Conjuntura

Grão-de-bico aGoniza na aGricultura

Conjuntura

Produtor recebe R$ 2,40 pelo quilo do grão, que chega ao consumidor custando até R$ 38. Assim, o consumo interno é mínimo, e a área da leguminosa deverá encolher de 6.500 hectares em 2018 para menos de 1.000 neste ano

Osmar Pereira Artiaga, produtor de grão de bico e mestre em Melhoramento, e Shara Regina dos Santos Borges, doutora em Produção Vegetal

O cultivo do grão-de-bico tem tomado destaque no Brasil, visto que sua produção saiu de praticamente do zero para algo em torno de 6.500 hectares em 2018, somente no Planalto Central (Distrito Federal, Goiás, Bahia, Minas Gerais e Mato Grosso). E a produção é de aproximadamente 6 mil toneladas, e quase 80% do consumo interno. Porém, apesar da cultura estar sendo introduzida, com êxito no País o consumo interno permanece baixo. Neste sentido, fica uma pergunta: o que está faltando para estimular o consumo? A principal resposta pode estar entre a disparidade do preço pago ao produtor, algo em torno de R$ 2,40 por quilo, e que chega à ponta final da cadeia, ao consumidor, variando entre R$ 17 a R$ 38 ao quilo.

A população tem crescido exponencialmente, principalmente nas áreas mais precárias, exigindo-se do agronegócio uma produtividade cada vez maior, a fim de suprir a demanda por alimentos. O grãode- bico pode ser uma alternativa alimentar saudável, porém, deve ser de baixo custo para que chegue à mesa da grande maioria da população brasileira, principalmente àqueles que não têm condições de pagar o preço praticado atualmente nas gôndolas. Resumidamente, na cadeia produtiva do grão estão presentes os seguintes atores: produtor, empacotador, centros de comercialização e consumidor final. Neste percurso entre produtor e consumidor, está havendo um aumento no valor do produto de mais ou menos 750% a 1.500%, o que não parece justo, já que um dos objetivos de introduzir uma nova cultura no Brasil é principalmente fomentar o consumo interno. E os preços praticados atualmente têm mantido este consumo nas 8 mil toneladas por ano.

Conjuntura

No percurso entre o produtor e o consumidor do grão-de-bico, ocorre um aumento no valor do produto que varia entre 750% a até 1.500%

A sugestão, neste caso, seria pagar ao produtor algo em torno de R$ 4/kg e vendido ao consumidor a no máximo R$ 8/kg (aumento de 100% no preço), visto que o produto sai beneficiado, o frete é pago na origem, ou seja, pelo produtor (frete Cif, em português, custo, seguro e frete), chega à empacotadora e segue para os centros de comercialização até o consumidor final. O que fazer para resolver este imbróglio e aplicar um preço justo tanto para produtores quanto para os consumidores? Acredita-se que o preço ofertado ao consumidor precisa ser mais atrativo, para que mais pessoas tenham conhecimento e acesso ao grão-de-bico. Desta forma o consumo aumentaria internamente e daria equilíbrio ao sistema produtivo toda vez que a commodity sofresse alguma baixa no mercado internacional, como aconteceu em 2018.

Conjuntura

Segundo Artiaga e Shara Borges, os produtores que cultivaram o grão no ano passado já demonstraram desinteresse em produzi-lo em 2019

Notoriamente, o sonho da cultura do grão-de-bico fazer parte da agricultura e do cardápio do brasileiro está agonizando. Os produtores que cultivaram o grão em 2018 já demonstraram desinteresse em produzir em 2019. Uma área de produção que cresceu progressivamente e chegou a 6.500 hectares no ano passado, deve reduzir para no máximo mil hectares neste ano, podendo se extinguir do cenário agrícola em 2020, pois, as vendas seguem travadas no mercado internacional e nacional, e praticamente todo o volume produzido (90% da safra) encontra-se dentro dos armazéns. Aliado a isso, há o fator tributário que não estimula. O produtor paga 12% em operações interestaduais e 17% em operações estaduais só de ICMS. Fator que poderia ser equiparado aos componentes da cesta básica para estimular o cultivo e consumo, uma vez que o grão-debico não é especiaria e sim um cereal rico em fonte de nutrientes. Portanto, é importante que para a sobrevivência da cultura no País haja uma maior compreensão sobre os custos embutidos em todos os segmentos da cadeia e o porquê do produto chegar ao consumidor com preços tão elevados.

Neste sentindo, o estímulo ao consumo do grão de bico internamente é estratégico para aumentar a demanda e assim ocorrer um impacto significativo no valor do produto no final da cadeia, criando, desta forma, condições reais para que os agricultores sintam-se motivados a continuar produzindo. Afinal, é visto na prática que o aumento da produção não interferiu na diminuição do preço no mercado interno.