Milho

Transgênicos: uma DÉCADA exitosa de Brasil

Hoje, o cereal modificado já ocupa 85% da área, adoção generalizada pelo produtor visto sua alta eficácia para o controle de lagartas e a redução das aplicações de defensivos. Mas a tecnologia impõe desafios, como a durabilidade dos eventos

Roberto de Rissi, RRissi Consultoria e Treinamentos em Agronegócio

Milho

Nos últimos dez anos, a cultura do milho passou por profundas mudanças no Brasil. Nesse período, o País, terceiro maior produtor, depois de EUA e China, tornou-se, também, o segundo maior exportador do cereal. A Divulgação produção cresceu mais que 90%, e a produtividade, acima de 50%. O milho transgênico aprovado pela Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio) em 2007 e introduzido no mercado na safra 2007/08 desencadeou uma série de mudanças tecnológicas que impactaram positivamente a produção e a produtividade da cultura. A utilização de fungicidas se tornou prática rotineira, o uso de híbridos simples aumentou 50% e a qualidade dos plantios e as práticas culturais evoluíram fortemente. Hoje, os híbridos transgênicos ocupam mais de 85% das lavouras brasileiras e sua taxa de adoção está entre as mais altas do mundo. Outra mudança significativa foi o crescimento do milho safrinha, plantado em sucessão à cultura da soja, que, hoje, é responsável por mais de 70% da produção brasileira de milho.

O milho transgênico teve uma forte e rápida aceitação pelos produtores brasileiros. Em cinco anos, os híbridos transgênicos passaram a ocupar mais de 85% da área pela alta eficácia da tecnologia no controle das lagartas, especialmente da lagarta-do-cartucho (Spodoptera frugiperda), e a simplificação do manejo da cultura com a redução do número de aplicações de inseticidas e o melhor uso dos ativos da propriedade.

Inicialmente, as empresas lançaram, no mercado, os eventos simples, e, posteriormente, a associação de dois ou mais eventos Bts. As empresas usaram essa estratégia não só para aumentar a eficiência do controle da lagarta-do-cartucho, mas, principalmente, para ampliar o espectro de ação contra outras pragas, como a lagarta-da-espiga (Helicoverpa zea), a lagarta-rosca (Agrotis ipsilon), a lagarta-elasmo (Elasmopalpus lignosellus) e a broca-da-cana (Diatraea saccharalis).

Três anos após o lançamento dos híbridos Bts, apareceram os primeiros relatos de quebra de resistência dessas tecnologias. A redução da eficiência da maioria desses eventos no controle da lagarta do cartucho foi devido aos seguintes fatores: 1. Número de gerações por ano para completar seu ciclo de vida. Em algumas regiões, ela pode ter nove gerações por ano; 2. Rápida adoção da tecnologia; 3. Eventos de baixa dose com sobrevivência de heterozigotos; e 4. Baixa adoção do Manejo Integrado de Pragas (MIP). Apesar da perda da eficiência de várias dessas tecnologias, a adoção dos milhos transgênicos continua bastante alta, trazendo vários benefícios e facilidades aos produtores.

A contribuição dos transgênicos para a produção e produtividade do milho no Brasil foi enorme. Desde seu lançamento, em 2007/08, a produção quase dobrou – de, aproximadamente, 51 milhões de toneladas, em 2006/07, para 98 milhões em 2016/17. Nesse mesmo período, a produtividade aumentou mais de 50% – de 3.655 quilos/hectare para 5.560 quilos. Isso ocorreu devido não apenas ao melhor controle dos insetos, mas, principalmente, ao maior uso de tecnologia. Houve uma rápida adoção de híbridos simples com genética superior, melhor qualidade de plantio, adubação, melhores práticas culturais e maior uso de plantadeiras, colheitadeiras e equipamentos mais modernos.

Outra contribuição importante dos híbridos transgênicos foi sua ação sobre os insetos de solos, como a lagarta-rosca e a lagarta-elasmo. O controle mais efetivo desses insetos permitiu um melhor estabelecimento da lavoura e um aumento do número de plantas por hectare. A adoção da soja RR também contribuiu para o aumento da produção do cereal, uma vez que ela tornou viável o sistema de produção soja/milho safrinha. Assim, todo aumento da área plantada com soja tem levado também a um incremento da área de milho. Esse sistema soja verão e milho safrinha tem contribuído também para melhorar a rentabilidade do produtor e a sustentabilidade da agricultura brasileira. Sem a soja e o milho transgênicos, esse sistema de produção, muito provavelmente, não seria possível.

Desafios — Os milhos transgênicos no Brasil enfrentam sérios desafios que, se não forem rapidamente equacionados, poderão impactar negativamente o sistema de produção soja/milho safrinha. O primeiro é em relação ao desenvolvimento de ervas daninhas resistentes ao glifosato. Já há várias espécies resistentes, e a lista continua crescendo. Certamente, isso levará a um aumento no custo de produção e na complexidade do manejo da propriedade.

No caso do Brasil, onde a principal área de plantio de milho ocorre em sucessão à cultura da soja, o uso do mesmo herbicida nas duas culturas não é tecnicamente recomendado e deveria ser evitado. A rotação de princípios ativos nas duas culturas é uma prática que precisa ser adotada. Mais grave ainda é o fato de a maioria das empresas de sementes só ofertarem híbridos Bts associados ao milho RR, não dando a opção de escolha ao produtor. Para os híbridos recomendados para safrinha, as empresas deveriam dar a opção de escolha com e sem RR.

Outra grande preocupação com o milho RR na safrinha é o milho voluntário ou tiguera na cultura da soja. Ele tem criado uma ponte verde e contribuído fortemente para o aumento da população de pragas que transmitem doenças causadas por viroses e molicutes, como o enfezamento. Essa doença tem causado redução de mais de 70% na produção e tornado a cultura inviável em algumas regiões. Nos últimos anos, temos observado uma verdadeira explosão na população da cigarrinha-do-milho (Dalbulus maydis), que vem, rapidamente, se espalhando pelas diversas regiões do Brasil.

Milho

Rissi: desde o lançamento do milho transgênico no Brasil, em 2007/08, a produção quase dobrou, de 51 milhões de toneladas para 98 milhões em 2016/17

Sem dúvida alguma, um dos desafios mais preocupantes é em relação à durabilidade dos eventos. Nas condições ambientais brasileiras, os insetos completam várias gerações por ano, acelerando o tempo de desenvolvimento de resistência. É fundamental que os produtores adotem o MIP, fazendo monitoramento das lavouras, uso de inseticidas e áreas de refúgio.