Solos

Só a CONSERVAÇÃO salva

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Estudos mostram quanto os solos do planeta estão ameaçados pela degradação. Praticamente um terço está arruinado, e o custo anual de fertilizantes para repor os nutrientes perdidos pela erosão chega a US$ 150 bilhões. Quais são as práticas preservacionistas?

Engenheiro-agrônomo e engenheiro florestal Valter Casarin, coordenador científico da Nutrientes para a Vida e professor do Programa SolloAgro de Educação Continuada da Esalq/USP, e Amanda Borghetti, acadêmica do curso de engenharia agronômica da Esalq/USP

A conservação do solo mundial está passando por sérias ameaças, principalmente pela ação da erosão, da compactação e da perda da matéria orgânica, entre outros, atingindo quase um terço das terras do planeta. Um amplo estudo coordenado pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), envolvendo 600 pesquisadores de 60 países, mostrou que mais de 30% dos solos do mundo estão degradados. As perdas por erosão em um mesmo tipo de solo podem variar conforme o cultivo aplicado, e, se não for realizado um manejo conservacionista integrado, as perdas podem chegar a valores na ordem de 40 toneladas hectare/ano no caso do cultivo de algodão, de 1 tonelada ha/ano no cultivo de café e de 0,7 tonelada ha/ano para pastagem. Estudos, com a participação da Embrapa, têm estimado perdas anuais de culturas causadas por erosão em torno de Leandro Mariani Mittmann 0,3% da produção. Continuando nesse ritmo, as perdas podem atingir mais de 10% até 2050. A erosão em solo agrícola e de pastagem intensiva varia entre 100 e 1.000 vezes a taxa de erosão natural, e, consequentemente, o custo anual de fertilizantes para repor os nutrientes perdidos pela erosão chega a US$ 150 bilhões.

Com a intenção de controlar as perdas de solo, há a necessidade de avaliar o relevo e a textura do solo antes do seu uso para pecuária ou agricultura. Cada terreno tem as suas especificações, o que implica em manejo agrícola e, consequentemente, potenciais de perdas de solo diferentes. No caso da cana no estado de São Paulo, muitas vezes, houve ampliação dos canaviais paulistas em áreas impróprias aos cultivos anuais. O planejamento inadequado pode levar ao aumento do processo erosivo. Para a quantificação das perdas de solo por erosão laminar, alguns cientistas do Serviço de Pesquisa Agrícola (ASR), do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), desenvolveram a Equação Universal de Perdas de Solo (EUPS – Universal Soil Loss Equation), que é, atualmente, a mais utilizada e aceita (USDA, 1996).

Ela consta com os seguintes fatores:

A = R. K. L. S. C. P.

A = perda de solo, em t/(ha.ano);

R = fator erosividade da chuva, em MJ.mm/(ha.h.ano);

K = fator erodibilidade do solo, em t.h/ (MJ.mm)

L = fator comprimento de rampa, baseado nos valores, em metros, do comprimento de rampa (adimensional);

S = fator declividade, baseado nos valores, em porcentagem, da declividade (adimensional);

C = fator uso e manejo (adimensional);

Além do relevo, é possível identificar a diferença das perdas de solo relacionada à classificação da sua textura. Outro problema que ameaça o solo é sua compactação, que pode reduzir em até 60% os rendimentos mundiais das culturas agrícolas. Os danos causados pela compactação do solo são de longa duração ou mesmo permanentes. Uma compactação que aconteça hoje pode levar à redução da produtividade das culturas até 12 anos mais tarde. Um manejo muito comum até 2009 para a colheita da cana-de- -açúcar, a queimada é outro fator que favorece a erosão do solo. Em estudos realizados na bacia do rio Taquari, região do Distrito Federal, o solo manejado com queimada apresentou perda 257% maior que o solo com manejo conservacionista.

Por fim, exemplificando casos e seus fatores de perda de solo no Brasil, o assoreamento do rio Taquari, no Pantanal Mato- Grossense, é um grave problema socioeconômico, ocasionado, principalmente, pela erosão de pastagens degradadas. As perdas médias de solo nas pastagens da Bacia Hidrográfica do Alto Taquari, em 2010, foram estimadas em 9,683 toneladas/ hectare. Entretanto, com a implantação de manejo adequado de solos e pastagens, é possível reduzir em até 75,97% as taxas de perda de solo por erosão.

O controle das perdas de solo pelos fatores citados anteriormente pode ser efetivo com preparo conservacionista de solo. Existem diversos sistemas de preparo para plantio que possuem caráter conservacionista. Todos mantêm alguns pilares em comum, como preservação de resíduos orgânicos na superfície e redução do revolvimento do solo. Para substituir o preparo convencional, os sistemas contam com ferramentas, como a escarificação para descompactação, ao invés do arado de aiveca, utilizado no sistema convencional. Os sistemas variam desde a redução até a eliminação da movimentação do solo, sendo esse o sistema de plantio direto, no qual é preciso também haver manutenção de matéria orgânica e rotação de cultura.

Os sistemas conservacionistas são eficientes, pois a cobertura vegetal é capaz de reduzir o impacto das gotas de chuva e o escoamento superficial. Além disso, há preservação da estrutura física do solo, como sua porosidade e agregação, e a cobertura diminui a amplitude térmica da superfície do solo, melhorando a qualidade e a variedade da biologia do solo. Atualmente, existem diversas técnicas de plantio, tecnologia de adubação, correção e preparo de solo, irrigação e manejo fitossanitário para doenças, pragas e plantas daninhas, que permitem a implantação de sistemas conservacionistas sem a diminuição das produtividades. Pelo contrário, depois de estabelecidos, tais sistemas, além de aumentar a qualidade do solo, podem proporcionar produções até maiores, pois são solos menos suscetíveis às perdas por erosão, diminuição da matéria orgânica e atividade biológica.

Cobertura — A manutenção da cobertura do solo é uma prática básica para a sua conservação, que representa o conjunto de práticas agrícolas destinadas a preservar a fertilidade química e as condições físicas e microbiológicas do solo. A cobertura do solo tem, na matéria orgânica, sua principal aliada, funcionando como um componente que equilibra o sistema de produção. Com a conservação, preservam-se as camadas mais férteis do solo, nas quais ocorrem os principais fatores químicos que influenciam a dinâmica de nutrientes. O manejo químico do solo permitirá conservar a sua fertilidade, que é uma ferramenta fundamental para a obtenção de boa produtividade. A fertilidade do solo e a eficiência de adubos minerais e orgânicos são influenciadas por reações e equilíbrios inorgânicos, e por processos metabólicos de micro- -organismos no solo.

Com o objetivo de otimizar a conservação do solo, a SolloAgro (Educação Continuada em Agricultura Sustentável Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, da Universidade de São Paulo (Esalq/USP), Departamento de Ciência do Solo, oferece a compreensão aprofundada do funcionamento do solo e de suas reações sob diferentes condições. Dentro desse contexto, o curso aborda diversos temas que irão proporcionar o conhecimento para atingir ganhos de produtividade, mas sem esquecer de manter a qualidade do sistema e da preservação do solo.