Sustentabilidade

As FUNDAMENTAIS diversidade de culturas e cobertura de solo

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São múltiplos e permanentes os benefícios ao solo mantido sob cobertura vegetal, sobretudo com diferentes espécies. A exemplo: em local onde a temperatura chegou a mais de 35 °C houve a metade da taxa de fixação do nitrogênio em relação à área com temperatura máxima de 29 °C

Engenheiro-agrônomo, mestre, doutor, Ademir Calegari, pesquisador sênior do Iapar

A adubação verde ou o uso de plantas de cobertura é o emprego de diferentes plantas em rotação, sucessão ou consorciadas a cultivos, com a finalidade de cobrir e proteger a superfície do solo, assim como manter e/ou melhorar os atributos físicos, químicos e biológicos do solo, inclusive a profundidades significativas através dos efeitos das raízes dessas plantas (Calegari & Peñalva, 1994). E os resultados de pesquisa e a experiência de agricultores de diferentes regiões brasileiras, principalmente no Sul, mostram que, para se obter um equilíbrio no sistema de plantio direto, a escolha das culturas na rotação é de fundamental importância no manejo de possíveis organismos indesejáveis no solo (doenças radiculares, pragas, nematoides etc.).

Quando se cultiva por vários anos espécies que são susceptíveis a nematoides, há uma tendência de aumento populacional dos mesmos, podendo causar danos econômicos às culturas comerciais. Geralmente, quando isso ocorre, está associado à degradação do solo. Principalmente com desgaste da parte física, compactação, diminuição de infiltração de água no perfil, degradação biológica, pela diminuição de oxigenação no perfil do solo, diminuindo a microbiota e outros organismos benéficos no solo, assim como desequilíbrio de nutrientes, seja com excesso ou com falta de alguns, assim como baixos teores de cálcio em profundidade, presença de alumínio tóxico, dificultando, assim, o crescimento radicular em maiores profundidades.

a nutrientes e água com diminuição do potencial produtivo das culturas, com isso levando à diminuição dos níveis de matéria orgânica e da biodiversidade do solo, sendo necessário tomar medidas que procurem baixar as populações de nematoides fitoparasitas, para assim tornar viável o plantio de culturas comerciais. Dessa forma, as plantas de cobertura, principalmente as espécies em coquetéis (mix), têm uma grande importância, dentro de estratégias que se associam a outras medidas de manejo, como rotação com outras culturas de baixa susceptibilidade, variedades resistentes etc.

O uso de plantas de cobertura junto à rotação adequada de culturas por meio de um diagnóstico nas diferentes áreas de uma propriedade, tendo- -se em conta o histórico da mesma, além do acompanhamento dos níveis de nutrientes e uma possível ocorrência de praga e/ou doença (nematoides) levará à definição de diferentes sequências de culturas de cobertura (ou mesmo mix ou coquetel de plantas). Assim, se buscará a seleção de plantas não hospedeiras dessas pragas e/ou doenças que contribuam ainda para a adição de matéria orgânica ao solo, reciclagem de nutrientes e efeitos favoráveis às culturas posteriores (soja, milho, feijão, algodão etc.).

Produtores de diferentes regiões têm mostrado ganhos de rendimento de 10% a 40%, ou, em algumas situações, até maiores rendimentos, quando comparados com o não uso de plantas de cobertura, rotação e o sistema plantio direto com qualidade. O que se deve é buscar regionalmente ou até a nível de propriedade, em cada talhão, o seu histórico, um adequado diagnóstico para possíveis definições da(s) espécie(s) a fazer(em) parte do sistema, de forma a aumentar a biodiversidade e promover um melhor equilíbrio nas relações solo/água/planta.

Assim, é preciso “conversar com o solo”, “falar com as plantas” através da análise de solo, das plantas, trincheira para avaliar o perfil do solo, verificar as limitações/desafios que, porventura, estejam limitando o desenvolvimento e melhor performance das plantas e, consequentemente, impedindo o aumento do potencial produtivo das culturas. Dessa forma, com essas informações, é possível, conforme o sistema de produção regional, assim como os interesses do produtor, definir melhor que planta(s) deverá(ão) fazer parte do coquetel a ser implantado em determinado momento, seja na “safrinha” (inverno), consorciado ao milho etc.

Estudos e pesquisas mostram que, independentemente da região, das condições edafoclimáticas ou do tipo de solo ou vegetação predominante, a matéria orgânica do solo (MOS) apresenta uma relação carbono/nitrogênio (C/N) ao redor de 10 a 12. Assim, pode-se concluir que ocorrerá aumento da MOS ou sequestro de carbono orgânico do solo (COS) quando ocorrer um balanço positivo de nitrogênio (N) no solo. Isso significa que, quando a entrada de N líquido no sistema for superior às saídas (através de grãos nas colheitas, forragem, perdas por erosão etc.), o nitrogênio é fundamental para o aumento da MOS e também para o sequestro (captura) do COS (que irá se transformar em húmus no perfil do solo). Além, obviamente da adição de resíduos vegetais, quantidade/qualidade ou orgânicos em geral, assim como da microbiota, que é fundamental para o processo de captura/sequestro de carbono orgânico do solo.

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É sempre um desafio estabelecer esquemas de uso compatível das diferentes espécies com os sistemas de produção específicos de cada região

Gramíneas + leguminosas — Dessa forma, conclui-se que algumas recomendações antigas de que é preciso sempre adicionar gramíneas ou resíduos com alta porcentagem de lignina, celulose e hemicelulose, isoladamente, para aumentar a MOS, não são bem verdade, sendo fundamental adição também de plantas leguminosas no sistema para o balanço positivo de N, para que ocorram os benefícios esperados (aumento de MOS e sequestro do COS) (Urquiaga et al., 2010; Telmo Amado, 2008). Caso o uso exclusivo de gramíneas (pastagens), isoladamente, fosse fundamental para o aumento de matéria orgânica do solo, o continente africano, em sua grande parte ocupado por gramíneas nativas, centenárias, seria de altos teores de matéria orgânica e alta fertilidade, assim como as áreas de pastagens brasileiras, onde estima-se que em torno de 80 a 100 milhões de hectares estão degradados e os teores de matéria orgânica, em geral, muito baixos.

Geralmente, nas condições tropicais e subtropicais, as temperaturas do solo muito elevadas ou muito baixas podem provocar estresse às plantas, com possibilidades de alteração no metabolismo das plantas e consequente diminuição na produtividade. Trabalhos de Graham (1992) relatam que, num local onde a temperatura chegou a mais de 35 °C por várias horas do dia, houve a metade da taxa de fixação do nitrogênio em relação à outra área com temperatura máxima do solo de 29 °C. A presença de resíduos vegetais na superfície do solo reduz as amplitudes térmicas do solo, resultando em condições mais favoráveis ao desenvolvimento das culturas. Esse aspecto é importante em função dos efeitos marcantes que a temperatura do solo exerce na atividade biológica, germinação de sementes, crescimento radicular e absorção de íons.

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A escolha das espécies para a rotação de culturas é de grande importância no manejo de organismos indesejáveis do solo, como os nematoides

No cultivo das plantas de cobertura é de fundamental importância, até para o próprio sucesso da prática, conhecer com profundidade todos os detalhes referentes à espécie e também ao local, as condições edafoclimáticas específicas e os sistemas de produção em curso nos quais serão inseridas essas plantas, bem como as finalidades propostas – suprimento de nitrogênio, descompactação, sequestro/captura de carbono da atmosfera e aumento do carbono orgânico, aumento da biodiversidade com provável diminuição de pragas, doenças/nematoides, controle de invasoras, agregação do solo, infiltração de água etc. Conforme Calegari e Taimo (2006), os nutrientes que são mineralizados através da decomposição dos resíduos vegetais poderão ser aproveitados pelas culturas posteriores em quantidades variáveis conforme os seguintes fatores:

Espécie de planta de cobertura: plantas mais fibrosas (com cadeias de carbono mais longas), com maior teor de ligninas (cadeias carbônicas com maior complexidade) demoram um tempo maior a se decompor no solo, plantas com maior porcentagem de nitrogênio se decompõem mais rápido e liberam os nutrientes no solo, podendo, então, ser absorvidos pelas culturas subsequentes;

Tempo de decomposição: a relação C/N, bem como a quantidade de lignina presente no tecido vegetal, irá governar grande parte do processo de decomposição dos resíduos no solo;

Temperaturas: se forem elevadas, facilitam o aumento de população dos microrganismos do solo e, consequentemente, poderão acelerar o processo de decomposição dos resíduos vegetais no solo;

Umidade do solo: a disponibilidade de água juntamente com temperatura e presença de ar (oxigênio) é fundamental no aumento dos microrganismos e decomposição dos resíduos no solo;

Manejo do solo: ao ser revolvido por tratores, grades, o solo irá misturar os resíduos na camada superficial, acelerando o processo de decomposição dos resíduos presentes;

Fertilidade do solo: aspectos químicos, físicos e biológicos;

Maior teor de matéria orgânica: geralmente, está associado a um incremento biológico no solo, principalmente os micro-organismos, elevado teor de nutrientes, melhor aeração (sem problemas de compactação), maior acúmulo de umidade. Temperaturas elevadas tendem a acelerar a decomposição dos resíduos no solo, e, assim, esses fatores têm influência direta na disponibilidade dos nutrientes às culturas subsequentes.

Espécies — Geralmente, na definição das espécies de cobertura, primeiramente, é preciso um bom diagnóstico da área onde será implementado o uso das plantas. Dessa forma, é preciso considerar a região em questão, a ocorrência de chuvas, as temperaturas, os sistemas de produção em marcha, os intervalos disponíveis entre as culturas comer-ciais, analisar o tipo de solo em questão, o nível de fertilidade química, se possui adensamento ou compactação (caso haja, apurar se é leve ou média), se um solo com alto índice de desagregação das partículas. Verificar, ainda, se existem problemas com fungos de solos – Rhizoctonia sp., Fusarium sp, murcha de sclerotium (Sclerotium rolfsii) etc. Ou se essa área apresenta altas populações de nematoides, de galhas, de lesões, Meloydogine sp., Pratylenchus sp. etc., para que, de posse de todas essas informações, se possa definir qual(is) a(s) melhor(s) espécie(s) a ser(em) introduzida(s) na área.

Em diversas situações, a combinação de duas, três ou várias espécies de diferentes famílias – gramíneas, leguminosas, crucíferas ou outras – pode ser a melhor alternativa para o aumento da biodiversidade na área, aumento da população de organismos antagônicos e, com maior equilíbrio, o solo e as culturas terão condições favoráveis para expor seu potencial produtivo. Os efeitos dessas plantas têm demonstrado grande potencial na proteção e na recuperação da produtividade do solo. Apesar disso, um constante desafio é estabelecer esquemas de uso compatível das diferentes espécies com os sistemas de produção específicos de cada região. E, se possível, nos diversos e variáveis talhões da propriedade, levando em consideração os aspectos ligados ao clima, ao solo, à infraestrutura da propriedade e às condições socioeconômicas do agricultor.

E a matéria orgânica? — Geralmente, a maioria dos solos brasileiros apresenta, originalmente, baixa capacidade de troca de cátions (CTC), o que indubitavelmente repercute em baixa fertilidade natural. Assim, nessas condições, o coloide da matéria orgânica, por ter uma CTC de alta atividade, desempenha um papel fundamental no sentido de contribuir para o aumento da CTC do solo e, consequentemente, promover uma maior capacidade de aumento do nível de fertilidade química do solo. Além disso, grandes montantes dos nutrientes são protegidos no solo ao formarem complexos com a matéria orgânica, podendo ser paulatinamente disponibilizados. Isso com menores riscos de serem fixados por alumínio ou manganês, como é o caso do fósforo, ou, ainda, serem perdidos por lixiviação, como é o caso de potássio, nitrogênio e outros, e aproveitados mais facilmente pelas raízes das culturas em desenvolvimento.