Na Hora H

INÍCIO DE GOVERNO É ASSIM MESMO: MUITA CABEÇADA PARA PÔR A MÁQUINA A ANDAR

Na

Estou vendo os nossos companheiros produtores muito apreensivos com as constantes e controversas declarações de autoridades do Governo recém- -instalado. E não são somente os produtores rurais, mas toda a classe produtiva deste País, muitas vezes, se perturba com declarações desencontradas ou afirmações pouco confiáveis. Digo que, felizmente, no setor rural, a nossa ministra da Agricultura, Tereza Cristina, além de falar pouco, tem agido muito e “mineiramente”, antecipando soluções que tranquilizam os produtores. Que ela continue sempre assim. É por isso que nós confiamos muito nela e no Governo.

O nosso ministro da Economia, Paulo Guedes, nos parece de ideias altamente desejadas. O objetivo de seus pronunciamentos nos deixa muito eufóricos. Suas intenções são muito desejáveis no objetivo final, mas suas análises, muitas vezes, nos assustam e nos deixam intranquilos. Por várias vezes, ele tem se pronunciado dizendo que o desequilíbrio econômico em que vive o País tem como culpado o crédito rural. Já o ouvi falar por mais de três vezes que foi a conta aberta do crédito rural no final do governo militar um dos provocadores dos desequilíbrios monetários existentes hoje. Será, ministro? Foi o desequilíbrio das contas públicas provocadas por maus gestores que arrombaram o nosso sistema financeiro. Esse sistema financeiro foi criado por um amigo comum nosso, o inesquecível economista Roberto Campos.

Eu, que fui um dos que mais aproveitou o brilhante trabalho do nosso mestre, vou tentar esclarecer o que realmente houve nesse episódio do crédito rural no País. Preocupado com a necessidade de dar condições compatíveis aos nossos produtores agrícolas em relação aos nossos competidores, que tinham créditos subsidiados em seus países, e não querendo repetir o mesmo aqui, ele passou a estudar o nosso orçamento e verificou que a conta movimento ficava esterilizada no Banco do Brasil por cerca de oito meses e 17 dias. A conta movimento era formada pelo recolhimento dos impostos do Governo. Imaginou o nosso Roberto Campos que aí estava uma ótima oportunidade, sem nenhum risco: transferir esses recursos para financiar a nossa safra, que, na realidade, não gasta mais de seis meses para ser concluída. Isso não é subsídio, e sim uma transferência de recurso de uma conta para a outra, sem nenhum prejuízo, desde que bem administrada. E o Banco do Brasil cumpriu com absoluta fidelidade a sua missão do sistema de crédito rural enquanto existiu a conta movimento sob seu controle (até 1983).

Como o crédito rural funcionou muito bem, o agricultor teve chance de, através dele, ser capaz de evoluir o necessário na adoção de inovações para mudar o quadro produtivo brasileiro. E mudou tanto que os recursos começaram a ficar escassos. Como, em seu tempo, a economia estava bem e sob controle, usou um outro artifício não muito diferente dos nossos competidores. Pegou os depósitos à vista, que, àquela época, eram fartos, e transferiu parte deles para ampliar o volume do crédito rural, sem nenhum subsídio. Os depósitos à vista naquela época não eram iguais aos de hoje, que nem mais existem. Eles eram transferidos para o crédito rural com uma pequena taxa que possibilitava um credito para os próprios bancos aplicarem em níveis compatíveis com as taxas correntes da época.

Tudo isso funcionou muito bem, pois, para os investimentos, o Governo buscou outras fontes que pudessem serem aplicadas em tempos suficientes às necessidades do completo crédito rural. Isso funcionou tão bem – lembro-me muito bem disso – que várias instituições e países em desenvolvimento aqui estiveram para avaliar e aprender o que estávamos fazendo. Tudo isso funcionou muito bem até que os maus administradores das finanças públicas entornaram o caldo, desequilibrando toda a nossa economia. Só foi na segunda metade da década 1980 que o caldo entornou. A conta movimento já tinha sido transferida para o Tesouro Nacional, que, pelo que nos parece, não soube dar a ela a finalidade devida. Passou a pagar desequilíbrio de outras contas, juros de dívida pública e até pedaladas que chegou a derrubar um Governo. Não vejo, nesse episódio, nenhuma culpa do crédito rural, pois quem o deturpou foram os maus economistas, que não souberam administrar corretamente os recursos nacionais.

Creio que o nosso amigo Roberto Campos deve estar se revirando de raiva em seu túmulo quando vê a sua inteligente proposta sendo deturpada por aqueles que não o seguiram. Deve se preocupar, também, com as declarações dos governantes que entram sem ter conhecimento do que realmente aconteceu. Após meados da década de 1980, os famosos economistas da época inventaram algumas medidas estapafúrdias de tabelar preços ou, pior ainda, aumentar escandalosamente as taxas de juros para conter a inflação. Foram esses mesmos economistas que, reconhecendo os erros que cometeram, inventaram a chamada equalização de taxas de juros nos créditos aos produtores rurais. Distorceram, assim, todo um princípio sadio criado por Roberto Campos, que, em momento algum, pensou em equalizar – ou qualquer outra trapaça – os juros do crédito rural. Quero, no entanto, parabenizar o ministro da Economia, que traz, para o Banco Central, um neto de Roberto Campos, Roberto Campos Neto, que, com calma, irá estudar com clareza onde está o erro e redimir o seu avô.

Afinal, quem desequilibra a economia é o crédito rural ou as medidas torpes que os insanos administradores adotaram para destruí- lo? Espero que esse ministro analise ou tenha alguém para orientá-lo. Senão quem vai pagar caro pela visão errada é o produtor rural, o próprio País e o mundo, pois mais de 166 países, hoje, dependem do que aqui fazemos.

Engenheiro-agrônomo, produtor, presidente-executivo da Abramilho e ex-ministro da Agricultura