Glauber em Campo

POTENCIALIZAR O AGRO: DA INFRAESTRUTURA À AGREGAÇÃO DE VALOR

Glauber

GLAUBER SILVEIRA

A questão, neste início de 2019, é a seguinte: qual a importância de discutir um assunto assim neste momento, no qual novos governos – estaduais e federal – estão chegando? A logística é e será sempre um grande desafio para qualquer país exportador. Mesmo os EUA, que têm uma logística excelente, a todo momento, falam na necessidade de se investir mais. Aqui, no Brasil, entra e sai Governo, e a pauta tem sido a mesma, a logística, que, infelizmente, pouco avança. Sempre que muda o Governo, as expectativas são renovadas. Com o atual não é diferente. Estamos buscando avançar neste sentido, e o Governo dá sinais de boa vontade, mas, infelizmente, o Brasil esbarra nos recursos, pois, quando se quer fazer, falta dinheiro.

O Brasil é um país que tem crescido baseado nas exportações. Mas, segundo dados do Ministério do Transporte, ao contrário de outros países exportadores que fazem parte do Brics (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), o País é o que menos investe em transportes: apenas 0,42% do seu PIB, enquanto a China investe 10,6%; a Índia, 8%; e a Rússia, 7%. O Departamento de Competitividade e Tecnologia da Federação da Indústria do Estado de São Paulo (Fiesp) apontou que a situação caótica de portos e estradas impõe perdas anuais de US$ 4 bilhões à agricultura e de US$ 17 bilhões à indústria. No total, o Brasil tem um prejuízo de US$ 23 bilhões!

O problema é agravado pela nossa matriz de transporte, composta por 61% de rodovias, 21% de ferrovias e 14% de hidrovias. Temos que mudar esta matriz. Ao menos 60% dela tem que ser ancorada em ferrovias e hidrovias. Essa mudança ajudaria a cortar em 41% o consumo de combustíveis fósseis. Para transportar uma tonelada de alimento em um trecho de mil quilômetros, gasta-se 56 litros de combustível em rodovias, dez litros por ferrovia e apenas cinco litros em hidrovias. Para um país exportador como o Brasil, a logística é o ponto-chave para a competitividade. O atual Governo fala em abrir para os mercados externos, se mostra um Governo mais liberal, porém como garantir que o nosso alho possa competir com o da China, onde o transporte custa 20% do nosso? Como garantir a competitividade dos nossos café, feijão, trigo etc. quando temos um custo altíssimo de impostos, energia, combustíveis e um transporte precário baseado nas rodovias, e onde ficamos à mercê de um tabelamento de frete.

No Paraná há porto e estradas relativamente bem conservadas, mas a situação de outros estados não é tão confortável. Como cobrar melhorias dos governos? O Paraná teve uma grande evolução, principalmente relacionada ao Porto de Paranaguá nos últimos anos, atualmente, o mais eficiente, apesar de, em níveis internacionais, ainda perdermos, mas evoluiu. Porém, mesmo no Paraná, temos um alto valor de frete. Qualquer percurso maior do que 300 quilômetros de caminhão reduz em muito a competitividade. Em outros estados, a situação é caótica. Veja o exemplo de Santa Catarina, um estado exportador cuja a única BR duplicada é a que margeia as praias, um verdadeiro absurdo. Nem se fala da precariedade das BRs do Mato Grosso que dão acesso aos portos, cuja BR-163 ainda não se encontra totalmente asfaltada.

A pergunta é: o que fazer? É preciso buscar priorizar os recursos. Com um déficit de investimentos logísticos de R$ 400 bilhões, tudo é prioritário. Quando o Governo investir este recurso, já serão necessários outros R$ 400 bilhões. Por isso, o incentivo ao investimento privado é fundamental. Mas, para que esse investimento venha, são necessárias a desburocratização e a priorização de licenças ambientais, afinal, o que é prioritário para o Brasil não é para as ONGs, e me parece que elas mandam no desenvolvimento do País.

Estradas rurais são as principais dificuldades dos produtores para escoar a produção. Hoje, dependem das prefeituras, que nunca têm dinheiro para resolver. Há vislumbre de solução? Quais seriam as outras grandes dificuldades? O que fazer? Essas perguntas estão, a todo momento, nos fóruns de discussão estaduais. O MT é um exemplo onde tem um fundo que é cobrado sobre a produção, o Fundo Estadual de Transporte e Habitação (Fethab), cujo recurso, em sua maioria, seria para asfaltar as estradas estaduais que ligam os municípios. Porém tem sido uma grande discussão, pois os produtores pagam, e o recurso não é aplicado em estradas, e sim para outras finalidades. O Fethab do MT cobrado sobre o diesel vai em parte para as prefeituras para conservar as estradas municipais, mas nem sempre é empregado. O modelo de MT, se fosse realmente empregado nas estradas, seria uma solução ao menos temporária, onde se necessita tanto de recursos para as estradas. No entanto, não tem funcionado adequadamente. Vou ser franco: em um país que não tem BRs adequadas, a solução para as estradas municipais está longe de ter solução.

Como podemos ver, o desafio logístico é enorme. Uma alternativa para amenizar o efeito precário da nossa falta de infraestrutura é a agregação de valor, pois assim geramos economia, diminuímos o transporte. Um exemplo é o etanol de milho, que vem ocupando um espaço enorme. Mas essa é uma parte da solução. E o resto?

Presidente do Sindicato Rural de Campos de Júlio/MT, presidente da Câmara Setorial da Soja, presidente da Associação de Reflorestadores do MT, vice-presidente da Abramilho e Diretor Conselheiro da Aprosoja