O Segredo de Quem Faz

Sucessão: “Meu pai sempre me deixou VOAR’’

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Leandro Mariani Mittmann
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A sucessão familiar é um assunto que obrigatoriamente deve estar à mesa: seja a de reuniões na sede da empresa, seja dividindo atenções com pão, queijo e margarina na mesa do café da manhã compartilhada por pai, mãe, irmãos. É um dos temas mais vitais para a felicidade e sucesso de uma família e de uma empresa. Para tanto, atenção a declarações como as seguintes: “Eu vou falar que me dou melhor com o meu pai no trabalho do que pessoalmente... A gente se entende muito bem no trabalho. E ele sempre me deu muita liberdade, muita autonomia para aplicar as minhas ideias. Ele sempre me deixou voar um pouco. E foi muito bom para mim. Meu perfil é um perfil de liderança, de inovação, de facilitar as coisas, e eu consegui encontrar com ele um parceirão para aplicar as minhas ideias”. São considerações do engenheiro agrônomo Pedro Tomazelli, 31 anos, gerente da Agro-Sol Sementes, sediada em Campo Verde/MT, que começou, aos 21, como estagiário da empresa em que o pai, Gladir Tomazelli, é sócio. Pedro se envolveu em todas as áreas da empresa, até chegar à gerência de Produção e Vendas, e no ano passado foi o vencedor do Prêmio Famato em Campo, justamente pelo exemplo que ele relata nesta entrevista.

A Granja — Como é o seu envolvimento com a empresa?

Pedro Tomazelli — Hoje é o mercado de sementes. Sou engenheiro agrônomo, mestre em Tecnologia de Sementes pela Universidade Federal de Pelotas/ RS e hoje trabalho com sementes de soja e de milho. Mas o meu envolvimento com agricultura começa desde muito novo. Meu pai sempre esteve envolvido com sementes. E eu sempre segui os passos dele. Ele começou desde muito novo. Fez curso de técnico agrícola em Pelotas, subiu para o Mato Grosso do Sul, veio para Rondonópolis/MT, se instalou em Campo Novo do Parecis/MT. E hoje somos sócios de uma empresa, a Agro- Sol Sementes, uma união de holdings e um capital francês de uma empresa chamada Grupo InVivo. O que eu faço é a comercialização da semente de soja. E eu comecei lá atrás como engenheiro agrônomo da fazenda. Até bem antes disso comecei como estagiário, líder das pessoas no operacional das fazendas. Fui evoluindo dentro da propriedade. E hoje o que eu faço é comercializar essas sementes que produzimos. Na produção eu não atuo mais na parte executiva, atuo mais na parte de planejamento de cultivares, planejamento da escala de produção e pego o produto acabado, que foi recepcionado, seco, acabado, o produto embalado já identificado por lote que eu dou sequência e que faço acompanhamento, tenho equipe de controle de qualidade. Faço o acompanhamento do produto acabado até a venda final.

A Granja — Como foi a sua ascensão na empresa desde que você entrou como estagiário até hoje?

Tomazelli — Eu sempre ia para a fazenda, acompanhava como moleque. E eu comecei Agronomia na Universidade de Passo Fundo/RS e transferi para cá (Univag, Várzea Grande/MT) e, a partir do momento em que me formei, tive oportunidade de estágio (aos 21 anos). Aí, eu pensei junto do meu pai em já ter uma função na fazenda, dentro da empresa, que seria importante para mim. Comecei a fazer levantamento de pragas, doses de defensivos para aplicação, controle de estoque em almoxarifado, enfim, em diversos controles eu atuei e até implementei nessa época de estágio. Seis meses de estágio, dois meses fiquei no campo, dois meses dentro da fábrica, da unidade de beneficiamento, atuei bastante na regulagem de métrica, na regulagem de secador de sementes, no controle de estoque e de qualidade, fiz bastante análises de tetrazólio laboratorial, e nos outros dois meses finais fui para a parte mais administrativa. Aprendi o sistema da empresa a implantação de ordem de serviços, fazer todo o acompanhamento, incorporar os talhões, como são feitos os talhões dentro sistema, como funcionava a contabilidade e o orçamento da empresa, aprovações. Então, aprendi, sentei um pouco ao lado do meu pai na gestão da empresa e aprendi a fazer essas coisas. Depois do estágio dei um pulo nos Estados Unidos, por cerca de sete meses, fui aprender inglês e voltei para trabalhar, em 2011, para ser um engenheiro agrônomo das fazendas.

A Granja — E foi tranquila a sucessão familiar, trabalhando com o seu pai?

Tomazelli — Eu vou falar que me dou melhor com o meu pai no trabalho do que pessoalmente... A gente se entende muito bem no trabalho. E ele sempre me deu muita liberdade, muita autonomia para aplicar as minhas ideias. Claro que tive que provar previamente que poderia dar certo. Mas ele sempre me deixou voar um pouco. E foi muito bom para mim. Meu perfil é um perfil de liderança, de inovação, de facilitar as coisas, e eu consegui encontrar com ele um parceirão para aplicar as minhas ideias. Até porque a gente passou por momentos difíceis, como toda a empresa que cresce tem esses momentos difíceis. Meu pai chegou numa empresa um pouco complicada financeiramente. O sócio, que é o majoritário, estava muito mal. O pai chegou para gerenciar essa empresa. E ele precisava de gente como eu, parceira, para implantar, e para tocar esses outros pontos, enquanto ele cuidava da gestão financeira. A sucessão minha e do meu pai não é muito patrimonial, é mais no trabalho, na gestão. Muito do que ele fazia, hoje sou eu que faço. O pai era o cara que batia o escanteio e ia cabecear. Hoje eu absorvi e criei muitos setores, muita participação na empresa, e ele fica mais na direção. Ele é o diretor e eu sou o gerente.

A Granja — E na sucessão familiar, o que você considera mais difícil, mais desafiador em trabalhar com o pai? E da mesma forma, algum problema com colegas de trabalho...

Tomazelli — O que foi mais desafiador para mim foi eu tentar fazer aos colaboradores, ao pessoal da empresa, entender que eu não era só o filho do meu pai. Que eu era o cara que estava aí sendo preparado para tocar uma parte da empresa. Passei por algumas situações de, por exemplo, o cara falar para mim assim “o que que tu quer, piá? Eu estou faz 20 anos aqui neste negócio e tu chegou agora e quer me ensinar?”. E houve situações em que eu falei “então, faz de 18 a 20 anos que tu faz errado. Eu vim aqui pra te ajudar, vamos conversar...” Então, isso foi um desafio para mim. Mas eu só tenho experiências boas para falar. Não tenho nenhuma experiência ruim. Já discuti com o meu pai, mas um debate de ideias. Nunca passamos uma situação muito mal eu e ele. O desafio para mim foi mais tranquilo nesse sentido, pelo que eu expliquei. Mas, é claro, que a gente enfrenta algumas provas no caminho. Eu sou um cara de experiências boas nessa situação.

A Granja — E qual é o maior desafio no Brasil a jovens empreendedores como você? O que está mais difícil? Precisa estudar muito?

O que é mais desafiador é a complexidade de informação, de saber gerenciar tudo isso. Tenho amigos que até são mais novos, dando a sua opinião... Acho que o desafio nosso, dessa juventude, é saber decifrar todos esses números que são gerados, que chegam para nós e poder ser mais assertivos. Eu acredito que antigamente, na época do meu pai, se podia ter uma margem de erro maior. Hoje está muito difícil se você errar, tem que ser muito assertivo. Essa complexidade que se tornou uma empresa agrícola, o agronegócio, quanto de informação de mercado, quanto de gestão de pessoas internas, isso tudo é um desafio para nós. Colocar numa plataforma visual, buscar indicadores a todo o momento para tomar decisões mais assertivas. Temos um papel importante também na direção correta do mercado. Temos que ser muito justos com todo mundo hoje, porque dentro da fazenda você tem praticamente um laboratório de empresas. Você tem que ter uma empresa parceira para ela acessar um serviço para depois poder retirar dela o melhor, para conseguir fazer um negócio bom, vender o produto corretamente no mercado. A gente tem que ter também muito senso de justiça, com stakeholders, quanto com teus fornecedores como com teus compradores.

A Granja — E até estendendo esta questão, para nível de Brasil. O que vocês veem como maior dificuldade? Agora entrou um novo Governo, uma proposta diferente, mas tudo está tão amarrado. Como é empreender no Brasil hoje? Qual a tua visão, de um jovem, sobre isso?

Tomazelli — Eu sou um entusiasta. Acredito muito no Brasil. Vou falar bem pessoalmente, eu sempre tive um pé atrás com esse Governo que entrou, não sou de esquerda, mas também acredito que esse polo extremista que está aí não sei se ele vai conseguir articular muito bem. Articular não é negócio desse cara. O problema é a instabilidade econômica. É difícil empreender hoje. Você não tem uma estrutura de política dentro do trabalho de mão de obra. O Ministério do Trabalho você não tem segurança da tua mão de obra, do teu pessoal. Você não pode contratar qualquer um, tem tanta gente boa aí que precisa de um trabalho e você não consegue nem fazer uma experimentação, tem toda uma burocracia que te retarda. Até a questão financeira de mercado. Nos Estados Unidos está chovendo, Mato Grosso produziu 5% a menos, o dólar está quase R$ 4, e a soja está com índices baixíssimos de preço. Esta instabilidade é complicada. Faz você ficar em casa às vezes. “Não, vamos ficar em casa hoje, vamos ficar calmo porque o mercado não está deixando a gente fluir...” É a insegurança do sistema.

A Granja — E que levou você a ganhar a premiação da Famato? Quais as justificativas para a tua premiação?

Tomazelli — No ano anterior (2017) eu já tinha me inscrito porque o prêmio era a inovação. Como eu criei junto com alguns colegas da empresa uma ferramenta de inovação, o aplicativo Agro-Sol, é uma coisa inovadora no nosso setor de sementes, que permite rastrear e abrir a qualidade de sementes para o meu cliente. Ninguém faz isso, todos ficam escondendo porque tem medo do cara ir olhar relatório. Simplesmente abri para o cara tomar uma decisão no campo, uma ferramenta prática. Como eu participei nesse ano da inovação, e no ano passado foi sucessão, o jovem produtor no agronegócio, mas muito voltado para a sucessão, acho que o que marcou foi a história minha e do meu pai, essa liberdade de eu trabalhar na empresa, acho que o que brilhou os olhos deles e me fez ganhar. Até porque eu sou um cara de casa, com duas famílias no negócio e mais uma empresa estrangeira. Eles estão apostando muito em mim para a empresa crescer, colocando o faturamento todo na minha mão, para eu ficar no mercado. Temos um futuro para crescer aí quase 100% em dois, três anos. Acho que foi isso que brilhou. Eles não pegaram o executivo de fora e me deixaram de lado porque eu não tenho experiência.

A Granja — Gostaria que você deixasse um recado, dicas para outros jovens aí de 25 a 30 anos, o que eles têm que fazer, seja esse jovem alguém que trabalhe na sua própria empresa familiar, ou colaborador de outra empresa.

Tomazelli — Tenho a dizer que podem acreditar no setor de agronegócio em que estamos, que é uma coisa absurda o potencial de crescimento. Acabei de vir de uma feira de Lucas do Rio Verde/MT, é padrão americano, absurdo a feira, muitos negócios. No ano passado vendemos R$ 4 milhões, neste foram R$ 2,5 milhões em dois dias. Um potencial muito grande. Mas o recado que eu dou aos jovens é coloque suas ideias no papel, se utilizem da experiência dos mais velhos, dos pais, tios e avós para se embasar mais. Coloquem suas ideias em ação. Coloquem no papel e reflitam e façam uma ação delas. Caso não dê certo, façam algum ajuste. Mas não fiquem esperando. Eu fui um cara que sempre tive a ideia e consegui colocar em prática. Fui abençoado por isso. Tive muita oportunidade. Não deixem de provar por A + B que você pode estar certo e tentar colocar em prática. Nunca desrespeitando os mais velhos, passando por cima, nem que demore um pouco para você colocar em prática. Peça a bênção do mais velho, fale com ele, troque uma ideia. Os caras foram quem construíram tudo isso. Você não pode simplesmente por achar que fez uma faculdade, sabe muito, que é entusiasta demais, que pode passar por cima. Sempre tive esse conceito na minha mente. Peça a bênção, troque uma ideia antes de agir. Mas nunca deixe de provar suas ideias. E para o jovem colaborador tem espaços para crescer nessas empresas, fazendas. E cada um tem o seu papel. Lembro que fui entrevistado nesse prêmio por outro veículo e ele perguntou “você quer ser presidente da empresa?”. Eu disse “olha, eu não tenho essa visão de querer ser o presidente. Se acontecer é consequência. Eu quero fazer bem feito o trabalho que eu tenho para fazer hoje”. O que é? Eu tenho que vender 1 milhão de sacas para a empresa. É isso que eu tenho que fazer. É isso que eu tenho que fazer bem feito. Esse é o meu recado.