Glauber em Campo

O ENREDO DAS ELEIÇÕES 2018: COMO FICOU A REPRESENTAÇÃO DO AGRONEGÓCIO?

Glauber

GLAUBER SILVEIRA

O agronegócio, nas últimas eleições, ocupou um espaço muito importante, seja na esfera estadual ou nacional, tudo reflexo da organização das entidades de classe e pelo fortalecimento da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), a maior bancada do Congresso Nacional. Para se ter uma ideia dessa força, só em 2018, o presidente Michel Temer esteve por três vezes no almoço da FPA, que ocorre todas as terças-feiras. A pergunta que fica é se essa força se consolidou nas eleições de 2018? Essas eleições foram em clima total de renovação e também Bolsonarianas. Resta saber se isso foi positivo ou negativo ao agronegócio. Em uma primeira análise, parece que a FPA diminuiu sua representatividade. Afinal, tinha 260 integrantes, sendo 233 deputados e 27 senadores, e, quando se fez a avaliação pós-eleição, são 210 representante, sendo 99 reeleitos, 36 novos integrantes, 75 atuantes não membros e 21 reeleitos no Senado Federal.

Pelos números, em um primeiro momento, parece que a FPA perdeu parte de sua força. Porém, é um equívoco olhar dessa forma, uma vez que, com a renovação, a FPA tem uma oportunidade enorme de conquistar novos integrantes. Um exemplo é do Mato Grosso, o Dr. Leonardo (Solidariedade), eleito deputado federal, é médico e já fez questão de aderir à FPA, uma vez que é de um estado agrícola. Assim como ele, há diversos outros exemplos do MS, PR, SC, RS etc.

Mas, sem dúvida, cabe uma reflexão, afinal, a pergunta é: dos 243 novos parlamentares de primeiro mandato, quantos foram eleitos com o apoio do agro e reconhecem isso? Observamos uma atuação muito tímida dos produtores nessa eleição. Me parece que estavam emburrados e apenas focados na campanha presidencial. Isso tem sido uma reclamação forte por parte dos deputados atuantes na FPA, que esperavam muito mais. O resultado disso talvez tenha sido que apenas 42% da bancada se reelegeu.

Cabe, agora, um trabalho estratégico – e que a FPA já está fazendo – de atrair novos integrantes, fora aqueles que se mostraram simpáticos à causa do setor produtivo, que foram 36 novos integrantes. Claro, entre eles, exemplos como Neri Geller (PP-MT), ex-ministro da agricultura; José Mário Schreiner (DEM-GO), presidente da Federação de Agricultura de GO; e Pedro Lupion (DEM-PR). A FPA se mostra otimista nesta conquista em aumentar a sua bancada com novas caras e um nível de escolaridade maior, na qual 80,9% dos eleitos possui nível superior. Com isso, fica mais robusto o enfrentamento no Congresso.

Agora, é frustrante ver nomes como os de Valdir Colatto, de SC; Vitório Galli, do MT; e Takayama, do PR, não se reelegeram, parlamentares que realmente foram muito atuantes e importantes para o agro. Perdemos, também, outros nomes importantes, como os senadores Moka, do MS; e Nilson Leitão e Adilton Sachetti, ambos do MT. A meu ver, algumas estratégias foram erradas por parte dos candidatos, que se submeteram à eleição do Senado, e, por outro lado, o produtor não cuidou do seu representante. Talvez culpa da comunicação, na qual o produtor não foi devidamente informado sobre a importância do parlamentar do seu estado e qual seu papel.

Nessas eleições, vimos uma nova formulação, novos candidatos, enxugamento de partidos, fortalecimento de partidos novos – a exemplo do PSL, que cresceu para 52 deputados –, PT ainda se mantendo como o maior, e o PSDB, menor. Com isso, o que se mostra é que teremos o agrupamento em bancadas, ou seja, partidos se unindo para votação de temas. Assim, surge uma oportunidade ímpar para a FPA se consolidar nesta legislatura como a maior frente e determinar sua importância no Congresso Nacional.

Sem dúvida, vamos precisar de uma bancada forte e eficiente nesta nova legislatura, pois temas importantes vêm pela frente, assim como uma oposição ao agronegócio se fará presente, uma vez que o amplo apoio a Jair Bolsonaro foi marcado pelas pautas ambiental, indígena, armamento e trabalhista, entre outras. Com isso, o embate democrático estará presente, e será preciso uma bancada unida e consistente.

O grande desafio, a meu ver, são os egos em Brasília, seja de parlamentares ou de líderes classistas. Com a renovação política, novos atores surgem, e pessoas pouco notadas se fortalecem. Resta saber o que irá prevalecer: o interesse individual ou o coletivo? Em meu entendimento, essas eleições serviram para reflexão da atuação e comunicação de parlamentares e entidades com o seu público. O agro poderia ter saído maior, mas ainda há tempo de ocupar o espaço, fazer do limão uma limonada.

Presidente do Sindicato Rural de Campos de Júlio/MT, presidente da Câmara Setorial da Soja, presidente da Associação de Reflorestadores do MT, vice-presidente da Abramilho e Diretor Conselheiro da Aprosoja