Armazenagem

2019A gestão de SEGURANÇA nos silos

Armazenagem

A maioria dos acidentes em estruturas de armazenagem – alguns com vítimas fatais – acontece quando medidas de prevenção não foram adotadas. Ou quando não funcionaram de maneira adequada e esperada. A esclarecer: quase sempre os acidentes ocorrem por negligência

Elvis Pavan Gomes, coordenador de Segurança do Trabalho Gestão Ocupacional da cooperativa Cocamar

Falar sobre os critérios de segurança do trabalho tem se tornado algo estratégico em várias organizações, não pelo fato de somente proteger o patrimônio das empresas, mas sim para salvar vidas. Muitas empresas estão se tornando interdependentes em sua cultura de segurança pelo fato de acreditarem que segurança em sua operação é algo estratégico e que deve estar enraizado na cultura da empresa e de cada colaborador. As recentes mudanças econômicas, sociais e, principalmente, tecnológicas fazem com que as empresas busquem incessantemente novas estratégias e ferramentas gerenciais para auxiliar na melhoria de seus processos e produtos. No entanto, vale ressaltar que parte das organizações se esquecem de um fator importante: a melhoria das condições de segurança, saúde e bem-estar de seus colaboradores.

Mesmo em pleno século XXI, existem trabalhos caracterizados como desuma-nos e que levam a graves acidentes de tra-balho e doenças ocupacionais. Segundo a fonte do jornal O Globo (06/05/2018), o Brasil tem 22 acidentes ocupacionais por hora, estando entre os países que mais registram acidentes durante as atividades laborais. Assim, o Brasil ocupa o quarto lugar no ranking mundial, atrás apenas de China, Índia e Indonésia.

Armazenagem

Gomes: “Tão importante quanto implantar os serviços de segurança é acompanhar as suas ações e os prazos de cumprimento das atividades exigidas”

Entre vários acidentes de trabalho de diversos segmentos, alguns têm chamado atenção: são os acidentes em armazéns agrícolas, que têm se tornado frequentes, conforme o agronegócio brasileiro bate suces-sivos recordes, expondo um efeito colateral pouco conhecido da mo-dernização do campo. Um levanta-mento feito pela BBC News Brasil revela que, desde 2009, ao menos 106 pessoas morreram em silos de grãos no País, a grande maioria por soterramento. Cada vez mais co-muns nas propriedades rurais, silos são grandes estruturas metálicas usadas para armazenar grãos, evitan-do que estraguem e permitindo que empresas e/ou proprietários ganhem tempo para negociá-los. Foram con-tabilizados apenas casos noticiados por imprensa, o que, segundo espe-cialistas, indica que as ocorrências sejam ainda mais volumosas, pois nem todas as mortes são divulgadas ou registradas.

Estruturas de armazenagem x acidentes — Os acidentes ocorrem em um momento em que o País amplia a quantidade de armazéns agrícolas para acompanhar o aumento na produção. En-tre 2000 e 2016, segundo a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), a capacidade de armazenagem de grãos cresceu 80%, favorecida, em grande medida, por linhas de crédito públicas. O ano com mais acidentes fatais foi 2017, com 24 mortes, alta de 140% em relação ao ano anterior, e, em 2018, hou-ve 13 ocorrências até julho. Os estados que tiveram mais casos são os mesmos que lideram o ranking de produção de grãos: Mato Grosso (28), Paraná (20), Rio Grande do Sul (16) e Goiás (9). Houve mortes em 13 estados, em todas as regiões. Sorriso/MT, o município brasileiro com maior valor de produção agrícola, foi também o que registrou mais mortes em silos, empatado com a também mato-grossense Canarana, com sete casos cada.

A maioria dos acidentes em silos ocorre quando medidas de prevenção não são adotadas ou não funcionam de 33forma adequada. As estratégias para evitar acidentes são amplamente co-nhecidas pelos colaboradores, porém, muitas vezes, não são seguidas à risca. Em geral, soterramentos em silos matam em instantes, o trabalhador é asfixiado ao afundar nos grãos e não consegue subir à superfície, como se fosse sugado por uma areia movediça. Na maioria das vezes, o colaborador é engolido ao caminhar sobre os grãos sem cordas de segurança (linha de vida) enquanto tenta movimentar as partículas para desobstruir dutos, coletar amostras ou até mesmo fazer algum procedimento de limpeza durante o escoamento dos produtos. Esse tipo de acidente pode ser conhecido também como engolfamento. Os grãos costumam se aglutinar quando há excesso de umidade, travando o fun-cionamento do silo.

Em outros casos, menos numerosos, o trabalhador é encoberto por uma ava-lanche de grãos, esse tipo de acidente é conhecido como soterramento. A causa principal se dá pelo fato de que o traba-lhador, na maioria das vezes, fica ex-posto a uma grande quantidade de grãos acima de seu corpo, pois os grãos fica ram grudados na parede dos silos por umidade excessiva, falta de sistema de aeração e/ou excesso de resíduos vegetais. A exposição do trabalhador nessa condição é necessária, muitas vezes, para ajudar no direcionamento dos grãos para fins de escoamento e expedição, porém, quando menos se espera, toda a massa de grãos que está acima desmorona e cai sobre ele, cau-sando soterramento e até morte, caso o sistema de resgate não seja rápido.

Acidentes típicos com equipa-mentos rotativos no interior de silos também são frequentes. Durante a operação de retirada de grãos, alguns silos – principalmente os que pos-suem o fundo chato – possuem um sistema de rosca helicoidal em seu interior, equipamento este destinado à retirada e ao direcionamento de grãos. O risco se torna presente quan-do a rosca está em movimento e há a necessidade do trabalhador entrar no silo para ajudar na limpeza e/ou escoamento. A exposição do traba-lhador no equipamento rotativo pode levar a graves acidentes, tais como: cortes, lacerações, esmagamentos, amputações e até mesmo a morte.

Normas de segurança e medidas preventivas — Em primeiro lugar, é importante saber o que é um espaço confinado. A Norma Regulamentadora (NR) nº 33, que trata sobre Segurança nos Ambientes Confinados, define que o ambiente não é projetado para a permanência de pessoas. As passagens de entradas e saídas são pequenas, podendo ser desajeitadas, pois, como já mencionado, não foram projetadas para a ocupação humana contínua. A segunda característica é a circulação de ar, uma vez que a ventilação em seu interior é precária, ou seja, não é um ambiente apropriado para as pessoas respirarem. Existem vários locais que são espaços confinados, que podem ser grandes, como tanques e reatores; peque-nos, como casas de máquina e casas de bomba; subterrâneos, como rede de água e esgoto; ou acima da superfície, como fornos e caldeiras. Espaços confinados podem ser quadrados, redondos, cilín-dricos, alongados, estreitos na horizontal e na vertical. Não importa o tamanho e a forma do espaço confinado, ele não foi projetado para a ocupação humana contínua.

Porém quem entra nesse local é porque realmente precisa fazer algum trabalho específico, e a pessoa envolvida nesse tipo de trabalho deve conhecer os riscos. A norma contém quase uma centena de orientações para prevenir acidentes nesses espaços, entre as quais: proíbe o acesso de pessoas não treina-das; testa com frequência os equipamen-tos de segurança e realiza simulações de salvamento; bloqueia entradas; mapeia os principais riscos; e treina as pessoas que forem fazer os acessos. Além disso, há medidas de segurança, como Equipa-mentos de Proteção Individual (EPIs) e Equipamentos de Proteção Coletiva (EPCs) exclusivos para acesso nesses locais.

Na maioria das vezes, o trabalho em silos é sazonal. Muitas empresas costu-mam terceirizar os serviços, recorrendo a trabalhadores temporários. Entre diversas falhas citadas estão a falta de capacitação em segurança; os desvios comportamentais de tirar os equipamen-tos enquanto se realiza a atividade no interior do silos; as jornadas de trabalho prolongadas; a inadequação dos equi-pamentos de segurança, como meio de travamento; a ausência de equipamentos de segurança (EPIs e EPCs); e outras condições estruturais inseguras, como escadas de acesso quebrada, silos danificados, equipamentos sem proteções.

O que fazer para evitar acidentes
— Para que as condições de trabalho em silos sejam mantidas de forma se-gura, os silos podem ser construídos ao ar livre, desde que em terrenos planos e compactados (para suportar a carga de trabalho), arejados, limpos e bem drenados. Quanto à prevenção de explo-sões, a melhor maneira para evitar que aconteça é fazer a limpeza do local com frequência. Após ser coletado, o pó pode ser armazenado fora da área de perigo, e os silos, equipados para minimizar os incêndios. Uma série de procedimen-tos de segurança bem estruturada para operação também é uma ferramenta essencial que contribui para evitar aci-dentes. Porém, para que seja eficaz, os colaboradores precisam ser treinados/capacitados nos procedimentos.

É importante investir em sistemas de prevenção e proteção, como a ventilação exaustora nos silos, que assegura a saúde do operário, uma vez que capta agentes poluentes antes que eles se dispersem pelo ambiente. Além disso, a aeração diminui e padroniza a temperatura dos grãos. As estruturas devem ser providas de escadas e plataformas de acesso, devidamente resistentes e sinalizadas e em conjunto com essas medidas. Deve ser obrigatório o uso de EPIs, como máscaras, cintos de segurança, cordas, além da utilização de aparelhos que in-diquem o nível de gases presente nesses ambientes.

A empresa deve investir, também, em um sistema de gestão eficaz no controle de acesso de pessoas no interior de es-paços confinados, bem como medidas de autorizações de entrada. Como é o caso da permissão de trabalho vincula-da a uma Análise Preliminar de Riscos (APR), na qual é avaliado todo o risco operacional antes do acesso de qualquer pessoa no interior desse espaço. Cabe ressaltar a importância de instruir e capacitar a equipe de trabalho para que todos os funcionários envolvidos na operação saibam prevenir acidentes e, também, como agir em todas as situações de risco. As empresas são obrigadas, por lei, a garantir a segurança de seus trabalhadores, e estes devem informar a ausência de equipamentos e qualquer condição inadequada. Vale lembrar que a maioria dos acidentes ocorre por ne-gligência ou transgressão de regra. Tão importante quanto implantar os serviços de segurança é acompanhar as suas ações e os prazos de cumprimento das ativida-des exigidas nos documentos elaborados. Por isso um serviço de gestão de segu-rança do trabalho é tão importante dentro de uma organização.