Meio ambiente

A agropecuária e a CONSERVAÇÃO das bacias hidrográficas

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Trabalhos da Embrapa em bacias hidrográficas em diferentes Biomas buscam, entre muitos objetivos, estabelecer indicadores de preservação da água, estudos que poderão no futuro subsidiar ao agricultor na compensação por serviços ambientais e a adoção de políticas públicas para estes pagamentos

Ricardo de O. Figueiredo, pesquisador da Embrapa Meio Ambiente

Grupos de pesquisa da Embrapa atuando em diferentes ecorregiões nos diferentes biomas brasileiros têm estudado diversas bacias hidrográficas experimentais em ambientes rurais para fins de aumento do conhecimento científico, monitoramento quali-quantitativo e caracterização dos recursos hídricos, relacionando-as com as atividades agropecuárias realizadas nos solos dessas bacias (Rodrigues et al., 2010). Adicionalmente ao conhecimento gerado, o desenvolvimento de tais trabalhos de pesquisa fortalece a interação entre pesquisadores de diferentes unidades da Embrapa e impulsiona a consolidação de parecerias com outras instituições, como universidades, institutos de pesquisas, e demais organizações governamentais e não governamentais, cujos técnicos, professores, estudantes e cientistas atuam no âmbito desse tema de grande importância para a sociedade de maneira geral – o estado atual dos recursos hídricos, seus problemas e desafios num contexto de cenários futuros de mudanças do uso da terra e do clima.

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Os estudos são apenas alguns exemplos da grande gama de conhecimento gerada pelo esforço de pesquisa despendido pelos grupos de especialistas que têm atuado no tema

Essas parcerias promovem um grande intercâmbio de informações, e os resultados das pesquisas conduzidas pelos diferentes grupos tem um enorme potencial para apoiar tomadas de decisão no que tange ao gerenciamento dos recursos hídricos, com destaque para o setor agrícola, entendendo- se “agrícola” no sentido genérico do termo, que é referente ao conjunto das atividades agrícola, pecuária, pesca e de extração vegetal.

Para a análise dos dados de qualidade e quantidade dos recursos hídricos são fundamentais a caracterização de vários aspectos da paisagem do meio rural. Dessa maneira, as bacias hidrográficas estudadas são caracterizadas quanto ao clima, geologia, topografia, tipos de solo, rede de drenagem, vegetação original e mudanças no uso e cobertura da terra, incluindo os sistemas agropecuários presentes. Tal análise envolve a realização de levantamentos de campo e de dados georeferenciados pré-existentes, que são processados por meio de técnicas de geoprocessamento e sensoriamento remoto, visando avaliar o papel do tipo de uso e cobertura da terra e aspectos fisiográficos sobre a conservação ambiental das bacias.

Para cumprimento do referido propósito de monitoramento e caracterização dos recursos hídricos a mensuração das vazões fluviais precisa idealmente ser realizada ao lado de outras quantificações relacionadas ao ciclo hidrológico (precipitação, evapotranspiração, infiltração, recarga de estoques subterrâneos e escoamento superficial). Paralelamente para avaliar a qualidade da água nas bacias estudadas são desenvolvidas atividades de campo para coleta de amostras de águas fluviais e medidas in situ, assim como realizadas análises em laboratório, onde são determinadas, além da presença de potenciais contaminantes das ações antrópicas, as características químicas e físico-químicas da água coletada, utilizando-se diversas técnicas químicas analíticas.

Por meio dessa estratégia de trabalho obtém-se tanto a identificação de indicadores quali-quantitativos e a geração de bases de dados primários das bacias hidrográficas estudadas, como também são elaborados documentos- sínteses que apresentam diagnósticos das bacias. Os referidos indicadores, uma vez estabelecidos, são importantes para subsidiar a compensação por serviços ambientais, a adoção de políticas públicas de pagamentos por serviços ambientais e a otimização do monitoramento da água nas áreas estudadas bem como em áreas de características similares. Os resultados alcançados promovem subsídios seguros para o planejamento do manejo conservacionista das terras, com o objetivo de proporcionar água em quantidade e qualidade adequadas para a agricultura e para as demais atividades humanas, considerando-se cuidadosamente as fragilidades, peculiaridades e potencialidades de cada bioma brasileiro. A seguir são abordados alguns exemplos das referidas pesquisas.

Na Amazônia, segundo Figueiredo et al. (2016), a mudança progressiva da paisagem no estado do Pará, onde existem áreas degradadas e retração dos remanescentes florestais, é reflexo incontestável do uso inadequado e da ocupação desordenada do espaço, incluindo a implementação de áreas de cultivos agrícolas. No que tange ao processo de antropização dessas áreas, têm-se observado maiores impactos na qualidade da água nas cabeceiras das bacias hidrográficas e nas zonas de recarga dos aquíferos. Em virtude da grande fragilidade ambiental desses locais, é premente sua recomposição florestal, tanto no âmbito da propriedade rural quanto da bacia. Como efetuar essa recomposição ou frear a expansão das áreas desmatadas constitui hoje um dos grandes desafios das políticas públicas nesse bioma, cuja necessidade de conservação tem sido apontada por inúmeros estudos.

Em estudo conduzido por Zeilhofer et al. (2016) foram organizados dados pretéritos de qualidade de água de bacias que drenam para o Cerrado e para tributários para as áreas alagadas do Pantanal visando avaliar o estado ecológico e o nível de impacto, assim como para desenvolver recomendações para melhoria do monitoramento dos sistemas fluviais do Cerrado-Pantanal. Foi constatado que a intensificação do uso agrícola nas porções superiores das bacias resultam em concentrações maiores de nitrogênio. Consequentemente observou-se a jusante, nas regiões alagadas, mais especificamente no rio Paraguai, um pequeno aumento anual de nitrogênio entre o período de 1995 a 2009. A partir dos diversos resultados foi recomendado que os programas de monitoramento de várias instituições ambientais seja diminuído em números de estações de amostragem, aumentando- se porém a frequência amostral, que se restringia a apenas um máximo de quatro amostragens anuais em 95% das estações em funcionamento.

Já no Bioma Mata Atlântica na Região Sul do Brasil, visando à melhoria da qualidade de água superficial, Fritzsons e Mantovani (2017) investigaram quais áreas seriam mais indicadas para a implementação de projetos de restauração da floresta ciliar na bacia de hidrográfica do Ribeirão da Onça, localizada no Primeiro Planalto Paranaense, situada em zona rural, próxima a um grande centro urbano. Trata-se de uma bacia submetida a um crescente conflito de uso nas áreas de preservação permanente (APP). Os resultados indicaram que, em 51% da área da bacia, não há conflito de uso das Áreas de Proteção Permanente (APPs). Para os 49% restantes, em 40% o impacto é classificado como sendo médio, em 8% como sendo alto e, em 1%, o impacto é considerado baixo. As áreas de alto impacto e médio impacto foram então apontadas como prioritárias para recuperação das APPs.

Por outro lado, no Bioma Mata Atlântica porção nordeste, Cruz et al. (2017) estudaram o caso da bacia do rio Siriri, uma das principais contribuintes do Rio Japaratuba, localizado no estado de Sergipe. Trata-se de um bacia com alterações significativas nos recursos hídricos, com processos erosivos significativos, assoreamento dos leitos dos rios, poluição hídrica e modificações nos regimes hidrológicos desses rios. Foi diagnosticado que a origem desses impactos está diretamente relacionada às intensas alterações no uso e cobertura da terra na bacia, com retiradas significativas das florestas ciliares e substituição de pastagens por cultivos agrícolas, além de deficiente coleta de esgotos domésticos nos centros urbanos. Alguns parâmetros de qualidade apresentaram valores indicativos de tais impactos ambientais sobre suas águas. Por exemplo, os valores médios de oxigênio dissolvido em algumas estações de amostragem encontram-se abaixo do limite mínimo estabelecido para a Classe 2 da Resolução do Conama 357/2005. Isso ocorreu provavelmente pela presença de nutrientes nas águas oriundos do uso de fertilizantes nas áreas agrícolas e pelo lançamento de esgoto doméstico no rio, o qual é resultado de uma urbanização mal-conduzida, que, por vezes, ocasiona ainda mais impactos sobre a qualidade da água do que o desmatamento e a adoção de práticas agrícolas inadequadas.

Os estudos mencionados são apenas alguns exemplos da grande gama de conhecimento gerada pelo esforço de pesquisa despendido pelos grupos de especialistas que tem atuado no tema. A geração desse conhecimento científico no âmbito das bacias hidrográficas que abrigam o rural brasileiro são subsídios indispensáveis para o alcance de uma agricultura sustentável, que assegure bons índices de produtividade para suprir a necessidade de nossas sociedades, mas com a preservação dos recursos hídricos, uma vez que é nos solos da propriedade rural que a água é armazenada e onde ocorrem as nascentes que suprem os inúmeros córregos e rios com a água necessária para as cidades, as indústrias e para a própria agricultura. Os resultados alcançados nas diferentes pesquisas revelam a necessidade premente de se adotar práticas no manejo conservacionista das terras nos diferentes biomas brasileiros.

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Figueiredo: “Para a análise dos dados de qualidade e quantidade dos recursos hídricos são fundamentais a caracterização de vários aspectos da paisagem do meio rural”