, ser agricultor é a mais bela das profissões, pelo magnífico poder em produzir alimentos para outros seres humanos e para os animais. Mas também é a mais penosa e árdua das profissões, pelo agricultor estar sempre à mercê da mãe natureza, sem garantia alguma que colherá em abundância o que plantou e não ter dia e horário para os cuidados de sua plantação. Éramos três filhos do casal Herbert e Luzia, dois meninos – Weiland e Johann – e eu, a menina caçula. Os meninos, desde cedo (seis ou sete anos de idade), já participa-vam de várias atividades junto com Papi (plantio, pulverização, colheita, secagem, alimentação dos búfalos, etc.). E eu, como menina, acabei sendo aprendiz e parceira de minha mãe nas atividades domésticas, as quais não ficavam apenas retidas ao lar e tinham uma projeção nos jardins e paisagem da Fazenda Rhenânia. Mami também é de família de ori-gem alemã e está entre as famílias pioneiras na colonização da região Norte do Paraná.

A família Unbehaun se tornou referência e conhecida na região por ter realizado trabalhos de jardinagem, além de cultivo e reprodução de inú-meras plantas ornamentais por mais osanimaisde 70 anos. E sabemos que há o que é passado através do DNA e das gera-ções… Assim foi com a paixão pelas plantas e pelo verde, que minha mãe herdou do pai, dos tios e do avô, e nos repassou ao nos ensinar a cultivar e manter os jardins e pomar da fazenda. E também, ao observarmos o trabalho de Papi, enraizamos a paixão, o amor e os cuidados com o solo e com o meio ambiente. Contando assim pa-rece que foi tudo muito perfeito, não é? Mas que nada, porque somos uma família como qualquer outra, com altos e baixos.

Ao longo dos anos, vários foram os momentos que castigaram e tiraram a tranquilidade de Papi com perdas por conta de intempéries da nature-za, mas que ainda imensamente são preferíveis de lidar do que a perda do primogênito. Um terremoto que desestabiliza, danifica e marca para sempre a base mais sólida de qualquer família. Entre tempos de corrermos soltos pela fazenda, pedalarmos pela vizinhança, pularmos da plantadeira e corrermos para alcançá-la novamente, nos escondermos entre os grãos ou ficarmos debaixo da descarga da colheitadeira no caminhão, das lon-gas caminhadas sobre o lombo dos búfalos nos finais de tarde, dos dias entre os silos e o secador brincando de esconde-esconde, das aventuras pelas matas, rios e cachoeiras da fazenda, intercalados com a escola, onde éra-mos considerados “as crianças do sítio”, rejeitados pela “elite” urbana, mas corajosos o suficiente para nos metermos a pedalar da escola para casa na fazenda (12 quilômetros, algo inconcebível, hoje, para crianças de oito, dez e 11 anos) e ainda realizar-mos as tarefas determinadas em casa.

Foram tempos de muitos risos, sorrisos e alegrias, mas também de tristeza e de choro, muitos que não cabiam dentro do peito. E é assim que a vida nos molda e nos prepara para ocuparmos nosso espaço no mundo. Um orgulho gigante está dentro de nós pela forma que fomos criados por nossos pais, Herbert e Luiza, os quais – cada um do seu modo – procuraram o melhor para cada um de nós.

Herbert Bartz é produtor rural e precursor do plantio direto no Brasil, e pai de Marie Bartz, bióloga, pesquisadora e professora da Universidade Positivo