Fitossanidade

Só o MIP viabiliza o ALGODÃO

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O Manejo Integrado de Pragas é a adoção de diversos métodos de controle de maneira conjugada para se realizar o manejo sustentável nos âmbitos econômico, ambiental e social.Entre as ações, o vazio sanitário é uma medida legal que todos os estados devem seguir

Fábio Aquino de Albuquerque, entomologista da Embrapa Algodão

O Brasil conseguiu atingir o status de segundo maior exportador de algodão do mundo. Uma inversão do observado nos anos 1990, quando o País era importador. Essa vitória aconteceu à custa de muito in-cremento tecnológico e dedicação dos produtores. Contudo, nem tudo são flores. Os custos elevaram-se signifi-cativamente nos últimos anos de for-ma desproporcional à produtividade. Tem-se observado certa estabilidade na produtividade por área, mas os custos ainda continuam pressionando para cima, reduzindo a rentabilidade dos produtores.Por anos, o controle químico domi-nou o cenário no que se refere ao ma-nejo de insetos-praga. Isso se deveu ao fato dos custos com inseticidas terem valores mais em conta e, principal-mente, pela menor pressão de pragas. Antes, pragas que eram praticamente exclusivas ou do algodão, ou da soja, ou do milho acabaram estabelecen-do-se sobre os três cultivos. Um caso clássico é o da Spodoptera frugirper-da, praga conhecida comumente por lagarta do cartucho do milho, mas que, já há alguns anos, ataca indistinta-mente milho, soja e/ou algodão, além de outros cultivos.A transgenia veio para facilitar e ajudar no manejo das lagartas de um modo geral, mas, para lagartas como a Spodoptera, que sofre maior pressão de seleção, observa-se que a resistên-cia tem sido quebrada muito rapida-mente, o que implica em aumento de custos. Associado a isso há a pressão natural do bicudo-do-algodoeiro, que, em algumas regiões produtoras, pode representar US$ 100 de custo por hectare. Para minimizar os riscos e manter a sustentabilidade da cotoni-cultura, primeiro tem-se que pensar no complexo de cultivo algodão-milho-soja e no Manejo Integrado de Pragas (MIP) pensado para as três culturas, pois, além da migração das pragas, há efeitos colaterais, como a presença de plantas de algodão que rebrotam ou nascem dentro da soja ou do milho, di-ficultan-do o manejo do bicudo-do- -algodoeiro, que permanece na área, comprometendo, assim, o vazio sanitário.

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“Os diferentes métodos podem ser utilizados em maior ou menor intensidade, mas deve-se sempre buscar a associação”, explica Fábio Aquino de Albuquerque, da Embrapa Algodão

Identificação das pragas e dos inimigos naturais — Mas o que é MIP? É o en-tendimento macro de todo o sistema produtivo. Consiste na utilização de diferentes métodos de controle de forma associada visando ao manejo sustentável, do ponto de vista econômico, ambiental e social, dos cultivos. Um bom MIP começa com uma boa base que apoiará as medidas de controle. Esse alicerce exige conhecimentos sobre taxonomia (correta identificação das pragas e dos inimigos naturais), monitora-mento, determinação dos níveis de dano e controle e agroecossistema. O agroecossistema é o que vai orientar quais as melhores medidas de con-trole. Os métodos de controle podem ser químico, biológico, cultivares resistentes (transgênicas ou não), cul-tural, comportamental e, em algumas situações, legislativo. Os diferentes métodos podem ser utilizados em maior ou menor intensidade, mas deve-se sempre buscar a associação.

“Os diferentes métodos podem ser utilizados em maior ou menor intensidade, mas deve-se sempre buscar a associação”, explica Fábio Aquino de Albuquerque, da Embrapa Algodão

O vazio sanitário é uma medida le-gal que todos os estados produtores de algodão devem adotar, pois o bicudo só se reproduz sobre plantas de algodão. Podem se alimentar de pólen de outras plantas, mas não se reproduzem, assim, a não existência de plantas de algodão na entressafra contribuirá para redução populacional do bicudo, fazendo com que, na próxima safra, a pressão seja menor. Para que o vazio sanitário seja eficiente, é necessário que a destruição dos restos culturais após a colheita do algodão seja eficiente. Em sistemas nos quais se trabalha com cultivares convencionais, ou seja, sem transgenia para resistência a herbicidas, é uma operação relativamente fácil, mas, onde há cultivares com essa tecnolo-gia e na sequência vem o milho com a mesma tecnologia, a destruição tor-na--se quase impossível. Por isso que o entendimento macro do sistema de cultivo é fundamental para o sucesso da cotonicultura. Essa é uma premissa básica para o sucesso do MIP.

Associado ao vazio sanitário, o conAlgodãotrole químico desponta como a medida mais eficiente para redução rápida das populações de pragas, notadamente o bicudo. Contudo, seu uso deve ser feito de forma otimizada, para evitar elevação dos custos. Uma técnica eficaz é a pulverização em bordadura do cultivo. Essa medida evita grandes gastos com produtos fitossanitários e é de menor impacto ao ambiente. Outra vantagem do controle de bordadura é o fato de atingir o bicudo que está entrado na lavoura, ou seja, mais ex-posto aos produtos químicos. Para uso dessa técnica, recomenda-se o moni-toramento para verificar a eficácia do controle, identificar o ponto de entrada do bicudo na área. A aplicação após a desfolha também tem impacto para reduzir a população dos bicudos que estão saindo para refúgio.

O uso de controle biológico poderá contribuir significativamente para redução do uso de produtos fitossa-nitários, preservação das tecnologias Bt e redução dos impactos ambientais. Isso já está acontecendo em algumas fazendas que estão utilizando vírus, bactérias e fungos entomopatogênicos para o controle de lagartas, mosca-branca e ácaros. Estima-se que, em breve, fungos entomopatogênicos para o seu controle estarão no mercado. Essa tecnologia poderá ser utilizada no início dos plantios para reduzir a população da praga.

A sustentabilidade da cotonicultura passará, certamente, por uma nova in-terpretação dos sistemas produtivos e adoção de tecnologias de manejo mais amigáveis, não apenas para o ambien-te, mas para os produtores. Estima-se um custo em torno de US$ 2.550 por hectare de algodão, e, ao continuar o avanço dos custos, a cotonicultura poderá ser inviabilizada, o que traria danos significativos à economia. Bas-ta, para isso, ver o que aconteceu com a produção de algodão no Nordeste nos anos 1980/1990, quando a entrada do bicudo praticamente erradicou o algodão da região.