Palavra de Produtor

Silêncio creSce no campo

Palavra

As estatísticas de esvaziamento do campo ficam reforçadas pelo fechamento de escolas na zona rural. Havia 103.300 escolas rurais em 2003. Em 2018 restavam 57.600. Diminuição de 45.700 escolas em 15 anos. No ano passado havia 5,47 milhões de estudantes matriculados na zona rural e 1,3 milhão a menos que em 2008. Quando se analisa, confrontando campo e cidades os dados são mais alarmantes. Do levantamento concluído em 2018 pelo IBGE, dos jovens da zona rural, entre 17-20 anos, apenas 74,7% concluíram o ensino fundamental. Também, da população rural igual ou maior que 25 anos só frequentaram escolas por 5,8 anos, contra 9,1 anos dos habitantes das cidades. É uma tragédia sob todos os ângulos em que se aborda o tema. Agravada que fica pelo fato de existir reduzido número de escolas de ensino médio e, caso os jovens queiram estudar são compelidos a ir para as cidades. Poucos retornam ao campo. Conforto, melhor renda, infraestrutura social não os atrai a fazer o caminho contrário.

A visão financeira e o desprezo institucional só ajudam a piorar a realidade do interior brasileiro, explicitada na visão de Cleuza Repulho, da União dos Dirigentes Municipais de Educação: “As escolas no campo têm custoaluno muito alto”. Como se vê, a população rural é considerada um fardo, um ônus demasiado aos cofres públicos. Em 2014, Fernando Haddad reconheceu que as políticas educacionais para o campo foram o ponto fraco enquanto esteve à frente do Ministério da Educação. Depreende-se que a visão larga do que significa Capital Humano não entrou no radar das atenções dos poderes públicos. Os pujantes resultados na Balança Comercial, apresentados pelo conjunto que envolve a produção agropecuária na formação do Produto Interno Bruto (PIB), infelizmente não sensibilizam os governantes. Entendem que o campo pode se virar sozinho, como se não houvesse responsabilidades constitucionais objetivas para com essa população.

Zander Navarro, renomado professor, aposentado, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), sintetizou o quadro geral do interior do Brasil: “Confrontado com esse inquietante contexto de mudanças, surpreende o imobilismo governamental e espanta a omissão do sindicalismo que deveria representar os mais pobres. Ignoram a nova urgência social – salvar a pequena produção! E parecem concordar com a tendência de esvaziamento do campo e o inchamento das cidades brasileiras. Cada vez mais, as regiões rurais perdem vozes e ganham o silêncio”.

Que o diga Santa Catarina, estado composto por centenas de pequenos municípios, os quais têm em sua malha viária as “linhas”, que são as estradas rurais, conectando-as com as sedes municipais. Tome-se como exemplo o pequeno município de Ipira/SC, com 150 quilômetros quadrados. Há “linhas” desertas, onde não há mais habitantes, tendo se transformado num ambiente desolador e deprimente, pois lá estão dezenas de casas e instalações rurais se deteriorando, vazias e silenciosas. Para quem conhece a história da colonização brasileira, fica um gosto amargo na boca e a pergunta que não quer calar: por que os governos ignoram o campo?

Engenheiro-agrônomo, produtor de soja, milho e gado em Nova Maringá/MT, especialista em Administração de Empresas, autor do livro Reflexões de um Alemão Cuiabano