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As MULHERES e o futuro do agro

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A terceira edição do Congresso Nacional das Mulheres do Agronegócio, realizado em São Paulo, no mês passado, reuniu mais de 1,5 mil participantes. Apresentações e debates abordaram temas como tecnologia, engajamento feminino, conjuntura política e tendências de mercado

Denise Saueressig
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As grandes questões que impactam o setor dentro e fora das propriedades foram discutidas no 3º Congresso Nacional das Mulheres do Agronegócio (CNMA), realizado nos dias 23 e 24 de outubro, no Transamerica Expo Center, em São Paulo. Mais de 1,5 mil pessoas participaram do evento, que destacou, de maneira especial, a importância da participação crescente do gênero feminino nos processos do campo. O grande tema do congresso deste ano foi “2030 – O Futuro Agora, na Prática”. As práticas de inovação capazes de transformar e aprimorar o agronegócio receberam atenção especial dos debatedores. O diretor-executivo de Inovação e Tecnologia da Embrapa, Cleber Soares, salientou a importância da adoção de novas tecnologias para ampliar a oferta de alimentos sem a necessidade da abertura de áreas para plantio. “Se os produtores adotassem 50% das tecnologias existentes, seria possível mais do que duplicar nossa produção”, observa.

O pesquisador enumerou uma série de técnicas que marcam a evolução da agricultura nas últimas décadas, como o plantio direto, a integração lavoura-pecuária-floresta e a fixação biológica de nitrogênio, e lembrou que o futuro será delineado pelas soluções digitais. A ciência da computação permite, por exemplo, o acesso a diferentes caracteres agronômicos das plantas. “São ferramentas que nos possibilitam escolher o melhor momento de plantio, de fertilização, de irrigação, de colheita. Também ajudam a reduzir perdas, definir o melhor momento de vender a safra. O digital estará presente em todas as atividades econômicas e será a ciência que vai contribuir para alavancar os indicadores de produtividade”, sustenta.

Questões como a mão de obra, a logística, a sustentabilidade e a promoção do agro junto ao público urbano também foram apontadas como desafios importantes do setor no presente e nos próximos anos. O papel das mulheres nesse cenário foi evidenciado pelos palestrantes. O presidente da Cargill no Brasil, Luiz Pretti, revelou que a empresa tem cerca de 10 mil funcionários no País, sendo que 30% são mulheres. Entre os cargos de liderança, 26% são ocupados por elas. “Recentemente, nosso presidente mundial assumiu o compromisso de que, até 2030, 50% do nosso quadro de funcionários no mundo seja composto por mulheres”, informa.

O presidente da John Deere Brasil, Paulo Herrmann, conclui que as mulheres têm uma grande capacidade para identificar, atrair, desenvolver e, sobretudo, reter talentos. “As mulheres podem ajudar muito a trazer os jovens de volta para o campo. Precisamos dessa força para a implementação das inovações tão necessárias nas propriedades”, afirma.

Histórias que inspiram — Durante todo o evento, não faltaram relatos inspiradores de produtoras rurais. Entre elas, Marize Porto, da Fazenda Santa Brígida, de Ipameri/GO. Ela contou como precisou aprender sobre o trabalho na propriedade depois que perdeu o marido em um acidente. Hoje, a fazenda comandada por ela é referência em sistemas de ILPF no Brasil.

De Passo Fundo/RS, a produtora Celi Webber Mattei falou sobre o desafio de conciliar a tradição com a inovação nos negócios da família, que foram iniciados por seu pai. Ela é uma das vencedoras do 1º Prêmio Mulheres do Agro, que foi entregue durante o congresso. A iniciativa da Bayer, em parceria com a Associação Brasileira do Agronegócio (Abag), reconheceu o trabalho inovador e com respeito aos pilares da sustentabilidade de nove produtoras nas categorias pequena, média e grande propriedades.

A produtora Dulce Chiamulera Chiochetta, que também recebeu o troféu, é gestora administrativa do Grupo Morena, em Campo Novo do Parecis/MT. Nas fazendas ocupadas com soja, milho, eucalipto e ILPF, a valorização dos recursos naturais também é prioridade por meio do projeto Sentinelas da Terra, que prevê, entre outras ações, a captação e a utilização da água da chuva. “Trabalhamos para transformar nossos colaboradores em guardiões do meio ambiente”, resume. Outra vencedora do prêmio, a produtora Márcia Piati Bordignon, de Céu Azul/PR, revela que, há dez anos, quando o pai faleceu, deixou o trabalho como professora e foi cuidar da propriedade da família. “Não sabia nada, enfrentei muito preconceito, mas busquei toda informação que podia e, aos poucos, fui aprendendo”, diz. Hoje, Márcia comemora produtividades acima da média e mantém um projeto de correção das curvas de nível para equilibrar o ambiente produtivo e controlar a erosão.

Formação de líderes — Durante o CNMA, a Corteva Agriscience, Divisão Agrícola da DowDuPont, anunciou o lançamento da Academia de Liderança das Mulheres do Agronegócio, iniciativa em parceria com a Fundação Dom Cabral e a Abag. A líder global de Relações Governamentais da empresa, Tiffany Atwell, explica que o projeto brasileiro servirá como um piloto para a implementação posterior em outros países, como Vietnã, Indonésia, Filipinas e África do Sul.

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Vencedoras do 1º Prêmio Mulheres do Agro: nove produtoras foram reconhecidas por iniciativas inovadoras em suas propriedades

A primeira turma será composta por 20 mulheres que participarão do curso que é gratuito e iniciará em fevereiro de 2019. As aulas presenciais e on-line terão como temas liderança, boas práticas agrícolas, ciência política, sustentabilidade, ferramentas digitais e novas formas de governança. A expectativa é de que, em 2020, a academia envolva cerca de 300 mulheres. Outro destaque do evento foi o anúncio do projeto YAMI (Youth Agribusiness Movement International), que reunirá jovens sucessores do agro. No ano que vem, haverá, durante o CNMA, uma arena específica voltada para esse público. A quarta edição do congresso das mulheres já está marcada para os dias 8 e 9 de outubro de 2019.

*A jornalista participou do evento a convite da Corteva Agriscience