Digital

Por um campo mais CONECTADO: missão de todos

Digital

O evento Farm & Food, em Berlim, deixou claro que decisões devem ser tomadas imediatamente para que o campo seja mais “digitalizado”

Bernhard Kiep, Fazenda Cachoeira Itaberá/SP, conselheiro na Pessl/Metos Austria, Terra Viva Agrícola, Harvard Angels do Brasil e diretor-geral da Bermad Válvulas do Brasil

Após acompanhar, novamente, a Farm & Food 4.0, em Berlim, em janeiro, notei que algumas coisas mudaram bastante nos discursos dos representantes de países focados no mundo agrícola. A mudança está em como as autoridades veem o tema “conectividade” e como os governos, juntamente com iniciativas privadas, terão que agir mais coesamente. Isso mesmo. Após mais de 20 anos de desenvolvimento “digital” no mundo agro, foi uma surpresa positiva para mim ver a “alta política” tomando nota das mudanças fundamentais na agricultura. Reunidos em Berlim, a cúpula de ministros da Agricultura de vários países, além de ministros das áreas de economia, pesquisa e desenvolvimento, e formuladores de políticas de todo o mundo agro discutiram as seguintes questões: A agricultura é digital? Quais soluções inteligentes para a agricultura futura temos que tomar já?

Bilhões foram despejados em startups na última década com o objetivo de “mudar os produtores analógicos e tornar o segmento agro digital”. Grande parte desse dinheiro de investidores será perdido, já que inúmeras startups e investidores não entendem a complexidade da indústria agrícola. Muitos deles percebem os agricultores como atrasados e lentos na adoção de novas tecnologias. Isso é apenas parcialmente verdade, porque muitas startups e investidores não fizeram o dever de casa para entender as reais necessidades do agricultor. A complexidade da agricultura e o ecossistema precisavam ser adotados para mudar o comportamento dos agricultores e ver real benefícios no mundo digital. Uma geração inteira de agricultores e de políticos foi necessária para que passassem a entender coisas que talvez agora, para alguns, já seja óbvio, mas para muitos ainda não é: o mundo digital está influenciando o agro!

Jovens australianos de volta ao campo — O ministro da Agricultura da Austrália, David Littleproud, disse claramente: “A tecnologia agrodigital tornou a agricultura novamente um terreno interessante para os jovens australianos. Eles estão voltando de Sydney, Melbourne, Brisbane e estão iniciando operações agrícolas. O negócio da agrodigital está se tornando sexy e lucrativo com as ferramentas modernas que estão disponíveis agora. Os agricultores têm que aprender como usar tratores e implementos guiados por GPS, usar drones, usar dados de umidade do solo e clima para melhor uso da água, e pulverizar somente quando o DSS local (sistema de apoio à decisão) os aconselhar a fazê-lo. Todas essas ferramentas juntas estão trazendo lucratividade em esferas completamente novas. Temos trabalhado com nossas empresas de telecomunicações para construir milhares de novas torres de comunicação em áreas rurais para garantir a conectividade com a internet”.

Os agricultores australianos sempre foram líderes na aplicação de ferramentas agrícolas inteligentes, mas foram limitados por problemas de comunicação no interior do país, devido ao tamanho do país e à população dispersa. A política em todo o mundo precisa tornar a conectividade de internet rural uma obrigação! Na Austrália, o êxodo rural é um problema muito sério. Vi fazendas abandonadas. Dizia-se que por falta de água e chuva, mas o outro fator determinante era o isolamento do agricultor pela falta de conectividade. Para nós, brasileiros, esse tema é bastante familiar!

Digital

Na Farm & Food 4.0, observou-se que os governantes estão cientes que precisam fazer algo a mais, e estão viabilizando políticas para que a iniciativa privada possa fazer investimentos

A conectividade no campo pode, rapidamente, viabilizar o desenvolvimento tecnológico e humano, e garantir um crescimento produtivo que seja sustentável no longo prazo. O primeiro passo para o Brasil é aceitar que isso é vital e primordial. Como se viu na Farm & Food 4.0, os governantes estão cientes que precisam fazer algo a mais, e já estão ativamente atuando e viabilizando políticas para que a iniciativa privada possa fazer investimentos focados no tema. Não precisamos inventar a roda. A tecnologia de conectividade para o campo está disponível! NB-IoT e LoRa, por exemplo, estão sendo usados na Europa e na Ásia com custos muito inferiores comparados com as tecnologias já tradicionalmente usadas.

Quais são os entraves, então: conhecimento público dos problemas? Desmistificar e simplificar as normas e regras que regem as empresas telecom? Saímos de um monopólio para um oligopólio com interesses alinhados com a necessidade rural? Sabemos que é normal uma operadora falar o seguinte: “Não se justifica instalar uma torre nesse local, têm poucos usuários/poucos pontos de acesso...”. Bom, aí está o problema. É importante simplificar as normas, criar políticas públicas de incentivo à conectividade e permitir que a iniciativa privada e os agricultores usem frequências para uma conectividade barata! Ao invés de obrigar as telecom a manter orelhões em cidades, que tal simplificar os protocolos e trazer o agrodigital para o interior brasileiro rapidamente? Vai custar muito menos do que imaginam! É só abraçar a causa!