Integração

Os lugares cativos de MILHO E SORGO na ILP

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As duas culturas são estratégicas na estruturação de sistemas de produção embasados em consorciações e rotações de cultivos no sistema de integração lavoura-pecuária

Engenheiros-agrônomos Miguel Marques Gontijo Neto, pesquisador, Dr., [email protected]; Emerson Borghi, pesquisador, Dr., [email protected]; e Álvaro Vilela de Resende, pesquisador, Dr., [email protected]; Samuel Campos Abreu, analista, [email protected], Embrapa Milho e Sorgo

Frente ao desafio de ampliação da produção de alimentos e fibra via aumentos na produtividade, a utilização das culturas de milho e sorgo em sistemas de produção com integração lavoura- pecuária (ILP) tem se mostrado extremamente viável, do ponto de vista agronômico, econômico e ambiental, no processo de construção da fertilidade dos solos intemperizados e na intensificação sustentável de sistemas de produção convencionais. Nesse processo de intensificação sustentável no âmbito da estratégia ILP, as culturas do milho e do sorgo se destacam como estratégicas por causa das inúmeras aplicações que esses cereais têm dentro da propriedade agrícola, quer seja na alimentação animal na forma de grãos ou de forragem verde ou conservada (rolão, silagem, feno), na alimentação humana ou na geração de receita mediante a comercialização da produção excedente.

Na maior parte do Brasil, onde a pecuária está embasada em áreas de pastagens, muitas delas em degradação, existe a necessidade de conservação de forragens/ alimentos, principalmente para as épocas secas do ano, na quais, por falta de água ou baixas temperaturas, as gramíneas forrageiras não produzem forragem suficiente para alimentação do rebanho. Assim, além da produção de grãos de alto valor energético utilizados na suplementação concentrada, o cultivo de milho ou sorgo pode incrementar a produção de forragem na propriedade, com a geração de silagem, feno, corte verde ou pastejo por meio do semeio consorciado dessas culturas com forrageiras tropicais perenes e, posteriormente, elevando- se a capacidade de suporte das áreas de pastagens recuperadas (após a cultura), disponibilizando essas áreas, com uma pastagem de ótima qualidade nutricional, para pastejo no período crítico do ano (seca).

Na região do Cerrado, é comum a realização das semeaduras de culturas anuais, em safra e/ou safrinha, consorciadas ou não com forrageiras tropicais perenes durante o período chuvoso, garantindo o fornecimento de alimento para os animais na estação seca. Sendo que, de uma maneira geral, as culturas do milho e do sorgo (granífero, forrageiro para silagem ou pastejo/corte/fenação) têm se destacado em consorciações com capins em virtude do rápido crescimento inicial e do porte alto, o que facilita a competição com os outros componentes e, no caso da colheita de grãos, a colheita mecanizada. Soma-se a isso o domínio, por parte dos produtores, das práticas de cultivo e manejo dessas culturas e a existência de um grande número de cultivares comerciais adaptadas às diferentes regiões do Brasil, possibilitando o cultivo desse cereal de Norte a Sul do País.

Nesses consórcios, uma das principais culturas utilizadas na ILP é o milho, em função de sua versatilidade (produção de grãos ou forragem) e pela sua competitividade no consórcio, visto que o porte alto das plantas de milho exerce, depois de estabelecidas, grande pressão de supressão sobre as demais espécies que crescem no mesmo local. Da mesma forma, a altura de inserção da espiga permite que a colheita mecanizada seja realizada sem maiores problemas, pois a regulagem mais alta da plataforma diminui os riscos de embuchamento ocasionados pelo capim. Somando-se isso com a disponibilidade de herbicidas graminicidas pós-emergentes, seletivos ao milho, é possível obter-se resultados excelentes com o consórcio milho + capim.

A cultura do milho possibilita, também, trabalhar com diferentes espaçamentos, sendo que, atualmente, a tendência é reduzir o espaçamento entre as fileiras do milho. Isso vai melhorar a utilização de luz, água e nutrientes, e aumentar a capacidade de competição das plantas de milho. No consórcio com forrageiras, a redução de espaçamento tem, ainda, a vantagem de formar um pasto mais bem estabelecido (fechado), quando as sementes da forrageira são depositadas somente na linha de plantio do milho. A decisão pelo espaçamento do consórcio a ser estabelecido deve levar em conta a disponibilidade das máquinas, tanto para o plantio quanto para a colheita.

No tocante à produção de forragem, as culturas do milho e do sorgo forrageiro, solteiras ou em consórcio com capins, destacam-se em relação a outras culturas para a produção de silagem pelo seu potencial de produzir uma grande quantidade de forragem com alto valor nutritivo, composição que resulta em ótima fermentação no silo, sem grandes necessidades de inoculantes ou aditivos, e produz uma silagem de boa palatabilidade, sendo culturas que produzem uma grande quantidade de energia digestível por unidade de área.

Outra alternativa cultural utilizando a estratégia de consorciação para a produção de forragem é o uso do sorgo para corte e pastejo consorciado com capins no início ou no final do período chuvoso. Na primeira situação, o objetivo é produzir um grande volume de forragem de boa qualidade em curto período de tempo, elevando a disponibilidade de forragem na propriedade em uma época em que as pastagens perenes ainda se encontram em um período de baixo acúmulo de forragem. No caso do semeio no terço final da época das chuvas, visando à produção de forragem de boa qualidade no início do período seco e a formação da pastagem para a safra seguinte.

Sistemas ILP estruturados e a ciclagem de nutrientes — São inquestionáveis os benefícios da utilização das culturas do milho ou sorgo para a recuperação indireta de pastagens, produção de forragem e/ou grãos para entressafra, suplementação concentrada dos animais etc., realizada de forma consorciada ou não com capins em propriedades que possuam atividade pecuária. Entretanto, o grande desafio consiste na utilização das lavouras não apenas em áreas específicas para produção de forragem na propriedade ou esporadicamente em áreas de pastagens, mas utilizá-las em arranjos planejados nas propriedades, adotando de forma sistemática a rotação de pastagem e lavoura.

Assim, além de considerar todas as interações e os benefícios dessa integração de atividades, a maximização do potencial sinérgico entre os componentes do sistema passa impreterivelmente pela rotação de culturas, ou seja, deve acontecer, em todas as glebas da propriedade apta para cultivos anuais, a rotação entre lavoura e pastagens durante um período de, pelo menos, uma safra.

Na Figura 1, a descrição e os resultados da Unidade de Referência Tecnológica em ILP (URT-ILP), implantada na Embrapa Milho e Sorgo. Esta URT é composta por quatro glebas, com 5,5 hectares cada, onde são rotacionadas, anualmente, as atividades para a produção de grãos (soja e milho), silagem (milho e sorgo) e uma área de pastejo. Assim, na primavera/verão, são cultivadas lavouras em três glebas, e a quarta gleba fica para pastejo, com a seguinte ordem: soja – milho + braquiária Piatã – sorgo forrageiro + Mombaça – pastagem Mombaça.

Nesse sistema, os bezerros machos desmamados, de raças especializadas (com diferentes graus de sangue e melhores rendimento de carcaça), entram no início do período das secas, pesando em torno de seis arrobas, e pastejam nas quatros glebas. Na sequência, no período das águas, de setembro a abril, os animais são alocados apenas na gleba de pastagem, que é subdividida em cinco piquetes e manejada sob pastejo rotacionado, enquanto o lote de animais do ano anterior segue para terminação em confinamento.

No confinamento realizado entre junho e novembro de 2015 (150 dias), foram utilizados 47 novilhos contemporâneos, não castrados, com idade média inicial de 16 meses e peso inicial médio de 332,86 quilos. Os animais receberam, diariamente, uma dieta composta, com base na matéria seca, por 35% de silagem de milho, 54% de grãos de milho, 5,2% de grãos de soja e 5,8% de núcleo proteico para confinamento, correspondendo a uma dieta com 13,75% de proteína bruta e 70,91% de NDT. Os animais apresentaram ganhos médios diários de 1,67 quilo/hectare e um consumo de matéria seca de 9,84 quilos/dia, indicando elevado potencial produtivo dos animais especializados e a qualidade da dieta formulada com os ingredientes produzidos na URT-ILP (exceto o núcleo proteico).

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No período das águas, de setembro a abril, os animais são alocados apenas na gleba de pastagem, que é subdividida em cinco piquetes e manejada sob pastejo rotacionado

Com base nos dados de consumos da dieta e desempenho animal observados, foi possível realizar uma análise do balanço de nutrientes (N, P e K) consumido e exportado pelos animais durante o período de confinamento e estimar o potencial de ciclagem de nutrientes que um sistema ILP equilibrado pode auferir. Assim, considerando os teores médios desses nutrientes nos componentes da dieta, o seu consumo pelos animais no período e as concentrações desses nutrientes no corpo dos animais abatidos, pode-se calcular o potencial de ciclagem dos nutrientes (Tabela 1).

Verifica-se que a verticalização da produção ocasionada pela integração da produção animal à produção vegetal, além da diversificação da produção, agregação de valor e dos benefícios edáficos, possibilita o aumento na eficiência de uso de nutrientes e na ciclagem de nutrientes na propriedade, conforme exemplificado.

Com base na Tabela 1, pode-se inferir que o confinamento de 47 animais por um período de 150 dias, utilizando 94,2% da matéria seca da dieta com ingredientes produzidos na propriedade, permitiu uma redução potencial na exportação de nutrientes equivalente a 853 (78,6%), 112,5 (59,2%) e 380,3 (95,2%) quilos de N, P e K, respectivamente, caso esses ingredientes fossem comercializados. Se considerarmos apenas o consumo da silagem e grãos de milho, o potencial de redução de exportação de nutrientes corresponderia a 639,4 (58,9%), 72,7 (38,2%) e 312,5 (78,2%) quilos de N, P e K, respectivamente. Cabe ressaltar que esses cálculos não consideram perdas por volatização e lixiviação, bem como os custos de distribuição dos dejetos nas áreas de produção. Entretanto, permite vislumbrar o elevado potencial de ciclagem de nutrientes que pode ser obtido com a ILP.

Assim, com a adoção da ILP, podese constatar um enorme potencial de evolução na questão dos fluxos e ciclagem de nutrientes nos sistemas de produção. No caso de propriedades especializadas na produção de grãos, normalmente, ocorre grandes fluxos de entradas (corretivos e fertilizantes) e saídas (venda de grãos) de nutrientes (Figura 2-a) Já em propriedades exclusivamente pecuárias, geralmente, observam-se fluxos de entrada e saída de nutrientes pequenos, principalmente em função do baixo uso de fertilizantes e da venda exclusiva de animais e/ou leite (Figura 2-b).

Propriedades com implantação parcial da ILP (Figura 2-c) apresentam entradas e saídas de nutrientes intermediárias, com presença de ciclagem de nutrientes entre os componentes lavoura e pecuária, mas ainda necessitando de aportes de nutrientes para construção da fertilidade química dos solos e início do processo de ciclagem de nutrientes. É possível que possa haver maior reposição de nutrientes ao solo via dejetos para as áreas de cultivo, porém, com saídas de nutrientes ainda significativas, em função da comercialização de excedentes de grãos e/ou forragem (Figura 2-c).

Em outro extremo, há fazendas com ILP otimizado (Figura 2-d), onde busca- se produções agrícolas e animal com base em metas factíveis de serem realizadas através de um planejamento atualizado constantemente, pois, utilizando todas as informações obtidas na fazenda e adotando critérios técnicos e econômicos hoje disponíveis, é possível delinear as entradas e saídas de nutrientes em função da ampliação da ciclagem destes entre os componentes lavoura e pecuária, com a maior parte das receitas advindas da produção animal. Cabe ressaltar que, nesse caso, a expressão “entradas e saídas” é relativa, pois, via de regra, com essa integração de atividades, os índices de produtividade tendem a se elevar significativamente, podendo ocorrer, em números absolutos, entradas e saídas de nutrientes maiores do que em sistemas convencionais de baixa produtividade, notadamente observados em sistemas extensivos de produção pecuária.

Nesse sentido, em sistemas de produção sustentáveis, o manejo adequado de dejetos animais, resíduos e subprodutos agrícolas devem ser considerados como oportunidade de ganhos econômicos (geração de receitas e/ou redução de custos) e de eficiência produtiva. Com bom planejamento da necessidade de forragem, pode-se estimar, mesmo que a depender das condições climáticas, qual o tamanho da área a ser implementado com culturas, a época de consorciação, os custos de implantação e, principalmente, a possibilidade de retorno financeiro pelo excedente produzido reduzindo, assim, a dependência de insumos externos à propriedade.

Nessas premissas, observa-se que a agregação de valor, via produção animal, e a redução dos custos de produção obtidos pelo fornecimento da forragem e grãos produzidos no próprio empreendimento agrícola possibilitados, principalmente, pela ILP serão fundamentais para obtenção de incrementos nas produtividades e lucratividades desses empreendimentos. Assim, buscar o equilíbrio entre áreas destinadas à produção de lavouras e de pastagens, propiciando a rotação de culturas nessas áreas, que otimizem a produção (animal e vegetal) e a lucratividade, resultando em sistemas de produção ILP estruturados e sustentáveis, passa a ser o grande desafio para produtores rurais e técnicos. Nesse cenário, as culturas do milho e do sorgo se apresentam com culturas estratégicas na estruturação de sistemas de produção embasados em consorciações e rotações de cultivos. (Agradecimentos à Associação Rede ILPF, à Fapemig e à Agrisus)