Herbert & Marie Bartz

A REPETIÇÃO DE PADRÕES... POR QUANTO TEMPO MAIS?

Herbert

Em boa parte das regiões de nosso Brasil afora, o período de chuvas intensas se iniciou novamente... Muito esperado, considerando o período de estiagem anterior que castigou o solo e as plantas, e, claro, para também dar início aos planejamentos da nova safra, a principal delas, a de verão. E também não demorou muito para diversas fotos e vídeos mostrando os efeitos das chuvas pelas lavouras começarem a circular pelas mídias sociais de comunicação. Por coincidência, neste último mês, tive a oportunidade, junto com alguns colegas e amigos, a convite do Dr. Roque Dechen, de revisar parte da versão em português do livro Dirt: the erosion of the civilizations, do geólogo norte-americano David Montgomery, o qual meu pai se tornou um grande fã. Já citamos esse livro anteriormente em nossa coluna e, novamente, recomendamos enfaticamente a leitura do mesmo.

Pode parecer coisa de mulher, sensível demais, ou de quem ama demais a terra e a natureza, mas me peguei em choro em diversas passagens ao reler a história de nossas grandes civilizações e constatar que, depois de mais de 8 mil anos de história, ainda tratamos a terra como algo sem valor, literalmente uma sujeira. Dirt, que significa “sujeira” em inglês, é o nome que o autor dá ao livro, justamente por também perceber, após seu exaustivo levantamento, que, para as pessoas em geral, o solo ou a terra não passa de nada além de sujeira. Os registros de como o agricultor lavrador trata a terra são baseados em pesquisas de vários estudiosos, em obras de grandes filósofos, entre eles, muitos gregos e romanos, além várias pesquisas arqueológicas.

Chega a ser triste e dá um aperto no peito... Da China ao Oriente Médio, passando pelos impérios Grego e Romano, a Idade Média entre os europeus e, ainda, as grandes civilizações americanas – os incas e os maias –, todas, sem exceção, registram o mesmo padrão de expansão das atividades agrícolas baseado no abuso do solo e da paisagem, resultado em grandes e extremos processos erosivos.

Quando os grupos humanos passaram de nômades a sedentários, a agricultura se fixou e aumentou em território. O primeiro passo foi o desmatamento das exuberantes florestas para, então, o estabelecimento dos cultivos. O preparo do solo para a agricultura foi (e ainda é hoje) o principal fator para o colapso do sistema. De início, os cultivos ocuparam os vales férteis, mas, com o aumento da população, ocorrendo exaustão do solo nos vales (perda da fertilidade natural do solo), os cultivos avançaram morros e encostas acima nas diversas regiões (civilizações diferentes) e em várias épocas distintas.

E, daí por diante, os sistemas de produção a qualquer custo, sempre procurando produtividades mais elevadas (o que parece ser algo de nossa época, é muito antigo o registro), especialmente para alimentar a população, tornaram insustentável a produção agrícola. E justamente por quê? A erosão, atrelada à degradação e à exaustão do solo que permaneceu. Vários são os registros de rios carregando sedimentos e o acúmulo desses sedimentos em seus deltas, chegando a modificar a paisagem de tanta terra acumulada. E acabas te assustando quando percebes que é a repetição de um processo que ocorre de tempos em tempos.

Nesse contexto histórico, é possível observar que, após o “sumiço” de uma grande civilização, o tempo se encarregou (estamos falando de milhares de anos), junto com a natureza, permitindo que a vegetação se reestabelecesse e criasse condições para os solos se recomporem/ reconstruírem. Pensando no paralelo com a atualidade: onde e como estamos hoje se analisarmos o panorama no passado? Houve evolução? Sim, de fato. Existem poucos registros, ao longo da história de povos, que conseguiram manter sua produção por tempo prolongado, cuidando efetivamente do solo, a exemplo de alguns povos no Peru que mantêm agricultura por mais de 1.500 anos em terrenos inclinados. Sucesso!

E, não querendo nos gabar, com o advento do sistema plantio direto e suas premissas – mínimo revolvimento, manutenção permanente de cobertura (viva ou morta) e rotação de culturas atreladas à adubação verde –, conseguimos dar um grande salto positivo. Mas ainda é pouco! Pois, se estivéssemos bem, as tais fotos e vídeos de chuvas torrenciais e rios lamacentos saindo de nossas lavouras não circulariam com tanta frequência pelas mídias sociais. Temos que nos esforçar muito mais. Os agricultores, ou, melhor, os empresários do agronegócio, devem se sensibilizar. Devemos todos ter em mente que, se a nossa base, o solo, não for cuidada, não haverá milagre tecnológico que nos salvará. A história se mostra muito categórica e prova isso: colapsos e mais colapsos das civilizações, com a degradação do solo como base do processo. E, então... o que tu tens feito para mudar esse padrão que a história nos mostra? Seremos responsáveis por mais um colapso? Para refletir: as repetições de situações/ padrões ocorrem quando a lição não foi aprendida. Qual a lição com o solo ou com a natureza que insistimos em não querer aprender? E por quê?

Herbert Bartz é produtor rural e precursor do plantio direto no Brasil, e pai de Marie Bartz, bióloga, pesquisadora e professora da Universidade Positivo