Fitossanidade

Ações pela qualidade do grão ARMAZENADO

A armazenagem tem como função básica a guarda e a conservação dos produtos armazenados. Para isso, o agricultor precisa conhecer e praticar as técnicas que podem ser usadas durante o armazenamento. A redução das perdas na pós-colheita passa pela adoção de boas práticas agrícolas e de controle dos agentes contaminantes, os quais provocam danos aos grãos e podem se manifestar ainda na lavoura e perdurar por toda a fase de pós-colheita, durante a secagem, em função do teor de umidade dos grãos, no transporte e durante a armazenagem. Além das perdas quantitativas, o armazenamento dos grãos em condições inadequadas também pode provocar perdas qualitativas, as quais podem se refletir em rejeição ou até mesmo na condenação de lotes de grãos, seja com destino a mercados nacionais ou internacionais, em razão do potencial de risco de contaminação e da possibilidade de afetar a segurança alimentar dos humanos e dos animais.

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Os danos causados pelos insetos podem levar à redução da massa dos grãos e da qualidade nutricional, e os grãos infectados por fungos são chamados de ardidos

Os principais contaminantes dos grãos armazenados são insetos-pragas, fungos, micotoxinas, além da deterioração causada pelo efeito das temperaturas elevadas no interior da estrutura de armazenagem. A contaminação ocorre durante o processo de produção, ainda na lavoura, e também durante o armazenamento e segue por todas as etapas de processamento do grão, até chegar à mesa do consumidor. Desses contaminantes, os insetos constituem o principal fator de perdas nos grãos durante o período de armazenamento. “São várias as espécies. Mas o gorgulho ou caruncho (Sitophilus zeamais) e a traça- dos-cereais (Sitotroga cerearella) são os responsáveis pela maior parte das perdas, principalmente do milho”, afirma Marco Aurélio Guerra Pimentel, pesquisador da Embrapa Milho e Sorgo, ressaltando que os grãos podem ser infestados na lavoura, quando da sua maturação no campo, e os insetos migram para os armazéns após a colheita, nos próprios grãos, ou já podem estar presentes nos armazéns. Pimentel comenta que a infestação pode não ser notada porque existe o hábito de desenvolvimento das larvas dos insetos dentro dos grãos, dificultando o controle pelo uso de inseticidas protetores. Os danos causados pelos insetos podem levar à redução da massa dos grãos e da qualidade nutricional, à desclassificação do produto, reduzindo seu valor comercial, e podem favorecer o desenvolvimento fúngico na massa de grãos.

O processo de infecção por fungos começa ainda no campo, principalmente durante a fase de maturação fisiológica do grão, e passa para as etapas seguintes: colheita, secagem, armazenamento, transporte e processamento. Os grãos infectados por fungos são chamados de grãos ardidos. “É preciso fazer um monitoramento constante. Os grãos ardidos em milho são a consequência das podridões das espigas, causadas, principalmente, pelos fungos presentes no campo”, alerta Pimentel. Os fungos podem produzir micotoxinas e os grãos contaminados ficam desvalorizados, pois sofrem alteração da cor, degradação de proteínas, de carboidratos e de açúcares e podem afetar os parâmetros zootécnicos de animais, especialmente de suínos e aves. A tolerância máxima de grãos ardidos em lotes comerciais de milho é de 3%, de acordo com a Instrução Normativa nº 60, de 22 de dezembro de 2011.

Controle de contaminantes — O pesquisador ressalta que as boas práticas agrícolas continuam sendo a melhor forma de prevenir a contaminação dos grãos por fungos e micotoxinas e reduzir as perdas causadas por insetos. “São estratégias simples que devem ser observadas desde a implantação da cultura até a destinação do produto colhido. A prevenção ainda é a melhor estratégia”, diz. Dessa forma, o pesquisador recomenda ao produtor conhecer as características da cultivar escolhida, como empalhamento e resistência a danos mecânicos, a insetos e a fungos. Segundo ele, para garantir uma boa qualidade dos grãos é preciso colher na época certa, sem atrasar demasiadamente, e evitar a colheita em períodos de chuva, além de regular corretamente as máquinas. “As colhedoras modernas têm boa capacidade de limpeza dos grãos por meio do seu sistema interno de limpeza, com ar e peneiras. No entanto, é importante garantir uma boa regulagem, realizar manutenção e limpeza das colhedoras e ainda operar as máquinas na velocidade recomendada, para obter baixo percentual de quebrados e impurezas, reduzindo contaminação e descontos por estes defeitos”. A tolerância máxima de matérias estranhas e impurezas em lotes comerciais de milho é de 2% e de grãos quebrados é de 5%.

Além disso, o pesquisador orienta que é necessário fazer o monitoramento do teor de umidade dos grãos, que deve ser próximo a 13% para armazenagem, o que reduz as chances de desenvolvimento de mofos e insetos durante a armazenagem. Mesmo após a colheita, os grãos devem passar pelo processo de limpeza em máquinas de ar e peneiras para redução de quebrados, impurezas e partes de plantas que podem conter alto teor de umidade e prejudicar a armazenagem a longo prazo. Todos estes cuidados devem estar aliados à principal medida preventiva, visando as boas práticas de armazenamento, que é a limpeza dos ambientes de armazenamento, aliada ao tratamento dos grãos com inseticidas residuais. “A limpeza é tão importante que alguns autores chegam a afirmar que constitui percentual significativo no sucesso do armazenamento do milho com qualidade”, afirma Pimentel. As principais recomendações de limpeza devem ser realizadas antes da colheita, retirando-se do local de armazenamento impurezas e resíduos de grãos e detritos de safras anteriores, os quais podem ser fonte de contaminação, além de garantir a eliminação de focos de umidade nestes ambientes.

Segundo Marco Aurélio, o controle dos insetos-praga deve ser feito por meio do tratamento com inseticidas para eliminação de insetos que estejam presentes nos grãos e nas instalações, realizando aplicação de inseticidas residuais de contato ou expurgo. “Os inseticidas residuais devem ser aplicados diretamente aos grãos por pulverização no momento do carregamento dos silos, e vão auxiliar na prevenção de possíveis infestações”, descreve. A tolerância máxima de grãos carunchados em lotes comerciais de milho é de 4%. Os grãos novos, recém-colhidos, não devem ser misturados com os grãos velhos, de safras anteriores, que podem ser focos de infestação e contaminar os colhidos recentemente. Infestações em grãos já armazenados podem gerar calor e criar “bolsões” de alta temperatura na massa de grãos, verificados pela leitura da termometria. Deve-se identificar possíveis focos de calor e utilizar a aeração de forma a eliminar esses focos e manter a temperatura mais baixa, em silos metálicos e armazéns graneleiros. Após a adoção das medidas preventivas, devese realizar o monitoramento periódico do ambiente de armazenagem para verificar possíveis focos de umidade e novas infestações por insetos, além de identificar presença de roedores e pássaros se alimentando dos grãos.