O Segredo de Quem Faz

ILP: lições da EXPERIÊNCIA

Leandro Mariani Mittmann
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Os diferentes sistemas de integração que envolvem lavoura, pecuária e árvores têm se expandido de forma rápida pela agropecuária brasileira e já se espalham por mais de 15,5 milhões de hectares. Na Fazenda Platina, em Santa Carmem/MT, a integração lavoura-pecuária, no caso arroz + gado, foi adotado ainda em 2000, e, quatro anos depois, o cereal deu lugar à soja, o que faz da fazenda de 2.430 hectares uma pioneira na prática da integração. O engenheiro-agrônomo Juliano Antoniolli, 34 anos, gestor técnico do empreendimento, descreve, nesta entrevista, como a integração lavoura-pecuária é praticada na Platina, que recebe visitantes do Brasil e do mundo para conhecer a iniciativa. Ele administra o negócio junto ao irmão, Giovani, gestor operacional na fazenda que começou com seu pai, Valdemar, ainda atuante na propriedade, com quatro irmãos, sendo que um deles deixou a sociedade, e, hoje, a família mantém outros empreendimentos agrícolas, inclusive no Paraguai.

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A Granja — Como se desenvolve o sistema de produção na fazenda Platina, o cultivo de soja e a criação de gado? E como ocorre a integração das duas atividades?

Juliano Antoniolli — O sistema da Fazenda Platina consiste em, aproximadamente, 40% a 50% da área de soja no período da safra e a outra parte, geralmente de 50% a 60%, com pastagem visando às áreas onde há corredores centrais, a área de semiconfinamento, para fazer a rotação a cada safra. Sempre vamos ter soja e pastagem para que, quando chegar em abril, tenhamos uma pastagem de alta qualidade, vendo que as nossas chuvas aqui perduram, em média, até maio. E quando seria o início do nosso período seco ainda tem uma alta produção de forragem, e de alta qualidade, podendo terminar os animais em semiconfinamento, no máximo, até o final de agosto. Em setembro, já tem o preparo para a nova safra que virá. E, nas áreas periféricas, longe dos corredores centrais nos quais não têm cocho para semiconfinamento, fazemos uma ou duas safras de soja, sempre intercalando com a braquiária. Usamos a BRS piatã, não mais a ruziziensis, pela piatã ser uma braquiária com melhor índice de ganho de peso para pastejo, e deixa uma palhada de excelente qualidade quando comparada com a ruziziensis. Vendo o desempenho da piatã, tanto para palhada de solo quanto para ganho de peso, optamos por usar somente essa. Já pegamos o jeito de manejar essa braquiária. Então, essas áreas periféricas são as que ficam perenizadas na época das águas. Como a fazenda trabalha com o ciclo completo, de cria, recria e engorda, essas áreas ficam com a nossa vacada de crias inseminadas no meio do ano. Fazemos uma estação de monta de junho a setembro, e a parição vai se dar de abril a, no máximo, agosto. As fêmeas são acasaladas no período seco, porém com alta oferta de forragem também. Então, as áreas mais periféricas vão perdurar pastagem perene para cria e recria durante três, no máximo, quatro anos.

A Granja — Como tudo isso começou na Fazenda Platina e como foi o processo de transição até o atual momento? Onde vocês aprenderam sobre o sistema?

Antoniolli — Pelo que a gente tem de informações, a Fazenda Platina, aqui na região de Sinop, no Médio-Norte do Mato Grosso, foi a primeira a fazer a integração lavoura-pecuária. Era uma fazenda de pecuária que entrou com a agricultura para a reforma de pastagem, visto que a fazenda estava degradada e infestada de ervas daninhas, e o solo já estava pobre. Então o meu pai e um tio, que era sócio, em 1998 para 1999, arrendaram para um arrendatário da região fazer uma área de arroz. E, de 1999 para 2000, eles tiveram a ideia de fazer a integração com arroz. Na época, tinha a ajuda de um agrônomo, Jorge Kamitani, da cidade. Antes, eles faziam a integração com arroz e plantio de braquiária, mas, em 2004, começou a integração com a soja. E foi muito conhecimento empírico do meu pai, do meu tio e do agrônomo, que implantaram. E era na tentativa e no erro. Não tinha muita informação na época, não tinha esse acesso à internet como se tem hoje, nem muita coisa em literatura. Depois é que meu tio saiu da sociedade e meu irmão veio para cá.

Eu vim só em 2013, depois que me formei, em 2011, em Dourados/MS. O que o meu irmão e eu fazemos aqui na fazenda, junto com o meu pai, que está por traz de tudo? Estamos lapidando o sistema. Hoje, tem a Embrapa Agrossilvipastoril em Sinop, que é uma parceira nossa em troca de experiência. Já fizemos dias de campo aqui na fazenda junto com eles (pesquisadores). Então, trocamos muitas figurinhas, podemos dizer. Nosso case, aqui, já foi compartilhado muitas vezes com muitas pessoas. Recebemos visitas de todo o Brasil e até de fora, grupos dos Estados Unidos, do Paraguai, da Argentina, do Japão, da França. Ao contrário da vizinhança, que só tem soja e milho, a Platina é praticamente uma das únicas fazendas que têm pecuária aqui na região, e de alta produtividade.

A Granja — Nesse processo de adoção e concretização da ILP, quais foram as maiores dificuldades e os maiores erros que vocês cometeram para chegar até aqui?

Antoniolli — Vou falar de um testemunho meu, do que eu via muito aqui na fazenda: era tudo muito na base do olho, pouca coisa medida. Quando cheguei aqui, lembro que se fazia recria da boiada em ruziziensis, e o capim ia até o chão. Quando ia começar a época das águas ou o final das secas, essa boiada ia para um boitel. Não tinha estrutura de semiconfinamento, nem se tinha ideia de fazer isso. O lucro da engorda ficava repartido com o pessoal do boitel. Foram as maiores dificuldades. Depois disso, foi quando eu vim para cá que começamos a fazer conta, fazer a terminação dentro de casa, a instalação de cochos, puxar mais água, porque a que tinha não dava conta. A água aqui é toda encanada, e tivemos que abrir outro poço, porque a concentração de gado ficou muito grande em uma área de semiconfinamento, e a água vai toda por gravidade, tem pouca declividade, nossa terra é bem plana. Começamos um semiconfinamento e percebemos que a água não chegava aos últimos lotes, então tivemos que puxar a energia e fazer uma caixa d’água nova, com um poço novo nas áreas mais periféricas nas quais têm cocho. E assim foi se ajeitando.

Treinamento de equipe, lógico, desde que o funcionário entra aqui ele está ciente de que trabalha com integração. Uma equipe do gado já é antiga na fazenda e entende o sistema. Então é muito por pessoas. As maiores dificuldades que vemos em fazendas de integração são as pessoas aceitarem, entenderem que os sistemas de pecuária e de agricultura não são concorrentes dentro da fazenda. São sistemas sinérgicos, não antagônicos. Temos uma equipe bem jovem. Somos muito operacionais no negócio para entender que uma mão lava a outra. Não são equipes nem atividades concorrentes uma da outra dentro da fazenda. E vejo que, quando você é pecuarista e vai partir para a agricultura, o capital, que seria o gado e você, não tem o financiamento, mas quem te fornece seria o produtor ou suas próprias vacas, e o pecuarista já tem isso. Já o agricultor, quando vai entrar na integração adotando a pecuária, tem que desembolsar um valor alto de investimento, e cerca de 70% a 80% é em animais, não em estrutura, plantio da braquiária. Nós, como pecuaristas, já tínhamos os animais, e acredito que até fica mais fácil entrar no sistema de integração. A gente vê que o grande problema das propriedades é muito cultural. Às vezes, o agricultor que não gosta de gado ou um pecuarista que não consegue fazer um investimento de longo prazo em maquinário, não quer fazer financiamento, que é muito cultural de pecuarista querer pagar à vista.

A Granja — Quais os maiores cuidados, as principais precauções que o produtor deve ter para não errar na implantação e na manutenção de um sistema de integração?

Antoniolli — Para não errar na implantação – e já tive a oportunidade de falar para agricultores sobre isso –, quando mostro os números da fazenda, os ganhos que temos com a pecuária, não é basicamente você cercar uma área de braquiária pós-soja, colocar um bebedouro e soltar o gado. Tem que ter mensuração em tudo, para ver onde está errando e onde pode melhorar. Tem que mensurar para gerenciar. Então simplesmente cercar uma área para colocar pasto, colocar bebedouro e soltar gado, isso não vai garantir o sucesso do seu negócio. Estamos falando de uma fazenda que tem cria, genética, manejo sanitário, manejo de pastagem. Não é do dia para a noite que você consegue resultados com a pecuária, por mais que você tenha uma excelente forragem. Assim como não é do dia para a noite que você consegue altas médias em agricultura. Você prepara o solo, corrige, faz análise. Então você vê muito agricultor que está entrando na integração e quer comprar o garrote mais barato, e isso, muitas vezes, são os garrotes de pior qualidade.

Não adianta querer se espelhar em um projeto que já vem de 18 para 19 anos de implantação e ter os mesmos resultados, e querer comparar animais de alto potencial de ganho com alta genética com boi que você vai comprar pelo preço mais barato. Obviamente que o fator genético vai pesar muito, o ambiente, nem tanto, porque teremos boas condições de pastagem. Mas tem todo o lado sanitário, genético e nutricional, lógico. Esse tripé nunca pode estar desequilibrado. E é isso que, às vezes, o agricultor não entende. Ele começa um projeto de integração, mas não conseguiu comprar uma boa boiada e não consegue ter um grande resultado. E, às vezes, ele vai culpar o sistema, mas a culpa não é do sistema. Às vezes, é uma decisão mal tomada, um equívoco cometido durante a implantação de todos esses sistemas.

A Granja — E quais são os principais benefícios técnicos e também econômicos do sistema de integração lavoura-pecuária?

Antoniolli — Nos benefícios da integração lavoura-pecuária, principalmente na parte de solo, há essa barreira física formada pela braquiária depois de dessecada na implantação da agricultura, que evita perdas em veranicos, que vai propiciar uma proteção do solo contra a radiação solar, diminuir a temperatura e a perda por volatilidade de água, e que, quando há chuvas, vai evitar a erosão. Já na parte biológica, vemos, na nossa fazenda, comparando às fazendas que têm somente agricultura que há o incremento de matéria orgânica, que está bem acima da média, alguns talhões com quase 4%. Há, também, a reciclagem de nutrientes, enxofre, principalmente, que é um limitante para a alta produtividade, além de potássio. E tem, ainda, a supressão de ervas daninhas.

Outra coisa é que acaba-mos com as manchas de nematoides na fazenda, conforme vai rotacionando. É uma prática de rotação de culturas também, e volta a ter o equilíbrio de matéria orgânica e a equilibrar também a população de nematoides. Na parte financeira, nas duas últimas safras, batemos nossos recordes. Na safra 2016/17, fechamos com 64,17 sacas de soja por hectare e, na 2017/18, foram 70,14 sacas/hectare. E, em áreas em que sempre confinamos gado, conseguimos uma produção de 21 arrobas por hectare em 100 dias, com um custo diário mais barato que em confinamento, pois o volumoso é capim, dando 2% do peso vivo de ração no cocho a esses animais por dia. Essa produção de 21 arrobas por hectare em uma arroba produzida abaixo de R$ 80 conseguimos nessas áreas de semiconfinamento uma segunda safra de bois de terminação com uma lucratividade igual ou superior a alguns casos que uma soja de 64 a 70 sacas. Então não tem o que discutir quando a gente põe números, e, por isso, cada um tem que fazer as suas contas. Na Platina é mais do que provado que a nossa terminação é tão eficiente quanto uma soja de 70 sacas.

A Granja — E quais são os próximos passos e objetivos na Fazenda Platina em relação à integração? Ampliação de área de agricultura, mais cabeças de gado, aposta em árvores (o F)...

Antoniolli — Quando a gente fala em futuro da Fazenda Platina, dizemos que, no mercado de ciclo completo que temos aqui na fazenda, quem manda no nosso negócio não é a gente, é o mercado. Neste ano, estamos com ciclo completo, mas a nossa safra de bezerros está sendo negociada. No final de 2019/20, não teremos terminação de machos, pois o mercado está sinalizando muito para bezerros, está com preços muitos bons nestes dias no Mato Grosso, e já negociamos parte da nossa safra de machos. As fêmeas ficam para reposição devido a esse movimento de integração. Grandes agricultores estão adotando o sistema e comprando bezerros machos. Fora os grandes invernistas que têm aqui no estado, haja visto que é o maior rebanho do País. O mercado do bezerro está aquecido, e, como está demandando por bezerros, não vamos recriar e terminar os nossos machos que estão sendo desmamados agora, no começo do ano. Esta bezerrada de machos está sendo negociada pois vemos que podemos ter um ágio maior nessa arroba negociada do bezerro, e vamos aproveitar essa onda que eu acredito que vai durar mais três ou quatro anos.

O futuro não sabemos dizer, mesmo olhando os gráficos de ciclo pecuário que apontam para uma demanda muito alta por bezerro, pois esses agricultores que estão entrando no sistema de integração não querem mexer com cria, não têm mão de obra para cria, às vezes, não querem disponibilizar área de soja para matrizes. Então acredito que o criador, o pecuarista antigo que tem cria, vai passar por um grande momento, e já estamos vendo isso no começo de ano, tanto que decidimos não continuar com recria e terminação. Neste ano, vamos vender bezerros. E pensado também em integração com floresta, estamos na região de transição para a Amazônia, tem muita matéria-prima aqui, e o eucalipto, que é mais utilizado aqui na integração, não tem um preço muito atraente. Mas, vendo a questão de sombra, vamos fazer em áreas periféricas, começando em 60 hectares neste ano para evitar um erro grande, para ir tentando e aumentando as áreas aos poucos, fazendo esta parte de ILPF visando ao bem-estar animal, à sombra para os animais, já que estamos em uma região que raramente fica abaixo de 30º C depois do meio-dia. Vemos que, onde tem árvores, os animais vão para baixo da sombra, e há dados mostrando que é benéfico tanto para a produção de cria quanto para ganho de peso em recria e terminação. E outra seria a ampliação para produção de lenha. Vendo o grande número de secadores de grãos e essa entrada de usinas de etanol, acredito, sim, que o F do ILPF vai ser um grande mercado para a produção de biomassa, que são as indústrias que necessitam de lenha. Não acredito que esse eucalipto plantado agora será usado para madeira. Futuramente, em sete, oito anos, seria uma grande matéria-prima de biomassa para essas indústrias que estão entrando hoje no Mato Grosso.