Fitossanidade

CAPIM-AMARGOSO, ameaça real nas lavouras de soja

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O glifosato isolado já não assegura mais uma boa dessecação de daninhas como capim-amargoso, buva e pé-de-galinha. No caso do amargoso, herbicidas como trifluralina e S-metalacloro apresentam eficácia no controle do banco de sementes. Mas atenção a todo o manejo

Engenheiros-agrônomos, doutores, José Fernando Jurca Grigolli, pesquisador de proteção de plantas, e Mirian Maristela Kubota Grigolli, assistente de pesquisa, da Fundação MS

O manejo adequado de plantas daninhas na cultura da soja tem se tornado mais desafiador a cada ano. Novos casos de resistência são relatados todos os anos, e os problemas de resistência múltipla, ou seja, resistência de uma planta daninha a mais de um mecanismo de ação de herbicidas assombra o Brasil. Esse cenário mudará quando toda a cadeia da soja começar a tratar o assunto de plantas daninhas de forma consciente novamente. A utilização isolada do glifosato já não garante mais uma boa dessecação. Plantas daninhas resistentes a esse herbicida, como a buva, o capim- -amargoso, o Amaranthus palmeri e o capim-pé-de-galinha já são responsáveis pela utilização de outros herbicidas nas áreas cultivadas com soja no Brasil.

Existe, atualmente, 50 casos de resistência de plantas daninhas a herbicidas no País, e é crescente o número de casos de resistência múltipla a dois ou mais mecanismos de ação (Weed Science, 2018). Todos esses componentes inseridos em um contexto agrícola tornam o manejo de plantas daninhas extremamente complexo, com custos muito elevados em algumas situações.

O capim-amargoso (Digitaria insularis) é uma planta daninha extremamente agressiva e responsável por perdas significativas de produtividade das plantas de soja. Seu impacto no rendimento dos grãos pode ser de 23% em áreas com baixa infestação (1-3 plantas por metro quadrado) e pode atingir 44% de redução na produtividade em áreas com infestação elevada (4-8 plantas por metro quadrado) (Gazziero et al., 2012).

Até capina mecânica — O manejo dessa planta daninha requer planejamento por parte do agricultor. Plantas oriundas de sementes e pequenas são facilmente controladas, geralmente, com apenas uma aplicação de herbicida. Plantas florescidas, entouceiradas e perenizadas são complexas de controlar, sendo necessárias de duas a três aplicações sequenciais, dependendo do caso. Com isso, o custo de controle fica bastante elevado, e a eficácia dos herbicidas, reduzida, a ponto de, em algumas situações, agricultores optarem pela capina mecânica das touceiras de capim-amargoso, o que deve ser acompanhado da retirada da touceira da lavoura para que esta não rebrote na área.

Em áreas com alta infestação de plantas entouceiradas, a roçada mecânica se torna uma excelente ferramenta de controle, de forma que, após a roçada e o rebrote das plantas, deve-se realizar a aplicação dos herbicidas. Essa associação entre controles cultural e químico é fundamental para incrementar a eficácia de controle e reduzir os prejuízos causados pela planta daninha.

Após selecionar a melhor opção para o manejo do capim-amargoso, é essencial atentar às misturas de tanque realizadas. A associação de 2,4-D aos graminicidas (inibidores da ACCase) pode comprometer drasticamente sua eficácia. Quando esses herbicidas são associados, há um antagonismo acentuado, e a expectativa de controle deve ser reduzida. Além das aplicações em pós-emergência das plantas daninhas, é extremamente interessante a utilização de herbicidas pré-emergentes para reduzir a população da planta daninha. Para o capimamargoso, herbicidas como trifluralina e S-metalacloro são opções interessantes e com alta eficácia de controle do banco de sementes.

Por fim, é importante considerar todas as formas possíveis de manejo de plantas daninhas, a fim de obter alta eficácia da estratégia selecionada e manejar adequadamente os problemas de resistência crescentes. Rotação de modos de ação de herbicidas, aumentar a cobertura do solo, controle integrado, monitoramento das áreas e manejo de plantas daninhas durante todo o ano, e não apenas dentro da cultura, são ações essenciais para reduzir os prejuízos causados pelas plantas daninhas e interromper a alta evolução da resistência observada nos últimos anos no Brasil.