Plantio Direto

NUTRIENTES da pastagem de braquiária para a soja em sucessão

Alvadi Antonio Balbinot Junior, Julio Cezar Franchini, Henrique Debiasi e Adilson de Oliveira Junior, pesquisadores da Embrapa Soja; Flavia Werner e Marcelo Augusto de Aguiar e Silva, da Universidade Estadual de Londrina/PR

No sistema plantio direto (SPD), a palha na superfície do solo constitui reserva de nutrientes, cuja velocidade de disponibilização depende da interação entre a espécie utilizada, da composição química da palha, do manejo da dessecação, da temperatura, da umidade e das atividades macro e microbiológica do solo. O uso de espécies do gênero Urochloa (braquiária) em sistema integração lavoura-pecuária (ILP) tem aumentado na última década, principalmente pela grande capacidade de produção de biomassa, mesmo em solos com baixa fertilidade, proporcionando boa cobertura do solo, redução da infestação de plantas daninhas, elevado crescimento de raízes e alta ciclagem de nutrientes. Além disso, gramíneas desse gênero formam biomassa com alta relação carbono/nitrogênio (C/N) e lignina/ N, o que confere maior persistência da palha, característica desejável, especialmente em ambientes tropicais, nos quais a decomposição da cobertura do solo em SPD ocorre rapidamente. No Brasil, as braquiárias brizanta e ruziziensis são amplamente utilizadas em sistemas de produção animal com base no pasto e na ILP. No SPD, o tempo de permanência da palha e a dinâmica de liberação de nutrientes são fatores que podem in-fluenciar o desempenho das culturas em sucessão. Na literatura, há carência de informações sobre a dinâmica de liberação de nutrientes pela palha de braquiária, sobretudo considerando diferentes aportes de N na pastagem. Em tese, seria interessante que o pico de liberação de nutrientes pela palha coincidisse com o pico de absorção de nutrientes pela cultura seguinte. Esse ajuste tecnológico pode contribuir para aumentar a eficiência de uso de nu-trientes pela soja. A adubação nitrogenada desempenha papel fundamental na manutenção da produtividade e qualidade das pastagens formadas por gramíneas, visto que a carência de N é fator determinante no processo de degradação. O N interfere em várias características morfológicas da planta, como a dimensão das folhas e do colmo, bem como o desenvolvimento de perfilhos. A adição de N na pastagem pode melhorar a qualidade da forragem, aumentando seu teor de proteína bruta. Nesse sentido, a adubação nitrogenada na pastagem pode alterar as características químicas da palha e, consequentemente, a dinâmica de liberação de nutrientes à soja em sucessão.

Foram desenvolvidos trabalhos de pesquisa em Londrina/PR, com o apoio financeiro da Fundação Agrisus, visando avaliar a liberação de macronutrientes da palha de pastagem de braquiária brizanta à soja cultivada na sequência, em SPD e ILP. O trabalho foi conduzido na Fazenda Experimental da Embrapa Soja, em um Latossolo Vermelho eutroférrico.

Em novembro de 2015, a Urochloa brizantha cv. BRS Piatã foi estabelecida com linhas espaçadas em 20 cm em consórcio com a cultura do milho e com densidade de 5 kg/ha de sementes puras e viáveis. Após a colheita do milho, a área experimental foi dividida em dois piquetes, com aproximadamente 1,2 hectare cada. Cada área recebeu uma dose de N em cobertura (0 ou 300 kg/ha ano), na forma de ureia (45% de N). A dose total foi fracionada em duas aplicações: uma em novembro de 2016 e outra em janeiro de 2017. No momento das aplicações havia elevada umidade no solo, reduzindo as perdas de N por volatilização. De se tembro de 2016 a julho de 2017, a braquiária foi pastejada em sistema contínuo, com lotação variável, a fim de manter a pastagem com 30 cm de altura. O pastejo foi realizado por bovinos machos, com 350 a 550 kg de peso vivo.

Plantio

Animais pastejando a braquiária brizanta, a cultivar BRS Piatã, em sistema contínuo, com lotação variável, a fim de manter a pastagem com 30 cm de altura

A dessecação da pastagem foi realizada 15 dias antes da semeadura da soja, com glifosato na dose de 1.500 gramas equivalente ácido/ha e com volume de calda de 200 L/ha. Na sequência, foi implantada a cultivar de soja BRS 1010IPRO, com densidade de semeadura de 400 mil sementes viáveis/ha e espaçamento entre fileiras de 50 cm. Nas duas áreas foram coletadas amostras de palha de um metro quadrado por parcela, em seis momentos após a dessecação (0, 21, 43, 64, 91 e 129 dias). Após a coleta, as amostras de palha foram secas e pesadas. Posteriormente, foram determinados os teores de N, P, K, Ca, Mg e S na palha. A quantidade de macronutrientes na palha foi determinada pela multiplicação da quantidade de massa seca pelos teores de nutrientes na palha. De posse desses valores, foi calculada a liberação de nutrientes para o solo, a taxa diária de liberação dos nutrientes e o tempo para ocorrer a liberação de 50% dos nutrientes presentes na palha. Na data da dessecação, a quantidade de N presente na palha por hectare foi maior na pastagem adubada com N, antea ausência da adubação nitrogenada (veja tabela). Isso ocorreu porque a adubação nitrogenada propiciou aumento no teor de N na palha. Praticamente todo o N presente na palha foi liberado gradualmente durante o ciclo da soja cultivada em sucessão. O tempo para liberação de 50% do N contido na palha variou de 60 a 70 dias após a dessecação da pastagem.

Plantio

Plantio

À esquerda, soja no estádio V5 implantada após pastagem de braquiária brizanta, cultivar BRS Piatã; à direita, soja no estádio R3 implantada após pastagem de braquiária brizanta, cultivar BRS Piatã

A quantidade de P presente na palha da pastagem da braquiária foi pequena (7 e 9 kg/ha para a pastagem não adubada e adubada com N, respectivamente), sendo que todo P foi liberado para a soja cultivada em sucessão (tabela). O tempo necessário para liberação de 50% do P da palha variou de 30 a 40 dias, ou seja, a liberação desse nutriente para a soja é mais rápida do que o N. Observou-se que a palha de pastagem de braquiária acumulou quantidades expressivas de K, sendo que a adubação nitrogenada potencializou a absorção desse nutriente pela braquiária. A quantidade de K presente na palha adubada com N foi quase o dobro da encontrada na pastagem sem adubação (tabela). Isso ocorreu em função do maior teor de K na palha da pastagem adubada, uma vez que a quantidade de palha residual nas duas condições foi similar (5 t de matéria seca/ha). Todo o K presente na palha foi liberado à soja, uma vez que esse nutriente não faz parte de estruturas vegetativas da planta, sendo rapidamente liberado ao solo. O tempo para liberação de 50% do K presente na palha variou de 15 a 20 dias. Ou seja, se a dessecação da pastagem for realizada com antecedência muito grande em relação à semeadura da soja – superior a 45 dias – é possível que parte do K se perca antes de ser aproveitado pela cultura.

A quantidade de Ca presente na palha e liberada pela pastagem sem adubação nitrogenada foi superior à palha oriunda de pastagem adubada com N (tabela).

Nesse sentido, nas condições da presente pesquisa, a adubação nitrogenada da braquiária provocou redução dos teores desse nutriente na palha deixada para a soja. Isso se refletiu em menor taxa diária de liberação de Ca pela palha de pastagem adubada com N. A quantidade de Mg na palha de pastagem com N foi ligeiramente superior à pastagem sem N, e o tempo para liberação de 50% do nutriente presente na palha foi de 50 e 60 dias para a palha de pastagem com e sem N, respectivamente. A quantidade de S presente na palha de braquiária foi relativamente pequena (5 a 6 kg/ha). O tempo necessário para liberação de 50% do S pela palha foi o maior entre os macronutrientes avaliados – de 85 a 100 dias.

A ordem da quantidade de nutrientes liberada da palha de pastagem de braquiária para a soja foi a seguinte: K>N>Ca>Mg>P>S, independentemente da adubação nitrogenada. Por sua vez, a ordem do tempo necessário para liberação de 50% dos nutrientes presentes na palha da braquiária foi S>Ca=N>Mg>P>K. Via de regra, a palha de pastagem perene de braquiária disponibiliza N e K em maiores quantidades, sobretudo quando a pastagem é adubada com N. Além disso, é importante mencionar que a quantidade de nutrientes ciclada na biomassa consumida pelos animais via pastejo não foi quantificada no presente trabalho.