Glauber em Campo

OS DESAFIOS DO AGRONEGÓCIO EM 2019 E NOS ANOS SEGUINTES

Glauber

Poucas pessoas param para pensar ou compreender a diversidade da produção brasileira. Os desafios, mesmo dentro de um único estado, são diversos. Em distâncias como 100 quilômetros, as condições de clima, solo e umidade podem ser totalmente diferentes. Um produtor que produz em Toledo, no Paraná, está a 500 metros de altitude, sendo assim, ele tem mais variedades de milho, soja e trigo adaptadas a esta altitude. Mas, ao se deslocar para um município próximo, como Guaíra, as condições são totalmente diferentes, afinal Guaíra está em uma altitude de 220 metros. Sendo assim, o trigo não é uma opção, e são poucas as variedades de soja e milho adaptadas a essa altitude. Quero, com tudo isso, dizer que, além do desafio climático, o produtor tem, ainda, um desafio tributário e cultural a superar. Com isso, vemos um País totalmente diversificado com relação às condições também de capitalização, pois, quanto maior a dificuldade regional, maior a necessidade desse produtor ter uma escala maior. Quanto mais distante dos centros de consumo ou dos portos, maior o desembolso com frete, e, assim, menor a rentabilidade. E o produtor está mais exposto às diversidades de clima, tributos e do mercado internacional. Com isso, um produtor, para sobreviver produzindo em algumas regiões, tem que ser muito competente. Observamos que, a cada ano, aumenta a necessidade de dedicação à produção.

Um fator que continua chamando a atenção é o custo de produção, que nem sempre está atrelado à distância dos portos, mas sim à realidade regional. Conseguimos identificar bem isso nos estudos feitos pelo projeto Campo Futuro, realizado pela Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) e pelo Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar), em parceria com universidades e centros de pesquisa, além das federações estaduais de agricultura e pecuária. Os dados apontam um custo de produção maior e uma margem menor para o Paraná e o Rio Grande do Sul em comparação ao Mato Grosso. Como podemos ver, nem sempre a distância dos portos é um fator preponderante para custo e rentabilidade. Muito depende da negociação e da escala. Temos notado que a escala, ou seja, a área total plantada pelo produtor, é um fator importante na negociação. Um grande produtor teoricamente tem um poder de compra maior que um pequeno produtor, afinal, ele irá comprar um volume muito maior de sementes, defensivos e fertilizantes. Sugere-se que o cooperativismo teria a função de quebrar essa diferença, dando aos produtores cooperados a mesma competitividade que os grandes grupos. Isso já foi uma realidade passada, mas, neste momento, requer estudos mais aprofundados sobre a real função do cooperativismo.

Fora as realidades regionais de negociação, clima e distâncias, temos, ainda, toda a realidade estadual de tributação. Observamos que o produtor brasileiro passará os próximos anos tendo que enfrentar discussões sobre a tributação da produção rural. Parece que o elogio de que o agro é o carro-chefe do Brasil em relação ao superávit da balança comercial agora deve ser o pagador da ineficiência do Estado brasileiro. Sendo assim, uma produção que sofre todas as intempéries climáticas, agora, terá a intempérie da tributação estadual, na qual o produtor precisará carregar o estado nas costas. A realidade de cada estado é diferente quanto à tributação, mas observamos uma sede estadual de arrecadação gigantesca. Vejamos o que vem acontecendo no Mato Grosso, onde o governo criou, em 2000, um Fundo de Habitação, Estradas e Segurança (Fethab), cujo objetivo principal era conservar e pavimentar as estradas do estado, e que, ao longo dos anos, teve seu objetivo desvirtuado, passando a pagar as contas dos Poderes. E, agora, o governo quer sempre mais dos produtores, parece que este saco não tem fundo, afinal, sempre é mais fácil tirar de algum setor.

É indignante ver o Estado brasileiro – seja na esfera municipal, estadual ou federal – ficar inchado com a contratação de funcionários públicos e com baixa eficiência. E o Estado não tem recursos para investir em obras e melhorias ao atendimento do cidadão, e, com isso, falha em seu objetivo, e os governantes, ao invés de buscar eficiência, buscam arrecadar cada vez mais. Com isso, concluo que os desafios para os próximos anos são enormes, mas o setor elegeu um presidente que tem demonstrado entender as dificuldades da produção. Temos uma Frente Parlamentar Agropecuária cada vez mais forte em nível federal. Mas, por outro lado, vemos o setor totalmente desarticulado nas esferas estaduais. É preciso mudar esse cenário o mais rápido possível. O produtor precisa entender, de uma vez por todas, que necessita influência política no município e no estado. Ou irá pagar cada vez mais caro.

Presidente do Sindicato Rural de Campos de Júlio/MT, presidente da Câmara Setorial da Soja, presidente da Associação de Reflorestadores do MT, vice-presidente da Abramilho e Diretor Conselheiro da Aprosoja