Herbert & Marie Bartz

A VIDA DO SOLO: A ESSÊNCIA DO SPD E A FRONTEIRA DE NOSSA AGRICULTURA (PARTE 1)

Herbert

Neste segundo mês do ano de 2019, vamos falar de vida... vida no solo, de solo saudável, o que o torna resiliente. Ainda mais considerando as adversidades que a Mãe Natureza nos impôs na última safra (os longos períodos de estiagem), que, na minha opinião, ocorrem propositalmente. Justamente para que tenhamos um senso crítico e analisemos o que tem sido feito em nossos campos. Se estivéssemos com sistemas mais equilibrados, por certo não haveria tanto estardalhaço quanto às perdas de produtividade devido à seca. Tanto que me questionaram, em uma entrevista no dia de campo da Cooperativa Lar, em Medianeira/PR, na segunda semana de janeiro, por que, mesmo com o plantio direto (PD), a estiagem arrasou as lavouras do Paraná? Muito bem... Minha reação foi retrucar com outro questionamento, perguntando o que, efetivamente, o agricultor está fazendo: plantio direto ou sistema plantio direto, pois são duas coisas distintas, e ainda há muita confusão sobre os termos.

Plantio direto é a técnica de se plantar sobre a palhada da cultura anterior para evitar erosão, e foi como tudo começou, em outubro de 1972, quando meu pai fez o primeiro plantio de soja sob plantio direto, na Fazenda Rhenânia, em Rolândia/ PR. Mas, ao longo dos anos, com adoção maciva do PD pelos agricultores e os resultados das pesquisas, perceberam que haviam muitos outros benefícios atrelados, se fossem então cumpridas três regras: 1) o mínimo revolvimento do solo; 2) a manutenção permanente da cobertura do solo (viva ou morta); e 3) a rotação de culturas com adubação verde. O que fez com que o plantio direto evoluísse para o sistema plantio direto (SPD). Ou seja, se essas três regras não são cumpridas, não é sistema plantio direto, e, consequentemente, os problemas começam, então, a aparecer, ficando visíveis: compactação, falta de cobertura, pouca infiltração de água e, especialmente, um item que poucos têm colocado atenção e que é a chave de todo o problema: nossos solos estão se tornando mortos, sem vida.

Existem, basicamente, três fatores que vão afetar a vida do solo, dois deles atrelados ao manejo do solo: manejo físico (subsolagens, escarrificações, aragens, gradagens etc.) e rotação e diversificação de culturas. E um terceiro atrelado ao manejo da cultura: o uso de agroquímicos. Esse último, deixarei para explorar em outro momento, pois é bastante complexo, mas afeta diretamente a biologia do solo. No entanto, os dois primeiros itens estão diretamente ligados aos princípios do SPD. Bom, o primeiro, se executado, quebra o sistema em si, que passa a não ser mais SPD, mas somente PD. Do ponto de vista biológico,

isso causa um tsunami no solo (termo que meu pai adora usar). Esse tsunami, manejo físico, é mortal para a vida que habita o solo, pois destruímos a “casa” dos organismos que vivem nele, nas mais diversas esferas (*micro-organismos e microfauna, **mesofauna ou ***macrofauna), expondo eles ao sol e a predadores, além de queimar a fonte de alimento deles: a matéria orgânica (MO). Pois, uma vez que se incorpora a MO no solo, aumenta-se a superfície de contato, e a decomposição se torna demasiadamente acelerada pela atividade microbiana, resultando em diminuição de seus teores no solo e no aumento das emissões de CO2.

Agora, o segundo item: rotação e diversificação de culturas. Esse é o pilar base, fudamental do SPD e para a vida e sua diversidade no solo, pois é quem irá alimentar nossos organismos e fazê-los trabalhar a favor de nosso sistema. É unânime que dois atributos são considerados referência da qualidade dos solos: o teor de MO e a estruturação do solo. Concordam? Mas o teor de MO depende do quê? Das culturas que são plantadas e dos organismos do solo que ajudam a fragmentar e decompor a palhada dessas culturas. Se não houver os organismos, não há decomposição. E a estruturação do solo? Depende do quê? Da MO, que é cimento e que ajudará a formar os agregados e as partículas do solo, e, novamente, dos organismos do solo, pois eles também produzem diversas subtâncias que auxiliam na estruturação do solo e ainda formam bioagregados ao ingerirem solo. Então me expliquem como é possível acumular MO e estruturar o solo quando nossos solos estão mortos, sem vida? Simplesmente não é possível! Solos biologicamente mortos, não terão qualidade estrutural, muito menos acúmulo de MO, e, portanto, não existirá sistema plantio direto. *Micro- organismos: algas, cianobactérias, fungos, leveduras, bactérias, mixomicetos e actinomicetos; e Microfauna: nematoides, protozoários etc., que são invisíveis e necessitam de equipamente específico para serem vistos; **Mesofauna: microartrópodes, como pseudoescorpiões, protura, diplura, colêmbolos, ácaros, pequenos miriápodes e os enquitreídeos, que são invertebrados de tamanho médio e exigem ajuda de lupa para serem vistos; ***Macrofauna: mais 20 grupos, como minhocas, lacraias, centopeias, formigas, besouros (adultos e larvas), tatuzinhos-de-jardim, aranhas, lesmas, caracóis, cupins, tesourinhas, e larvas de mariposas e de moscas. Já pararam para observar toda essa biodiversidade em suas lavouras?

Herbert Bartz é produtor rural e precursor do plantio direto no Brasil, e pai de Marie Bartz, bióloga, pesquisadora e professora da Universidade Positivo