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O MILHO PROMETE

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O tempo ruim para o milho em 2018 é uma das explicações para os bons ventos que vêm aí para o cereal neste ano. É que a quebra daquela safra abriu bons espaços para a atual, inclusive com melhores preços. As projeções são de mais área (de segunda safra), produtividade maior em 12,79% e uma produção superior em quase 17%. Outras das justificativas são o clima, que promete não atrapalhar, e o consumo interno, com expectativa de aquecimento. E o País começa a transformar o seu milho em etanol. Sobretudo o Mato Grosso, cada vez sediando mais usinas e com projeção de, em menos de dez anos, destinar 10 milhões de toneladas por ano para gerar o biocombustível

Leonardo Gottems

As perspectivas são as melhores para o milho brasileiro em 2019. Uma conjunção de fatores positivos parece se alinhar e estimula o produtor a voltar a apostar neste velho conhecido. Após um 2018 cheio de perdas pelo clima e com preços baixos ao produtor, foram justamente as quebras ocorridas nesta primeira safra de verão que levaram o preço do cereal mais importante do mundo a disparar no mercado interno. A valorização acendeu o sinal de alerta e estimulou os agricultores, que já projetam aumentar consideravelmente sua área plantada na segunda safra. Aliás, a safra de verão de 2018/19 já havia registrado um aumento de 2,7% na área, mas sofreu com intempéries climáticas – principalmente a falta de chuvas –, o que reduziu a produção ao redor de 1 milhão de toneladas. De acordo com levantamento divulgado pela Safras & Mercado, a produção brasileira de milho deverá totalizar 93,366 milhões de toneladas na temporada 2018/19, o que representaria uma elevação de 16,61% sobre a safra anterior, de 80,065 milhões. Os analistas apontam uma redução de 1,61% frente aos 94,897 milhões de toneladas projetadas na estimativa anterior, de novembro. O levantamento projeta, ainda, rendimento médio de 5.562 quilos por hectare, acima da temporada anterior, de 4.931 quilos. A projeção de plantio é de 11,187 milhões de hectares na segunda safra 2019, ante 10,457 milhões do ano anterior.

A quebra nos números projetados inicialmente para a safra de verão está fazendo os preços voltarem a subir para a faixa entre R$ 37,50 e R$ 39,50 a saca. Embora não recuperando os mesmos níveis em que estiveram em maio do ano passado (entre R$ 40 e R$ 41), os valores fizeram brilhar os olhos dos produtores. No Paraná, essa ampliação da área deverá ficar em 20%, e em uma comparação sobre um patamar já muito elevado – o estado já planta muito milho e ainda é o maior produtor de trigo no inverno. Na Região Centro-Oeste também haverá expansão de área, o que leva a Conab a estimar um aumento geral de 10 milhões de toneladas, ou nada menos que 18,1% na safrinha.

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A quebra nos números projetados inicialmente para a recente safra de verão está fazendo os preços atuais voltarem a subir para a faixa entre R$ 37,50 e R$ 39,50 a saca

Na visão de diretor do Departamento de Comercialização e Abastecimento do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), Sílvio Farnese, as perspectivas são de segunda safra cheia, mas com destino certo: a Conab estima um consumo de 62,500 milhões de toneladas e uma exportação de 31 milhões de toneladas, restando um estoque final de 13,578 milhões de toneladas em 31 de janeiro de 2020. Se confirmada, a safra 2018/19 será 12,9% maior que a safra 2017/18 e a segunda maior da história. Apenas no Mato Grosso, maior produtor, a estimativa é de 27,500 milhões de toneladas na segunda safra, das quais 36% já foi comercializado antecipadamente, para entrega a partir de julho de 2019.

E onde tudo isso poderá levar os preços? De acordo com o analista de mercado Luiz Carlos Pacheco, da T&F Consultoria Agroeconômica, essa expansão de área deve se refletir em uma maior oferta prevista para o segundo semestre, resultando em preços menores do que neste primeiro e, no mercado físico, abaixo de R$ 30 nas cidades do interior dos estados da Região Sul e abaixo dos R$ 20 no Centro-Oeste. “Portanto, a nossa recomendação é de que se venda todo o milho disponível e também o máximo que se conseguir do milho safrinha no primeiro semestre”, alerta o especialista.

No cenário internacional, os preços seguem estáveis, com um dólar em trajetória de baixa em relação ao real. O grande fator que pode alterar essa calmaria é o desfecho da guerra comercial travada por China e Estados Unidos no campo das taxações impostas mutuamente pelos dois países às importações bilaterais. Pacheco ressalta, porém, que o mercado internacional de milho não depende tanto da demanda da China como a soja, e uma maior oferta sempre joga os preços para baixo: “Se eles se entenderem, é possível que a China compre mais milho que soja. A esperança dos americanos é de algo ao redor de 10 milhões de toneladas. Se isso ocorrer, os preços subirão para todos. Caso contrário, os preços cairão para todos. É preciso esperar para ver”.

Farnese pontua que informações mais claras sobre esse movimento somente ficarão mais claras após a divulgação do primeiro levantamento de intenção de plantio nos Estados Unidos, que só ocorrerá em março, pelo Departamento de Agricultura dos EUA (USDA). “No entanto, se ocorrer um aumento na área de milho, ocorrerá uma redução na área de soja, favorecendo o produtor brasileiro no próximo ciclo”, explica. É bem verdade que o comportamento do dólar nunca pode ser dado como certo e tranquilo, e, apenas em relação ao real, a moeda norte- americana oscilou nada menos que R$ 0,60 nos últimos seis meses. Entra nessa equação ainda o primeiro ano do governo Bolsonaro, que anunciou uma série de medidas que tendem a ser vistas com simpatia pelo mercado internacional. Por outro lado, mexe com áreas de conforto de grandes corporações sindicalistas, que já começaram a protestar.

Na visão do analista Luiz Carlos Pacheco, se a oposição conseguir se articular e incendiar o País em termos de protestos, paralisações, desordem e greve, bem como trancar as reformas propostas no Congresso Nacional, então o dólar vai subir para acima de R$ 4. “Com o dólar subindo, as exportações tendem a crescer de volume. Com o dólar em queda e preços em queda (como prevemos para o segundo semestre), é possível que também os preços de exportação sejam atraentes, se Chicago ou os prêmios nos portos brasileiros subirem um pouco. Se os EUA e a China não se entenderem, é muito provável que a China aumente sua demanda por milho brasileiro, fazendo os nossos prêmios subirem e os preços em real também, independentemente do dólar e de Chicago.”

Clima vai ajudar — De acordo com a meteorologista Graziella Gonçalves, da ClimaTempo, o verão brasileiro vem sendo impactado pelo aquecimento do Oceano Pacífico na porção mais próxima à linha do Equador. Essa área é importante, pois resumidamente é ali que se define a existência do fenômeno climático El Niño. O mês de dezembro, apesar de quente e com menos chuva que a média no Paraná, não foi atingido diretamente pela formação do fenômeno. Foi ao longo de janeiro que o El Niño já se configurou e impactou no regime de chuvas por algumas semanas. O fenômeno, porém, tende a ser fraco e ter curta duração. Já o mês de fevereiro – ainda na colheita da safra de verão do milho em muitos lugares – deveria começar com pancadas de chuva mais frequentes, principalmente até o final da primeira quinzena. Segundo Graziella, de uma maneira geral, o El Niño ajuda as temperaturas a seguirem altas. Na segunda quinzena do mês, será possível presenciar alguns curtos períodos de tempo seco, acompanhados ainda de altas temperaturas.

Em março, a expectativa é que as chuvas sigam como é esperado para o mês e que fiquem de dentro a ligeiramente acima da média. O calor deve continuar, porém já não tão intenso quanto no mês anterior. Com o fenômeno El Niño ainda atuando, mesmo que de maneira fraca, fica mais difícil para que as ondas de frio sejam antecipadas, diminuindo o risco para geadas, e a temperatura segue acima da média para o mês. As chuvas também podem ficar acima da média, pois as frentes frias tendem a se manter mais tempo ao Sul do País.

Previsão semelhante tem o Instituto de Climatologia da Universidade de Colúmbia, nos EUA. De acordo com os mapas climáticos dessa instituição, a previsão é de boas chuvas para Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná, avançando pelo meio do Centro-Oeste, embora a maior parte desta região fique sem chuvas, como é o normal nesta época do ano. Segundo as previsões dos norte-americanos, feitas com base na SST (Sea Surface Temperature, Temperatura da Superfície do Oceano), o primeiro semestre de 2019 revela que o fenômeno El Niño terá condições moderadas durante o período de janeiro a março e de fevereiro a abril, tornando-se fracas para março a maio e abril a junho. “Chances aumentadas de precipitação acima do normal estão previstas para parte do Sudeste da América do Sul. A probabilidade alta de temperatura quase normal é prevista para várias partes do Norte da América do Sul na maioria ou em todas as quatro estações da previsão”, aponta o Departamento de Climatologia da Universidade de Colúmbia.

Atenção às ameaças — Com muitas áreas do Brasil já projetando o plantio do milho safrinha, o pesquisador da Embrapa Milho e Sorgo Ivênio Rubens de Oliveira destaca a questão do controle de insetos-praga como um fator relevante e impactante no custo de produção das lavouras. Segundo ele, a atenção maior tem sido destinada ao controle da lagarta-do-cartucho, a Spodoptera frugiperda (Lepidoptera: Noctuidae). Essa praga pode provocar perdas na produção superiores a 40%. Por isso, muitos produtores já procuram comprar sementes de milho com tecnologia Bt, pensando que estarão protegidos contra a lagarta. “No entanto, nas últimas safras, outro fato chama a atenção: o aumento de pulverizações com inseticidas químicos para reforçar o controle da lagarta mesmo em plantios com milho Bt. O produtor se vê em uma situação difícil. Se ele comprou o milho com uma tecnologia que teoricamente previne o ataque e prejuízo causado pelas lagartas, seria de se esperar que não precisasse gastar mais com seu controle”, argumenta Oliveira.

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Oliveira, da Embrapa: a atenção maior tem sido destinada ao controle da lagarta-do-cartucho, praga que pode provocar perdas na produção superiores a 40%

Na prática, diz o especialista, muitas das tecnologias Bt já não surtem mais o efeito esperado em razão da resistência. Se o preço do milho para venda estiver em bom patamar, o produtor se vê motivado a gastar mais para o controle, vislumbrando uma compensação na manutenção e/ou um aumento da produtividade. O pesquisador, porém, ressalta que o produtor deve fazer uso dos inseticidas com conhecimento e responsabilidade. Existe uma tendência de calendarizar a pulverização, muitas vezes para que coincida com a aplicação de outros produtos para controle de outros problemas, por exemplo, as aplicações de herbicidas. Na maior parte das regiões produtoras, não existe mais um monitoramento para verificar a chegada da praga, mas sim para detectar o início de seu ataque, pois se parte do pressuposto que a lagarta-do-cartucho já está presente na área. A palavra-chave, reforça Oliveira, continua sendo monitoramento.

Ele orienta que o mais importante é o posicionamento dos produtos de acordo com o momento no qual as plantas e as pragas se encontram. “Estrategicamente, é mais interessante que o controle seja realizado enquanto as lagartas são ainda pequenas”, esclarece. E acrescenta: “Não é fácil o caminho da sustentabilidade. Ninguém disse que seria. Não existe ainda um mecanismo que permita automaticamente decidir pelo que é certo ou errado na questão do controle de pragas, principalmente em grandes culturas, como o milho. É necessária a aplicação dos conhecimentos adquiridos ao longo de décadas, sempre observando as questões sociais, ambientais e econômicas. Assim, as decisões tomadas serão cada vez melhores, e os resultados, cada vez mais visualizados, e o que for realmente bom ganhará lugar de destaque no cenário da agricultura brasileira”, conclui.

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João Carlos Werlang, de Brasília: “Deu para plantar a soja um pouco mais cedo, sendo que poderemos trazer o milho também mais cedo. A nossa região não era muito propícia para milho”

Novo na safrinha — Júlio César Pereira se considera um principiante no cultivo da segunda safra, apesar dos cinco anos do cultivo. Ele planta 3 mil hectares de milho em Uberlândia, no Triângulo Mineiro, tendo como meta atingir uma produtividade de cerca de 120 sacas por hectare, mas sua média é de 100 sc/ha. Pereira afirma que o clima é de expectativa e até apreensão, uma vez que está entrando em uma safra com custos mais elevados. “É um ano mais atípico, com clima muito irregular. Não têm aquelas chuvas de janeiro, como estamos acostumados. Pegamos um fim de ano muito chuvoso. Então estamos entrando em uma segunda safra com a primeira ainda sendo uma incógnita. E o que paga as nossas contas é a primeira safra. Então, quando vem a safrinha com um pouco mais de dúvida, ficamos com mais medo. Vamos plantar, sim, mas com um pouco mais de dúvida”, revela.

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Produtor Júlio César Pereira, de Uberlândia/MG: em Minas Gerais são praticados preços melhores, o que compensa o custo de produção ser maior em comparação a outros estados

O agricultor explica que a região tem algumas características que são positivas para o plantio da segunda safra, como a altitude de 800 metros, uma noite mais fria e um pouco menos de chuva do que o Mato Grosso, por exemplo. Outro fator que ele destaca é que em Minas Gerais são praticados preços melhores – o que compensa o fato de o custo ser maior em relação a outros estados. Pereira utiliza, ainda, um método diferenciado de cultivo: plantar rápido e colher rápido, utilizando bem as janelas de calendário.

O produtor se mostra otimista com o novo Governo Federal, e acredita que o dólar deva se manter em níveis aceitáveis em função de todas as reformas e cortes de gastos públicos. “Todos nós estamos otimistas. O Governo está tentando mudar essa quantidade de cargos comissionados. Uma máquina mais enxuta faz com que haja mais investimento no País e o dólar baixe, porque o custo de produção veio carregado com o dólar alto. Eu gosto que o Governo deixe o mercado mais liberal, deixe o mercado mais soberano”, afirma.

Aposta no mercado interno — João Carlos Werlang é um legítimo caso de sucesso do Programa de Assentamento Dirigido do Distrito Federal (PAD/ DF). “É um assentamento que deu certo, não é como esses do MST, não”, faz questão de dizer o agricultor que planta cerca de 500 hectares e tem colhido entre 100 e 120 sacas por hectare. Ele conta que é possível colher 150 sc/ ha, dependendo da região e do clima. Werlang se diz bastante otimista, principalmente porque as chuvas, esse ano, foram boas no Cerrado: “Deu para se plantar a soja um pouco mais cedo, sendo que poderemos trazer o milho também mais cedo. A nossa região não era muito propícia para milho, era mais para sorgo, por causa da época de plantio. Mas, neste ano, iniciou a chuva mais cedo, e nós estamos bem otimistas para milho”.

O produtor, porém, queixa-se do custo dos insumos, lembrando que as empresas justificam que mantêm os preços altos em função do dólar. Segundo ele, quem paga o custo sempre é o produtor, porque, mesmo com a queda da moeda norte-americana, as empresas não baixam os insumos. Para equilibrar as contas, ele confia em uma boa produção e na manutenção dos preços atuais no mercado interno, que é o seu alvo preferencial, vendendo para os produtores de frangos e suínos. Também otimista com o Governo Bolsonaro, Werlang acredita que uma medida importante seria a simplificação em um imposto único. Segundo ele, isso poderia baratear até mesmo o custo dos combustíveis, que se tornou um dos maiores pesos nas contas. “É imposto demais, é muita coisinha, é frete, daí chega na safra e o frete sobe. Fizeram aquele tabelamento de frete e também aquilo atrapalha muito o produtor. Tudo é custo para a nossa safra”, lamenta.


ENORMES POTENCIALIDADES PARA A GERAÇÃO DE ETANOL

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Apenas o Mato Grosso já destina 4 milhões de toneladas de milho ao ano para o biocombustível, volume que deverá passar a 10 milhões em 2028. Uma tonelada de milho gera 420 litros de etanol, além de ração e óleo

Glauber Silveira, vice-presidente da Associação Brasileira dos Produtores de Milho (Abramilho), presidente da Câmara Setorial da Soja, diretor conselheiro da Aprosoja e colunista d’A Granja

O Brasil, a cada dia, se configura como um país que realmente tem ações e atitudes sustentáveis. Ao contrário da falácia de grandes potências, aqui se preserva mais de 60% das florestas, e realmente projetos sustentáveis de baixa emissão de carbono e também a política dos biocombustíveis têm avançado. Mas o grande marco de um novo salto dos biocombustíveis brasileiros sem dúvida passa a ser a produção do etanol à base de milho. Vale lembrar que, na produção do etanol de milho, cada tonelada de milho industrializada produz, em média, 420 litros de etanol, 300 quilos de DDGs (seco com 32% de proteína) e 18 litros de óleo de milho, sem contar a cogeração de energia. É impressionante observar o desenvolvimento regional causado por uma usina de etanol de milho. Afinal, para a produção do biocombustível, necessita-se de biomassa (geralmente, eucalipto), o que tem incentivado o reflorestamento, e se produz o farelo proteico (DDGs), que incentiva a produção de carnes. Enfim, cria-se um polo de desenvolvimento regional.

É impressionante ver com que velocidade se tem implantado e expandido a produção de etanol de milho no Brasil e, em particular, no Mato Grosso. Há poucos anos, foi inaugurada a primeira usina flex, que produz etanol de cana-de-açúcar e milho, na cidade de Campos de Júlio, a Oeste de Mato Grosso, e no ano passado, já teve uma produção de 845 milhões de litros, com um consumo de 2 milhões de toneladas de milho. Atualmente, no Brasil, há oito usinas flex em funcionamento, sendo quatro no Mato Grosso, duas em Goiás, uma em São Paulo e outra no Paraná, sendo uma usina full (exclusiva de milho), em Lucas do Rio Verde/MT, a primeira usina dedicada ao milho no Brasil. Mas o impressionante é a evolução dos projetos, pois todas têm dobrado sua capacidade de produção a cada ano. A FS Bioenergia, que é a usina full, em 2018, produziu 265 milhões de litros e, em 2019, já deverá dobrar essa produção.

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A FS Bioenergia, usina exclusiva para etanol de milho sediada em Lucas do Rio Verde/MT, no ano passado, produziu 265 milhões de litros do biocombustível e, em 2019, deverá dobrar essa produção

Mais usinas — Novas usinas full já estão em fase de implantação, sendo quatro no Mato Grosso e uma em Goiás. Apenas esses novos projetos que devem entrar em operação em 2019/20 irão produzir novos 1,65 bilhão de litros de etanol, com um consumo aproximado de 4 milhões de toneladas de milho, e um incremento de florestas plantadas de 40 mil hectares de eucalipto para a produção de biomassa. É preciso mencionar os novos projetos dedicados ao milho em fase de financiamento e licenciamento, todos no Mato Grosso – cinco deles em diferentes municípios –, estimando uma produção aproximada de 1 bilhão de litros e um consumo próximo de 2,5 milhões de toneladas de milho. E há, ainda, estudos de novas usinas flex e mais uma full no Mato Grosso.

Sendo assim, o crescimento, só no MT, em 2018, foi de 630 milhões de litros de etanol, e, em 2019, de 1,16 bilhão de litros. Em 2028, ou antes, a União Nacional do Etanol de Milho estima, apenas no MT, uma produção de 4 bilhões de litros e um consumo de 10 milhões de toneladas de milho. Mas, na velocidade que esta cadeia vem se desenvolvendo, é possível que esse tempo seja reduzido. Para se ter uma ideia, ao se consumir 10 milhões de toneladas de milho, economiza-se o transporte de 200 mil bitrens de nove eixos que deixam de rodar para os portos. Também é fundamental o fator agregador de valor, tão cobrado pela sociedade brasileira do setor produtivo. Ao se industrializar cada tonelada de milho em etanol, DDGs e óleo, agrega-se 300% em receita direta gerada, sem falar no fator agregador depois, na geração de carne e distribuição do combustível. Afinal, uma tonelada de milho exportado em MT ao preço de hoje gera uma receita de R$ 366,00, e, quando esse milho é transformado na usina de etanol, proporciona R$ 1.060,95.

Claro que não é só alegria. Essa cadeia tem seus desafios, como tributação adaptada à nova cadeia produtiva e logística, já que no Mato Grosso é onde tem se dado a maior expansão, devido ao preço competitivo do milho. O fornecimento de biomassa é um fator limitante, pois as usinas precisam dela para a caldeira e para secar o DDGs. Por incrível que pareça, toda a floresta de eucalipto de MT – que é de 148 mil hectares – só consegue suprir em biomassa os projetos atuais. A regulação do Renovabio (Política Nacional de Biocombustíveis) também é um fator desafiador.

Por que importar se dá para exportar? — A produção do etanol de milho traz uma clara melhoria na matriz energética brasileira, tira uma pressão monstruosa na infraestrutura de transporte – que é o gargalo do Brasil –, agrega valor e traz a geração de uma matriz multiplicadora de empregos e receita para o interior do País. Além de tornar a pecuária mais competitiva, pois o Brasil tem um produto altamente competitivo para a ração animal – o DDGs, farelo proteico usado na ração de bovinos, suínos, frangos e peixes. Ainda desenvolve uma estrutura fantástica de plantio de florestas, indústrias de rações, pesquisa, qualificação de mão de obra, produção e industrialização de carnes, produção de energia elétrica etc.

Mas ficam claras as oportunidades, pois a demanda por etanol é crescente nos próximos anos. E, com a limitação do plantio de cana, o etanol à base de milho se apresenta como uma grande opção. Importante lembrar que o Brasil, hoje, é importador de etanol dos Estados Unidos. E, segundo dados do Ministério de Minas e Energia, em 2023, o País terá um déficit de 26 bilhões de litros de combustível para motores do ciclo Otto. E milho não é problema, pois o Brasil tem, atualmente, um superávit mínimo de 30 milhões de litros. Sendo assim, por que importar combustível se podemos produzir e até exportar?