Herbert & Marie Bartz

MUDANÇA DO CLIMA É AMEAÇA?

Herbert

Herbert & Marie Bartz

Herbert Bartz escreve: “Mudança do clima, climate change, Klimawandel, changement climatique, cambio climático... Em todas as línguas e em todos os continentes, quando essa informação aparece na mídia, o cidadão comum, no seu dia a dia nas cidades, não se preocupa muito com o que isso significa. Mas o agricultor experiente sabe que vai ter problemas. Ao longo de nossa última safra de verão, pudemos ver um exemplo clássico dessa situação. Bastaram alguns períodos de estiagem, de duas a três semanas, nas fases críticas (em geral, perto da fase de florescimento) das principais culturas – a soja e o milho –, e, quando acompanhadas de incomuns altas temperaturas, fizeram com que as culturas acabassem sofrendo severos estresses, consequentemente recaindo diretamente sobre a produtividade.

Principalmente na soja, foram observadas grandes manchas de plantas que escureceram, abortando a maior parte das flores e das vagens. As temperaturas medidas, perto do solo, acusaram números de 40°C a 46°C. Os rendimentos dos primeiros lotes colhidos apresentaram perdas de 20% a 50%, sendo que houve áreas que nem foram colhidas. Desnecessário falar da preocupação dos agricultores, porque uma queda de 30% do rendimento representa, para o agricultor, um ano todo perdido, tendo em vista o alto custo dos insumos. O problema se agrava porque o seguro dificilmente cobre esse tipo de prejuízo. De que forma a agricultura consegue se defender contra as consequências das ‘mudanças climáticas’? O atento observador percebe que existe uma grande diversificação entre as diferentes variedades de soja. Em termos gerais, as variedades de ciclo curto sofrem mais estresse hídrico e com o calor do que as variedades de ciclos médio e tardio. No entanto, a maior influência no estresse na soja são as deficiências detectadas pelo agricultor atento.

A minha experiência, já nos anos 1980, ensinou-se que, com o aumento do perfil fértil do solo através das calagens – cinza de cal, cal virgem termo fosfatado, gesso e farinha de osso como fontes solúveis desse mineral tão importante –, eu consegui aumentar esse perfil fértil do solo de iniciais zero a 15 centímetros para até 90 centímetros de profundidade. O que significava, na prática, em um processo de mais de dez anos, uma elevação do pH de 4,2/4,7 para 5,9 a 90 centímetros de profundidade, sem incorporação mecânica. As possibilidades de corretivos citados têm como propriedade comum a solubilidade em água, o que explica sua translocação em profundidades maiores.

No entanto, podem ocorrer perdas de minerais por lixiviação, quando ocorrem precipitações muito intensas que fazem com que a água percole em profundidades maiores, tirando esses minerais do alcance das raízes. Mas, são óbvias as enormes vantagens de ‘empurrar’ o alumínio tóxico para fora do alcance das raízes, aumentando o perfil fértil do solo com o passar dos anos, permitindo que as raízes possam crescer mais. Ao fazer o uso periodicamente de cal solúvel, plantas/culturas como o milho podem ter o sistema radicular chegando até a três metros de profundidade. Eu não tenho dados de trabalhos baseados em pesquisa científica que constatem isso, mas, com a minha experiência, observando e analisando com paciência todo o processo ao longo dos anos, posso afirmar que tive safras de milho safrinha em fase de enchimento de grão que passaram por até quatro semanas sem chuva, mas que mantiveram suas primeiras folhas verdes e sem sinal de queima, não havendo sequer quebra de produtividade. Posso constatar, como resumo, que: tanto na cultura de soja quanto na de milho, o uso de variedades de elevada tolerância à falta de chuva aliado ao trabalho paciente e sistemático de aumentar/construir o perfil fértil do solo dá ao agricultor os subsídios para enfrentar veranicos e falta de chuva, levando a concluir que, considerando o tema inicial dessa conversa, ‘mudanças do clima’ e suas consequências, o agricultor pode viver sem medo do futuro”.

Herbert Bartz é produtor rural e precursor do plantio direto no Brasil, e pai de Marie Bartz, bióloga, pesquisadora e professora da Universidade Positivo