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Empresas familiares: diferença entre herdeiros e SUCESSORES

O herdeiro é filho ou filha, legítimo ou natural, que o(a) proprietário(a) possui. Já a sucessão se baseia, pela ordem, num processo de desejo, habilidade e, por fim, direito. A constar: uma empresa familiar é tão complexa quanto cada organização social

Dr. Benami Bacaltchuk, professor da Faculdade de Agronomia e Medicina Veterinária da Universidade de Passo Fundo/RS

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A lucratividade da agropecuária tem se reduzido por fatores como a queda no valor de seus produtos e a alta nas despesas de produção, ou por uma combinação de ambos os fatores. Em função disso, tornou- se capital reduzir as despesas, aumentar os preços dos produtos ou inserir estratégias mais eficazes. Esses objetivos – minimização de custos, aperfeiçoamento de processos e valoração diferenciada dos produtos –, aparentemente simples, são tarefas difíceis em uma atividade complexa como a que envolve as diferentes tarefas agropecuárias. E, nesse cenário, esse fenômeno somente pode ser aliviado por meio de processo de gestão mais eficaz.

Esse procedimento de boa gestão demanda uma visão sistêmica do processo empresarial, independentemente do tamanho e da complexidade dos processos praticados em distintas propriedades. Apesar de simples, essa visão, certamente, tem que considerar que a gestão de qualquer empreendimento tem de estar atenta a aspectos econômicos, estruturais, de mercado e de recursos humanos.

Dessa forma, é imprescindível o seguinte: administrar dinheiro; administrar o uso da infraestrutura de cultivo, de tratamento, de colheita, de beneficiamento, de armazenamento, de processamento e de venda; administrar as demandas e a tendência dos mercados consumidores para onde o produto da “fazenda” está sendo direcionado; e, finalmente, administrar os empregados dos mais distintos estratos dentro da complexidade característica de uma organização produtiva, que envolve, além de empregados, sócios, familiares e, principalmente, potenciais sucessores do empreendimento. É esse contexto que possibilita que sejam apurados os resultados necessários para avaliar o sucesso do negócio.

Sistema de controle — Essa tarefa peculiar da função de controle baseia- -se na identificação e no cômputo de indicadores, que, por sua vez, dependem da coleta e do registro sistemático de dados de natureza financeira, de recursos humanos e de mercados. No que diz respeito a dados financeiros, pode- -se dizer que estes englobam todas as entradas e saídas expressas em dinheiro ou outras formas de pagamento, constituindo o conjunto de receitas e despesas da atividade.

Em termos de estrutura, tem-se a disponibilidade, a manutenção, a habilitação de condutores e a reposição de todas as ferramentas necessárias para pronta utilização em qualquer tempo e local. Se considerarmos os recursos humanos – empregados, colaboradores, sócios e familiares –, deve-se avaliar a satisfação, o conforto, a remuneração, as perspectivas de futuro e a legalidade no uso desses recursos. No que diz respeito a sócios e familiares, é preciso considerar a remuneração por distintas funções, independentemente de ser empregado, proprietário e familiar, mesmo que sejam os sucessores eminentes.

De forma geral, na gestão de alguns empreendimentos – principalmente propriedades de agricultura familiar ou de gestão familiar –, a inexistência de um controle financeiro, de mapa de uso de equipamento, de qualidade de vida e de capacitação de empregados têm sido o “calcanhar de Aquiles” do sistema. Esse contexto é composto por empreendimentos sem livro-caixa, sem dados climáticos, sem dados de produção e produtividade por campos ou parcelas em diferentes anos e espécies, sem informações de análise de solo, de precipitações e temperaturas, em distintas estações e anos de cultivo e, o mais crítico, sem consistência de fornecedores e compradores, ou sem opção de fornecedores ou compradores.

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Bacaltchuk: “Ambos, pais e filhos, precisam se educar para o processo de sucessão, muito antes de ser inevitável, quando o sucessor não estiver pronto”

Nesse universo, faz-se necessária a implantação de sistemas de controle, como simples planilhas de entradas e saídas com colunas que diferenciem custos fixos, custos variáveis, investimentos e prêmios. Uma organização assim, além de mais eficiente, garante o acesso de forma mais rápida e prática do que aquele em que o gestor simplesmente mantém uma pasta ou envelope com todas as notas de compra e venda, ou a famosa gaveta de notas, recibos, bilhetes e manuais que dificilmente serão revisados, comparados ou lidos. Como uma referência positiva, um sistema que pode ser considerado é o oferecido pela Embrapa Gado de Corte, que pode facilmente ser adaptado para qualquer tipo de exploração agropecuária. O sistema está disponível no link http://cloud.cnpgc.embrapa.br/ controlpec/.

Sucessão familiar — Outro tópico bastante complexo do processo de gestão da propriedade rural é o procedimento de sucessão no meio familiar. Culturalmente, os cidadãos brasileiros, independentemente da origem cultural de suas famílias, adotam o princípio legal e socialmente natural de que todos os filhos são herdeiros, mas ser herdeiro e ser sucessor são aspectos totalmente distintos.

Um herdeiro é todo o par, filho ou filha, legítimo ou natural, que um proprietário ou uma proprietária rural por ventura tenha. Esse direito não é contestável com muito sucesso. Todas as pessoas ligadas diretamente ao proprietário/à proprietária são, inquestionavelmente, detentores de direitos iguais sobre o bem ou os bens, independentemente de serem propriedades de produção, de recreação, de residência, ou automóveis de trabalho ou recreação, ou ainda de transporte ou de processos, assim como o total de equipamentos, benfeitorias e produtos dentro do patrimônio de “dono”.

Sucessão, por sua vez, é um processo, primeiro, de desejo, depois, de habilidade e, finalmente, de direito. O sucessor, aparentemente, é erroneamente interpretado como o mais “querido” da família, e o que temos observado é que o prazer de ser o sucessor, às vezes, desaparece muito antes de o fato se tornar necessário. Na verdade, o que estamos observando é que, em grande parte das famílias rurais, os filhos que saem para estudar fora do município onde a propriedade está inserida dificilmente voltam.

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Na gestão dos recursos humanos, como empregados, sócios e familiares, deve-se avaliar a satisfação, o conforto, a remuneração e as perspectivas de futuro

No passado, atribuía-se esse “êxodo” à injustiça social, ao baixo rendimento obtido no processo produtivo ou à substituição do “homem” por máquinas. Hoje, há de se considerar, também, que se produz mais por unidade de área e de empregado do que no passado. Tal fato é justificado pela evolução do conhecimento e pela aplicação de novas tecnologias. No entanto, outros fatores também são importantes para explicar o “êxodo”, como a disponibilidade adequada de educação para os filhos e filhas, o serviço de saúde eficiente e disponível, e, finalmente, o entretenimento como complemento para os aspectos de bem-estar que qualquer membro da sociedade busca. Esses fatores são, Leandro Mariani Mittmann sem sombra de dúvida, os principais causadores da “fuga” do homem do campo.

Mas existe outro fator, bastante mascarado pela ausência de debates entre pais e filhos sobre o assunto e pela dificuldade de pais aceitarem a pretensão inovadora do sucessor: a dificuldade que jovens herdeiros têm de fazer exatamente o que o pai sempre fez, associada ao temor que o pai tem de que mudanças podem destruir todo o esforço que teve para consolidar o que atualmente possui, além da dificuldade que o jovem tem de se ver fazendo a mesma coisa que os pais fizeram e sofrendo as mesmas “dores” que os pais expressaram, seja por obstáculos físicos, financeiros e políticos, seja pela percepção de que há outras maneiras de executar a mesma coisa.

Ambos, pais e filhos, precisam se educar para o processo de sucessão, muito antes de ser inevitável, quando o sucessor não estiver pronto ou não for visto como legítimo pelos outros potenciais sucessores. A sucessão seria menos traumática se, muito antes de o inevitável ocorrer, os pais iniciarem a definição da partilha, da conveniência de manter o patrimônio integrado, ou simplesmente dividindo as parcelas que cabem a cada um. Se a ideia é manter o patrimônio intacto, é indispensável a instauração de uma empresa, um consórcio ou uma sociedade onde cada um tenha clareza de sua função, seus direitos e deveres, devendo cada distinta função ser acompanhada por também distintas remunerações.

Além disso, é importante que fique claro que o comum seria somente o lucro. É preciso prever cláusulas de definição de poder, de destituição da “empresa”, de compra e venda, de benefícios e de oportunidades para futuros beneficiários. Uma empresa familiar é tão complexa quanto cada organização social. Conhecer essa complexidade e sua forma de gestão com definição de atribuições e direitos de todos os diretamente envolvidos é indispensável e urgente.