Mão de Obra

Eficiência passa pela capacitação de operadores

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Cursos do Senar voltados à operação de máquinas agrícolas foram responsáveis por 29,6% dos treinamentos em 2018, com mais de 219 mil pessoas atendidas

A evolução tecnológica no campo requer atualização constante e cada vez mais especializada dos trabalhadores. Esforço pela qualificação envolve instituições de ensino e fabricantes de máquinas e equipamentos

Denise Saueressig
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As tecnologias que acompanham o agronegócio evoluem em uma velocidade surpreendente e exigem atualização constante e especializada de quem trabalha no campo. A cada safra, as indústrias de máquinas apresentam inovações que contribuem para o aumento da eficiência, mas que também desafiam produtores e operadores. Nesta realidade de contínua modernização, a capacitação é mais um insumo para a busca dos melhores resultados. “Antigamente, era comum ouvirmos o ditado ‘quem não estuda vai parar na roça’, mas hoje a realidade é outra, pois quem não estuda não consegue mais ficar na roça”, declara o assessor técnico da Diretoria de Educação Profissional do Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar), Rafael Diego Nascimento da Costa.

Há alguns anos, constata o técnico, os operadores estavam focados em plantar determinada área no menor tempo possível, mas, hoje, a preocupação é estar atento ao monitor da máquina para o plantio acontecer na velocidade certa, evitando falhas e reduzindo o consumo de combustível. “São mudanças que contribuem diretamente para o aumento da produtividade e da rentabilidade, e para um menor impacto ao meio ambiente”, acrescenta.

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Astsor Kilpp, gerente de Marketing e Produto da LS Tractor: desconhecimento do operador pode gerar paradas não programadas que prejudicam a produtividade

Referência no ensino gratuito voltado a atividades do campo, o Senar oferece capacitações em operação de máquinas agrícolas que são distribuídas em cursos presenciais em três frentes: trabalhador volante na agricultura, tratorista agrícola e trabalhador agropecuário em geral. Juntos, esses treinamentos foram responsáveis por 29,6% das ações da instituição em 2018, com mais de 219 mil pessoas atendidas. A necessidade crescente da profissionalização da mão de obra no campo fez aumentar a procura pelos treinamentos. Apenas nos cursos de tratorista agrícola, foram 62.894 pessoas capacitadas em todo o País, número 9,42% acima do que foi registrado em 2017.

O Senar também oferece, na modalidade presencial e a distância, um Programa de Capacitação em Agricultura de Precisão. “Além de ser um tratorista, o profissional passa a ser um operador de máquina com tecnologia embarcada, que trabalha com piloto automático, distribuição de fertilizantes e corretivos em taxa variada, monitora os dados de colheita através de atuadores com tecnologia GNSS, opera drones como ferramentas de mapeamento digital, entre outras. Logo, o conteúdo dos cursos muda, porque falamos sobre sistemas de navegação por satélite, telemetria, informática e computação de máquinas, por exemplo”, detalha Costa.

Grande parte das faculdades de ciências agrárias e escolas técnicas não contam com disciplinas específicas voltadas à agricultura digital e de precisão, conclui o especialista. “Por isso, a maioria das pessoas que procuram esse tipo de curso já tem formação técnica ou superior e está em busca de uma atividade complementar em curto prazo”, observa.

Atuação abrangente — As novas demandas apresentadas pelos processos digitais também motivaram a criação do curso de Mecanização em Agricultura de Precisão na Fatec Shunji Nishimura, de Pompeia/SP. A iniciativa é pioneira nesta área no Brasil e teve a primeira turma iniciada em fevereiro de 2010. Desde então, são 13 turmas concluídas e 414 alunos formados. Muitos destes estão trabalhando no exterior, conta a professora Marisa Silveira Almeida Renaud Faulin, coordenadora do curso. A formação é gratuita, tem duração de três anos e turmas pela manhã e à noite. As aulas práticas correspondem a mais de 50% da carga horária. “O aluno tem conhecimentos sobre agricultura, fertilidade do solo, processo de produção das principais culturas, gestão das diferentes operações agrícolas, geração de mapas e sensores e tecnologias embarcadas nas máquinas”, descreve Marisa.

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Rafael Arcuri Neto, coordenador de Treinamento da Jacto: atuação da empresa tem projetos educacionais próprios e parcerias com instituições de ensino e pesquisa

Embora o profissional esteja apto a operar máquinas e a treinar operadores, o foco do curso é bem mais complexo, explica a professora. “O tecnólogo em Mecanização em Agricultura de Precisão é capaz de gerar todos os mapas utilizados em AP, inserir os mapas nas máquinas e conduzir as operações para que sejam realizadas da maneira correta. Também tem competência para a análise de custos e gestão de pessoas, além de poder auxiliar o produtor na tomada de decisão”, complementa.

Qualificação é estratégica para as indústrias — Entre os fabricantes de máquinas agrícolas, a capacitação faz parte da estratégia de entregar ao produtor não apenas um equipamento, mas um pacote de soluções. Na LS Tractor, o treinamento básico é conduzido pelas concessionárias e envolve, além da operação propriamente dita, o conteúdo sobre manutenção básica. As atividades incluem temas como segurança no trabalho, Código de Trânsito Brasileiro, identificação de componentes e preparação do trator, além de acoplamento, regulagem e funcionamento com implementos.

Para o gerente de Marketing e Produto da empresa, Astor Kilpp, o conhecimento necessário para o máximo aproveitamento das tecnologias embarcadas resultará em alta produtividade na lavoura e redução de custos. “O operador que não entende bem o funcionamento de uma máquina pode, mesmo sem intenção, causar até a quebra do equipamento. Como consequência, os custos com manutenção vão aumentar, podendo até surgir a necessidade de realizar paradas não programadas, o que pode prejudicar a produtividade, já que boa parte das atividades agrícolas precisa acontecer em uma janela de tempo limitada”, argumenta.

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Capacitações da Massey Ferguson são realizadas no Centro de Aprendizagem e também regionalmente, nas revendas ou em locais que permitam operações práticas

Quando máquina e trabalhador atuam em equilíbrio, a tendência é que também seja reduzido o desperdício com insumos. “Um operador incapacitado não saberá calibrar ou regular a máquina de maneira correta e tampouco conseguirá conduzi-la com eficácia. A consequência poderá ser gastos desnecessários com perdas de produtos e de combustível”, afirma Kilpp. Outra questão que precisa ser considerada, na avaliação do executivo, é a segurança dos operadores, o que também é enfocado nas ações de capacitação, com destaque para a importância do uso correto dos Equipamentos de Proteção Individual (EPIs).

A estimativa é de que o número de profissionais treinados pelos instrutores da LS Tractor supere os 5 mil por ano. Entre os desafios na área, Kilpp cita a inexperiência dos trabalhadores e a escassez de estruturas adequadas para as atividades de qualificação. “A possibilidade de praticar em cenários variados e com diferentes graus de dificuldade são situações que requerem uma atenção maior, principalmente quando o perfil da turma é de pouca ou nenhuma experiência com máquina agrícola”, considera. Não menos importante é a valorização dos profissionais que trabalham na lavoura, já que a alta rotatividade pode ser um problema para a gestão da propriedade. “O investimento no desenvolvimento dos funcionários faz com que eles se tornem mais valiosos para o negócio. Com um preparo técnico maior, os colaboradores produzem mais e com muito mais qualidade”, justifica.

Condições específicas — Na Jacto, as atividades de qualificação, que envolvem mais de 3 mil pessoas por ano, são disponibilizadas nos centros de treinamento da empresa e também em conjunto com cooperativas, revendas e outros parceiros. Em torno de 50 módulos de capacitações são divididas em quatro categorias que abordam pontos específicos para cada tipo de equipamento e situação de operação: na primeira delas estão os treinamentos técnicos, que são voltados para manutenção, reparação e diagnóstico. A segunda modalidade engloba os treinamentos de operação, que acontecem in loco, com o apoio das revendas, que convidam seus clientes que adquiriram o equipamento.

Já o terceiro tipo de capacitação tem foco em tecnologias de aplicação. Nesse caso, o objetivo é oferecer a agrônomos, técnicos ou encarregados agrícolas informações sobre calibração, regulação das máquinas, quais tipos de bicos de pulverização usar em situações com diferentes condições climáticas ou características do cultivo. Estas atividades são abertas também para estudantes e empresas de agroquímicos. A última categoria de treinamento é a de conhecimento de produto, com foco na área comercial, que busca levar conhecimento para quem vai comercializar a máquina. É o caso das revendas, que devem ter conhecimento para orientar o produtor na hora da compra.

O coordenador de Treinamento e Documentação Técnica da Jacto, Rafael Arcuri Neto, reconhece que a preparação na área mudou bastante nos últimos anos. “No passado, como as máquinas eram mais simples, os cursos eram focados na própria máquina e tinham duração máxima, em média, de 40 horas. Hoje, com a elétrica, eletrônica e hidráulica embarcada nos modelos, o foco foi ampliado para um circuito aplicado específico. Por exemplo: elétrica do Uniport 4530 ou hidráulica para o Uniport 4530. Essa mudança levou a uma nova formatação de treinamentos, que se tornaram modulares, o que elevou a carga horária de 40 horas para 200 horas de curso”, assinala.

A tecnologia embarcada exige dos trabalhadores e produtores competências que vão além do conhecimento básico de operação, como domínio da informática e habilidade na interpretação de relatórios de atividade. “Para dialogar com o mercado e permitir uma formação mais completa dos profissionais, a Jacto atua com projetos educacionais próprios e parcerias com instituições de ensino e pesquisa”, destaca Arcuri Neto, citando o trabalho em conjunto com a Fatec Shunji Nishimura e o Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai).

Redução do custo operacional — Consciente de que os produtores contam com o auxílio da assistência técnica dos concessionários, a Massey Ferguson oferece treinamentos aos seus revendedores para avançar na prestação de serviços aos clientes. “Com essa capacitação, preparamos nossa rede para uma entrega técnica de qualidade, além da operação e da manutenção com máximo de eficiência”, pontua o gerente da AGCO Academy, Giancarlo Godoy. Para o executivo, é importante que os operadores consigam extrair o maior rendimento possível do equipamento ao longo de uma jornada, com redução do custo operacional, que envolve consumo de combustível e vida útil da máquina.

As capacitações, voltadas para todas as linhas de equipamentos da marca, são realizadas regionalmente, nas revendas ou em locais pré-determinados que tenham a estrutura necessária para as operações práticas. Parte das atividades também ocorre no Centro de Aprendizagem da AGCO Academy, em Campinas/SP, uma estrutura de mais de 3 mil m² e que demandou investimentos de R$ 8 milhões. A carga horária dos treinamentos, segundo Godoy, varia conforme o grau de complexidade das máquinas. “Com a introdução das novas tecnologias nos equipamentos, todos os cursos tiveram que ser readequados para o momento atual, com aumento de carga horária e atualização de conteúdo, com abordagem maior em configurações e eletrônica, por exemplo”, menciona. Na opinião do executivo, um dos principais desafio desse novo cenário do agronegócio é identificar colaboradores que já tenham uma formação mínima básica que facilite a compreensão das inovações tecnológicas embarcadas nos produtos.

Do básico ao complexo — Com investimentos pesados em automatização, conectividade e análise de dados, a John Deere realiza treinamentos que abordam desde o básico do trabalho, como o funcionamento das máquinas e a segurança do operador, até todo o universo das novas tecnologias. “Estamos num processo em que a agricultura de precisão que conhecemos hoje será transformada em agricultura de decisão, aquela na qual o produtor toma decisões assertivas, com base em dados, no momento correto para garantir a máxima produtividade”, salienta a gerente de Treinamento da empresa, Lucy Pereira, que considera a qualificação fundamental por diversos motivos, como segurança de operação, aumento da vida útil das máquinas, melhoria da eficiência do trabalho e motivação dos colaboradores.

A John Deere desenvolve diferentes atividades de capacitação. Os treinamentos de operação são para trabalhadores e oferecidos por meio dos multiplicadores da rede de concessionários. É dividido em dois níveis: orientação e também operação e ajustes. O curso tem certificação homologada pelo Ministério do Trabalho e Emprego.

O Programa Instrutor Certificado do Concessionário objetiva capacitar a rede a entregar treinamentos internos e também para os clientes da empresa.

“Os instrutores certificados são avaliados pela John Deere em um rigoroso processo composto de entrevistas, treinamentos de habilidade de instrução e apresentação, além da necessidade de conclusão dos cursos que compõe o currículo de produtos da empresa”, informa Lucy.

Mão

Atividades de qualificação da John Deere abordam desde o básico do trabalho, como o funcionamento das máquinas e a segurança do operador, até o universo das novas tecnologias

Já os Treinamentos de Manutenção Básica existem para ajudar nos cuidados dos equipamentos, por meio de dicas e técnicas de manutenção. É dividido em dois níveis: conhecimento de fundamentos básicos de elétrica e hidráulica aplicadas nos produtos John Deere, e aplicação, que inclui identificação e resolução de problemas comuns enfrentados pelo cliente e a identificação de questões que requerem apoio do concessionário, como diagnósticos complexos e calibrações. Desde 2015, a John Deere também conta com um Centro de Treinamento em Campinas, onde são realizadas aulas teóricas e práticas. A estimativa é de que as atividades de capacitação da empresa envolvam 8 mil pessoas ao ano.