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Americanos x chineses: reflexos no agro BRASILEIRO

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A guerra comercial entre EUA e China resultou em queda de exportações americanas de soja ao país asiático, o que abriu espaços ao produto brasileiro. Mas um provável acordo entre os dois países – com tendência de ser em breve – pode deixar a soja americana barata (e, assim, mais desejada) no mercado chinês, o que comprometeria os preços do grão brasileiro

Rubens Augusto de Miranda, pesquisador da Embrapa na área de economia agrícola

Crise entre superpotências. No decorrer de 2018, acompanhamos o desenrolar de uma crise comercial entre as duas maiores economias do mundo – EUA e China – que vem tendo reflexos em diversos países ao redor do globo – entre eles, o Brasil. A razão desse conflito que estremece a economia global se deve à alegação dos Estados Unidos de que a política comercial mercantilista chinesa, assim como violações de propriedade intelectual, penaliza a relação comercial daquele país com a China, resultando déficits na casa de centenas de bilhões de dólares. Objetivando “corrigir” essa distorção, primeiramente, o Governo Trump anunciou, em março de 2018, a aplicação de uma sobretaxa ao aço e ao alumínio importados de vários países. O ataque à China ficou mais claro somente alguns dias depois, quando anunciaram que também aplicariam uma tarifa de 25% sobre um montante de US$ 50 bilhões em produtos chineses.

Pequim respondeu prontamente ao desafio, anunciando, no dia 2 de abril, que aplicaria tarifas no mesmo valor sobre produtos importados dos EUA. A reação chinesa é de especial interesse para os brasileiros pelo fato de que a soja e a carne – duas das principais commodities exportadas pelo Brasil – estavam entre os produtos sobretaxados. A imposição tarifária sobre a soja dos EUA no início da guerra comercial causou estranheza para muitos analistas, ao entenderem que a retirada da oleaginosa de origem norte-americana da equação do abastecimento do mercado chinês geraria problemas ao país. A apreensão se devia, principalmente, à possibilidade das sojas brasileira e argentina não serem suficientes para abastecer as necessidades da China.

Impactos no agronegócio — Nesse ponto, vale ressaltar que a barreira tarifária erigida pela China contra a soja e outros produtos norte-americanos não é uma proibição de importação. O que tal política faz é tornar tais mercadorias menos competitivas, em termos de preços, frente à concorrência. Assim, não necessariamente a soja dos EUA foi extirpada do mercado chinês, mas perdeu market-share. Algo que, de fato, ocorreu em 2018, a partir do início da crise. A questão é que o mercado chinês representa mais de 60% do comércio internacional da soja. O país importou, na safra 2017/ 18, segundo dados do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), 96 milhões de toneladas de soja in natura. Esse mercado é disputado justamente pelo Brasil e pelos Estados Unidos, que são os dois maiores produtores e exportadores.

Um dos impactos da crise é que a queda de exportações da soja norte- -americana para a China levou a um excesso de oferta da oleaginosa nos EUA e, consequentemente, à queda dos preços. Apesar de menos dependente do mercado chinês que o Brasil, cerca de 30% da safra de soja dos Estados Unidos era destinada ao país asiático. Como resultado, entre abril de 2018 e janeiro de 2019, os preços da soja no mercado à vista caíram mais de 20%, contrabalançando as tarifas impostas pelos chineses. No que concerne ao Brasil, analisando o comportamento mensal das exportações, é evidente o impacto positivo do conflito para o sojicultor brasileiro. Nos primeiros quatro meses de 2018 – de janeiro a abril –, as exportações para a China haviam diminuído 1,26 milhão de toneladas em relação ao mesmo período de 2017, mas, com o início da disputa comercial, a situação mudou consideravelmente. Nos últimos oito meses do ano passado – de maio a dezembro –, os embarques de soja para a China aumentaram 16,56 milhões de toneladas em relação ao respectivo período de 2017.

No cômputo geral, em 2018, o Brasil exportou 83,6 milhões de toneladas de soja grão, sendo 69,1 milhões de toneladas somente para a China (82,6% do total), enquanto que, em 2017, esses números foram, respectivamente, 68,1 milhões e 53,8 milhões de toneladas (78,9% do total). Nos últimos meses de 2018, havia quem questionasse o foco no abastecimento do mercado chinês, em detrimento de outros mercados, como uma situação de delicada dependência de um único mercado. Contudo, os números do comércio exterior revelam que o Brasil não se absteve do abastecimento dos demais mercados da oleaginosa, pois tais exportações se mantiveram estáveis. Enquanto que a soja exportada para os demais países além da China, em 2017, chegou a 14,35 milhões de toneladas, em 2018, esse número foi de 14,5 milhões de toneladas.

Em termos de faturamento, as exportações de soja para a China, em 2018, renderam ao Brasil US$ 27,3 bilhões (FOB), valor 34% superior ao faturado em 2017, quando as vendas totalizaram US$ 20,3 bilhões. Tal acréscimo não se deveu apenas ao aumento da quantidade Sandra Brito Miranda: “A expectativa pós- -negociações, resultante de informações divulgadas pela própria Casa Branca, é favorável ao fechamento de um acordo, mas ainda pode demorar algumas semanas” exportada, mas também a melhores preços. A soja foi exportada, em 2018, pelo preço médio de US$ 396,95/tonelada, valor superior aos US$ 377,3/tonelada do preço médio de 2017. A depreciação do real em 2018 em relação a 2017 inflaciona ainda mais os números ao contabilizá-los na moeda brasileira. Ao serem convertidas as exportações mensais de soja pela cotação média do câmbio no respectivo mês, os embarques da oleaginosa para a China, em 2018, renderam R$ 100,8 bilhões, 56% superior aos R$ 64,7 bilhões de 2017.

Em relação à carne, o impacto das tarifas foi menos acentuado. As exportações de carne desossada de bovino congeladas para China e Hong Kong passaram de 451,5 mil toneladas, em 2017, para 589,6 mil toneladas, em 2018, representando um acréscimo de 30%. Em termos monetários, as exportações para a China passaram de US$ 1,93 bilhão para US$ 2,52 bilhões. Essa diferença de US$ 590 milhões representou apenas 8,4% do impacto observado da soja no comércio com a China.

O que esperar em 2019 — Devido ao fato de a soja não responder bem ao armazenamento como o milho, dado que os grãos umedecem rapidamente e apodrecem se não forem mantidos extremamente secos, a margem de manobra do sojicultor norte-americano é pequena para a espera de melhores preços em um maior horizonte de tempo. Portanto, ajustes precisam ocorrer no curto prazo, sob o risco de os prejuízos se estenderem por mais de uma safra. Se a guerra comercial persistir nos primeiros meses de 2019, a área plantada com soja nos EUA para a safra 2019/20 deve cair. O que deixaria o Brasil em perfeitas condições de se tornar o maior produtor mundial da oleaginosa. A despeito da demanda externa aquecida pelas exportações à China, o produtor brasileiro, principalmente o sojicultor, deve ficar atento para um possível acordo para o fim da Guerra Comercial. Após as duas potências em conflito acordarem um armistício de 90 dias em dezembro, com a ameaça, pelos EUA, de aumento das tarifas de 10% para 25% sobre US$ 200 bilhões em importações chinesas ao fim desse período, os negociadores dos dois países voltaram a se reunir no início de janeiro, em Pequim, na busca de um acordo.

A expectativa pós-negociações, resultante de informações divulgadas pela própria Casa Branca, é favorável ao fechamento de um acordo, mas ainda pode demorar algumas semanas. Continuando as negociações, o secretário do Tesouro dos EUA, Steven Mnuchin, e o representante americano do Comércio (U. S. Trade Representative), Robert Lighthizer, convidaram o principal negociador chinês, o vice-primeiro- ministro Lie He, para retomar as conversas bilaterais em Washington nos dias 30 e 31 de janeiro. Indicando que o acordo, se houvesse, só seria anunciado em fevereiro. Nesse cenário potencial de acordo, os preços da soja dos EUA despencariam no mercado chinês, e os norte-americanos, certamente, recuperariam parte das exportações perdidas. Consequentemente, as cotações da soja no Brasil cairiam com o arrefecimento da demanda externa. Assim sendo, os produtores brasileiros de soja e carne devem balizar a tomada de decisão relativa à venda da produção atual, tendo em vista que tudo indica para a realização de um acordo pondo fim à Guerra Comercial antes do término da trégua de 90 dias.

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Miranda: “A expectativa pós- -negociações, resultante de informações divulgadas pela própria Casa Branca, é favorável ao fechamento de um acordo, mas ainda pode demorar algumas semanas"