O Segredo de Quem Faz

A rentabilidade do arrozpassa pela DIVERSIFICAÇÃO

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Denise Saueressig
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Há mais de 30 anos, Alexandre Azevedo Velho é produtor de arroz em Mostardas/RS, na propriedade onde o cultivo teve início com seus avós, em 1948. Também é lá que, há seis anos, iniciou um esquema de rotação com a soja que ajudou a incrementar a produtividade obtida com o cereal. Para ele, é justamente esse sistema que representa um caminho para a redução de custos e, consequentemente, para a melhoria da rentabilidade na lavoura de arroz. Com uma agenda movimentada pela frente e questões desafiadoras a enfrentar, o produtor de 51 anos inicia, em julho, seu mandato de presidente da Federação das Associações de Arrozeiros do Rio Grande do Sul (Federarroz). Atual vice-presidente, Velho assume para o triênio 2019-2022 em substituição à Henrique Dornelles, que ocupou o cargo por seis anos. Nesta entrevista, ele conta sobre as prioridades do trabalho em defesa dos orizicultores que respondem por cerca de 70% da safra brasileira do cereal.

A Granja – Quais são as suas priori-dades como presidente da Federarroz?

Alexandre Azevedo Velho – Temos que trabalhar a questão estrutural do arroz para que tenhamos redução do custo de produção. É uma meta da Federarroz, assim como outras pautas bastante im-portantes, como buscar recursos para a armazenagem, recursos para irrigação e juros menores para o arrozeiro, que enfrenta uma rentabilidade muito baixa no seu negócio. Também pretendo buscar uma participação maior da base arrozeira, ou seja, envolver mais produtores e mais associações no processo. Hoje, são 27 as-sociações, sendo que 16 dessas realmente fazem parte do dia a dia da Federarroz e estão em dia com suas atribuições. Essas 16 associações representam quase 70% do arroz produzido no Estado. O ideal seria que as 27 associações estivessem mais engajadas. E é essa aproximação que que-remos, com uma participação maior de to-dos. E isso vamos fazer levando informa-ções e buscando as demandas no Interior. Também queremos, cada vez mais, uma unidade e uma evolução em conjunto com a Farsul (Federação da Agricultura do RS) e a Fetag (Federação dos Trabalhadores na Agricultura no RS). O momento do arroz pede uma união de forças para que possamos enfrentar os complexos temas que envolvem a cultura. Também estamos entrando mais forte numa pauta tributária. Hoje, temos grandes diferenças de tribu-tação entre os estados, e essa diferença tira competitividade do Rio Grande do Sul, principalmente em relação a grandes centros consumidores, como São Paulo e Minas Gerais. Esses estados têm alíquota zero de imposto para a indústria de arroz. E nós, gaúchos, para vendermos para SP e MG, temos que pagar 12% de imposto no arroz em casca. Todo o arroz que nós dei-xamos de vender para os grandes centros acaba sendo ocupado pelos vizinhos do Mercosul, principalmente pelo Paraguai.

A Granja – Sobre o Mercosul, existe a necessidade de trabalhar por melho-rias nos acordos que envolvem o bloco?

Velho – Precisamos urgentemente rever o Mercosul. Estamos tratando desse assunto com o Ministério das Relações Exteriores, com quem tivemos uma re-união recentemente. Estive também em reunião com o ministro Paulo Guedes (Economia), para quem expliquei que temos diferenças gritantes de custos de produção, principalmente em relação à energia elétrica. O arrozeiro paraguaio tem condições de ter um custo em torno de R$ 34, R$ 35 (a saca de 50 quilos), enquanto o custo do arroz no Brasil e no RS não baixa de R$ 41, R$ 42. E isso é o custo do desembolso, ou seja, o valor que o produtor tira do bolso para plantar. Não inclui investimento, arrendamento e pró-labore. A ministra Tereza Cristina (Agricultura), inclusive, tem dito isso em algumas reuniões que tenho participado, deixando claro que o Mercosul, da forma como está, acaba causando prejuízos para a cadeia orizícola. O ministro Paulo Guedes solicitou o agendamento de uma reunião, que, possivelmente, será no início de junho, quando iremos tratar da questão do Mercosul em conjunto com os ministérios da Agricultura, da Economia e das Relações Exteriores. O assunto também está na pauta da Frente Parlamentar da Agropecuária.

A Granja – E quais são as negocia-ções relacionadas ao endividamento dos produtores?

Velho – Temos dois assuntos em relação a isso: um é o fundo de aval do passado, das dívidas. Teremos reunião no BNDES sobre isso. Já estive reunido com o presidente Joaquim Levy, e evoluímos essa questão, principalmente em relação à taxa de juros. Hoje, esse fundo de aval tem taxas entre 11% e 12% ao ano, e nós pretendemos reduzir esse índice para em torno de 8%, ou, no máximo, 9%. Hoje, são 12 anos para pagar, com três anos de carência. Existe uma proposta de levar esse prazo para 15 anos. Há um outro fundo, que é o fundo garantidor, que existe para garantir as operações de investimento e de custeio. As instituições financeiras não querem mais garantia de terra, mas uma garantia melhor lastreada, digamos assim. Então esse fundo seria o que teríamos, para o produtor que não tem garantia e está sendo financiado pela in-dústria e pelos fornecedores de insumos. Ele teria, lançando mão desse fundo, como voltar para o sistema financeiro oficial e sairia desse custeio da indústria. Esse financiamento da indústria prejudi-ca todo o mercado. A indústria financia mais de 60% da lavoura de arroz do RS, e o produtor acaba pagando esse custeio durante a colheita, nos meses de março e abril, prejudicando todo o mercado. Onde temos essa dependência muito grande da indústria e baixa capacidade de armazena-gem, e aí posso citar o município de Dom Pedrito, nós temos o pior preço do Estado. Esperamos que essas pautas relacionadas aos dois fundos já estejam contempladas no próximo Plano Safra, que será anun-ciado em junho. Hoje, existe uma conta da dívida que chega a R$ 2 bilhões junto às indústrias fornecedoras de insumos e ao sistema financeiro. Apenas 30% dos arrozeiros estão no crédito oficial, então podemos dizer que 70% ou 60% têm dívidas. E alguns produtores que estão no crédito oficial também têm dívidas. O problema é que muitos produtores en-tregaram o arroz a R$ 37, R$ 38, R$ 39, e alguns pagaram seus custeios a R$ 40 para as indústrias. Esse produtor fica sem produto para vender no melhor momento, ao contrário de quem está no crédito ofi-cial, que começa a pagar os seus custeios em junho ou julho. Por isso, esse sistema de financiamento acaba prejudicando, porque, quando o arroz vale mais, o produtor não tem mais arroz para vender.

A Granja – Sabemos que alguns fa-tores que compõem o custo não depen-dem do produtor. Mas entre aqueles que passam pelas mãos do produtor, de que forma é possível trabalhar para reduzir o custo?

Velho – O caminho é um sistema de produção. Nem toda propriedade tem condições para o plantio da soja, mas temos que adequar a nossa propriedade para a soja. E a soja, quando você planta e, depois, volta com o arroz nessa área, no ano seguinte, se percebe uma redução de custo de, pelo menos, 15% na cultura do arroz. Além de melhorar a produtivi-dade e a fertilidade do solo, diminui o número de plantas invasoras resistentes, 2019porque você utiliza produtos com outros princípios ativos. Consequentemente, a produtividade aumenta, e o custo de produção recua. Então, quando falamos dessa diversificação, e aí entra também a pecuária, o produtor tem que incluir, na medida do possível, mais de um produto no seu sistema. Na minha propriedade, cultivo soja há seis anos. Planto 250 hectares de arroz e 250 hectares de soja. Neste ano, tive a melhor produtividade de arroz da minha vida, em torno de 180 sacas (9 mil quilos) por hectare. Na soja, tenho uma média acima de 50 sacas por hectare. Nas áreas de soja, também tenho pastagem de aveia e de azevém. Tenho um vizinho que tem o gado, eu engordo na minha pastagem e nós dividimos o resultado de ganho de peso. A cobertura vegetal eu teria de qualquer forma pela incorporação de nutrientes e melhoria de todo o sistema, mas essa integração da lavoura com a pecuária ajuda a bancar os custos com o arroz. O produtor tem que racionalizar a sua área. Ele somente pode plantar arroz onde tem condições de colher, pelo menos, 160 sacas por hectare. Esse seria um ponto de equilíbrio para pagar o custo de produção e, acima disso, começar a ter remuneração. E colher aci-ma de 160 sacas por hectare só é possível com um sistema de rotação.

A Granja – A área cultivada com soja na Metade Sul do Estado passou dos 300 mil hectares em 2018/2019. Acredita que a cultura continuará avançando nos próximos anos?

Velho – A área de soja está aumen-tando na Metade Sul, e a área de arroz está diminuindo. Isso também é uma questão de sobrevivência. A soja é um outro mercado, é um produto que tem contratos futuros. Tenho certeza que esses 300 mil hectares com soja podem chegar, nos próximos dois anos, a, pelo menos, 500 mil hectares. É um caminho sem volta. Em Dom Pedrito, a soja passou de 30 mil hectares para 120 mil hectares nos últimos três, quatro anos. E o arroz passou de 50 mil hectares para 38 mil hectares, com tendência de que recue para 30 mil hectares.

A Granja – O senhor acredita em uma nova redução de área plantada com arroz na próxima safra?

Velho – Tenho certeza que a área vai continuar diminuindo. A redução no RS foi de 7% na última safra (para cerca de 1 milhão de hectares), e o Brasil está num caminho, como o Uruguai, que reduziu 20%. Temos que achar maneiras de depender menos da indústria no finan-ciamento da lavoura e também encontrar formas de reduzir o passivo. Também é importante citar o caos social que es-tamos vendo em função da redução do emprego em consequência desse recuo na lavoura de arroz. Enquanto, no arroz, eu tenho um funcionário para 50 hecta-res, na soja, é um funcionário para 300 ou 200 hectares. Então temos de quatro a seis vezes mais empregos no arroz do que na soja. O arroz deixa impostos para o Governo do Estado. Nós tivemos mais de R$ 600 milhões arrecadados em ICMS no ano passado. São quase 200 municípios no Estado do RS que têm na sua economia uma dependência muito grande do arroz.

A Granja – Quais são as expectati-vas para o mercado externo de arroz?

Velho – Em 2018, foi exportado 1,5 milhão de toneladas de arroz em casca. O número da Conab (Companhia Nacional de Abastecimento) para 2019 indica 900 mil toneladas. Essa redução deve ocorrer porque, quando o arroz tem um valor nominal maior, como foi neste ano, que tivemos uma produção de 1,2 milhão de toneladas a menos, tem tendência de valor maior, o que dificulta a exportação. As vendas externas são fundamentais para regular a oferta e a demanda. Temos a notícia da abertura do mercado mexicano, em um primeiro momento, para o arroz beneficiado. Porém estamos na expecta-tiva para fechar negócios também para o arroz em casca, já que a Federarroz representa os produtores, e os produtores vendem arroz em casca. Também temos a expectativa de negócios para o arroz em casca para o Panamá e a Guatemala. Solicitamos ao Ministério da Agricultura os requisitos fitossanitários desses dois países. A busca por novos mercados é meta para que tenhamos mais alternativas de escoamento. Em função disso, também temos uma pauta estadual que trata da modernização do Porto do Rio Grande, porque temos uma dependência muito grande do porto para exportar. O sistema de carregamento no porto, de certa forma, é ultrapassado.

A Granja – Quais são as outras pautas no âmbito estadual?

Velho – A questão do ICMS do arroz em casca, que já trabalhamos há dois anos, teremos uma reunião com as secretarias da Fazenda e da Agricultura para tratarmos disso em conjunto com a Farsul. Temos que reduzir de 12% para 7% o ICMS do arroz em casca. Esse valor de 7% já é o que a indústria paga para vender o arroz para São Paulo, por exemplo. E o arroz em casca ainda paga 12%, o que, muitas vezes, inviabiliza o negócio e dá mais espaço para este mer-cado ser ocupado pelo arroz do Paraguai. Seria positivo termos o ICMS do arroz em casca de 12% para 7% por, pelo menos, 90 dias, que é o período da colheita, para estimular uma venda maior para fora do Estado. Quero deixar claro que isso não é contra a indústria do RS. Pelo contrário, mas é uma medida, sim, de incentivo aos negócios e de uma maior arrecadação de ICMS para o Estado. Não é uma medida contra a indústria, porque nós produzimos 70% do arroz do Brasil e não temos, por parte da indústria do RS, capacidade de beneficiar todo esse volume. Então o excedente que a indústria gaúcha não con-segue beneficiar acaba ficando estocado, oprimindo preços. Também temos uma outra pauta estadual relacionada ao Irga (Instituto Rio Grandense do Arroz). É im-portante que se repasse a integralidade da taxa CDO (Taxa de Cooperação e Defesa da Orizicultura) para o Irga. Hoje, é em torno de R$ 90 milhões por ano, e apenas R$ 50 milhões ou R$ 55 milhões são re-passados para o Irga, e o restante fica no caixa único. Então estamos solicitando que um recurso, que é proveniente do se-tor arrozeiro, fique com o setor arrozeiro, que tem que investir, por meio do Irga, em mais pesquisa, extensão e melhores salários para o seu quadro funcional.