Agricultura 4.0

CIÊNCIA, TECNOLOGIA E INOVAÇÃO NA ERA DO CONHECIMENTO

Agricultura

Carlos Otoboni

Tomo a liberdade, nesta edição, para discorrer sobre um tema mais filosófico sobre ciência, tecnologia e inovação, que temos discutido com certa frequência na Fatec Shunji Nishimura, bem como em eventos científicos. Muitos cientistas e pensadores acreditam que já estamos vivendo uma nova era na humanidade, baseada no conhecimento. O principal fato que leva a essa crença é que, a partir do início do século XX, houve um aumento significativo do conhecimento total da humanidade, chegando aos dias atuais a uma taxa de crescimento bastante grande, uma vez que há a estimativa de que o conhecimento global dobra a cada 18 meses. Fazendo uma analogia simples, é o mesmo que dizer que, se você publicar um livro, hoje, sobre um determinado assunto, em 18 meses, ele estará desatualizado. Dessa forma, houve, nos últimos 50 anos, um grande acúmulo de conhecimento pela humanidade que se materializou em teses e dissertações nas bibliotecas de universidades e institutos de pesquisa, e também em artigos científicos publicados em diversos periódicos nacionais e internacionais.

Então a Era do Conhecimento nos leva ao questionamento sobre a aplicação dessa ciência acumulada em tecnologias e inovações para a sociedade. O fato é que, nesse foco, poderemos levar o Brasil a patamares significativos do desenvolvimento tecnológico e, consequentemente, de inovações nos diferentes setores da economia, com destaque para o agronegócio. Em 2018, o Brasil subiu cinco posições no Índice Global de Inovação, porém ainda estamos bem atrás no ranking, visto que ocupamos a posição 64 entre 126 economias estudadas. Ainda, se restringirmos a análise para a América Latina, ficamos atrás de Chile, Costa Rica, México, Uruguai e Colômbia, ou seja, não é uma posição que podemos nos orgulhar em termos tecnológicos e de inovação.

Em resumo, o grande valor econômico de novas tecnologias vai para os países desenvolvedores, que podem investir cada vez mais em inovação de novas tecnologias para países consumidores como o Brasil. Resta-nos desenvolver, aqui, algumas aplicações das tecnologias para questões ou ambientes próprios e tirar algum benefício delas em serviços, ganhos de produtividade ou de gestão da nossa produção, inclusive a agrícola.

O grande dilema que vivemos atualmente é o da mudança de pensamento entre utilizar os recursos da ciência em capacitação e publicações ou ampliar os investimentos para o desenvolvimento tecnológico e a inovação, daquele conhecimento que está acumulado nas universidades e nos institutos. Ou seja, precisamos de mais “D” em P&D (Pesquisa e Desenvolvimento). De fato, é um paradigma que se apresenta, uma mudança estratégica de direcionamento dos recursos de P&D para mais tecnologia e inovação, havendo uma grande diferença nesse foco.

O apresentado anteriormente tem tudo a ver com a agricultura, pois, se olharmos as novas tecnologias que utilizamos no campo atualmente – piloto automático, GPS (GNSS), computadores de bordo, drones, imagens de satélite, softwares para a agricultura de precisão e, mais recente, soluções de conectividade –, quase tudo vem de fora. Assim, o grande beneficiado dessas tecnologias é quem as desenvolve e inova, enquanto nós nos beneficiamos apenas de suas aplicações. Na Era do Conhecimento, precisamos ir além das publicações científicas e transformar o conhecimento gerado pela ciência em inovações tecnológicas.

Engenheiro-agrônomo, mestre e doutor em Produção Vegetal, pesquisador em Nematologia Agrícola e de Precisão em Proteção de Plantas, professor e diretor da Fatec Shunji Nishimura