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Sistema Gravataí: feijão-caupi + braquiária = “BOI-SAFRINHA”

Sistema desenvolvido pela Embrapa em Itiquira/MT deve ser implantado após a safra e é indicado para áreas de Cerrado com solos de textura média e/ou argilosa. Pesquisadores consideram os resultados “promissores e convincentes”

Flávio Jesus Wruck, Orlando Lúcio de Oliveira Junior e Gabriel Rezende Faria, da Embrapa Agrossilvipastoril; Edicarlos Damacena de Souza e Francine Damian da Silva, da UFMT, de Rondonópolis/MT

Com a necessidade de encontrar uma solução para incrementar o aporte de nitrogênio no sistema integração lavoura-pecuária (ILP), produzir forragem de boa qualidade e em quantidade suficiente para os bovinos, garantir rápido arranque inicial e uma rebrota satisfatória após o início das chuvas, formando palhada para a semeadura direta do arroz de terras altas na sequência, surgiu a ideia de consorciar feijão-caupi com braquiária na safrinha de 2011. Após essa experiência exitosa, a tecnologia passou a ser estudada e validada na Fazenda Gravataí, em Itiquira/MT, em outra Unidade de Referência Tecnológica (URT) de integração lavoura-pecuária-floresta (ILPF), por meio da parceria entre Embrapa, UFMT Campus Rondonópolis, Associação Rede ILPF e Gravataí Agro.

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Gado entrando na pastagem: o sistema é uma tecnologia especificamente na modalidade “boi-safrinha”, consórcio do feijão-caupi com gramíneas do gênero Brachiaria

Assim, em junho de 2018, foi lançado o Sistema Gravataí, definido como uma das tecnologias disponíveis para a ILP, especificamente na modalidade “boi-safrinha”, caracterizado pelo consórcio do feijão-caupi (Vigna unguiculata) com gramíneas do gênero Brachiaria, como B. ruziziensis e B. brizantha Cvs. BRS Paiaguás e BRS Piatã.

Sumariamente, os principais objetivos da tecnologia são:

a) viabilizar, agro e economicamente, um consórcio sustentável entre gramínea e leguminosa para formação de pastagens de safrinha (ILP) ou para plantas de cobertura e adubação verde nos sistemas de plantio direto (SPD) em solos de textura média e/ou argilosa do Cerrado brasileiro;

b) produzir forragem em grande quantidade (mais que 4 toneladas/hectare de matéria seca) com elevado teor de proteína bruta (> 15%) no período da seca para as condições do Cerrado;

c) contribuir para a construção do perfil do solo por meio da melhoria dos seus atributos físicos, químicos e microbiológicos;

d) viabilizar um cultivo precedente e responsivo para as culturas da soja e do arroz de terras altas no sistema de plantio direto.

O Sistema Gravataí é indicado para áreas de Cerrado, com solos de textura média e/ou argilosa. Deve ser implantado após a colheita da lavoura na safra, como um precedente para a safra seguinte, basicamente, de três formas:1. Implantação do consórcio simultâneo, utilizando uma semeadora que contenha a terceira caixa para as forrageiras ou uma distribuidora de sementes independente acoplada a ela, ou, ainda, a mistura das sementes de braquiárias com o adubo;

2. Implantação do consórcio com duas operações (consecutivas) de semeaduras diretas em linha. Na primeira etapa, semeia-se o feijão-caupi, e, na segunda, a braquiária;

3. Implantação do consórcio com duas operações, primeiro com a semeadura a lanço da braquiária e, logo em seguida, a semeadura na linha do feijão-caupi. O revolvimento do solo decorrente da semeadura do caupi é suficiente para encobrir as sementes da braquiária e viabilizar a germinação, desde que não falte chuvas neste período.

Em todas as situações, o feijão-caupi deve ser semeado em linhas, espaça das de 45 a 50 centímetros entre si, numa taxa de semeadura de seis sementes/ metro linear, visando a uma população final em torno de 100 mil plantas por hectare. Já para as braquiárias, quando semeadas em linhas, preferencialmente espaçadas de 25 centímetros, a taxa de semeadura deverá ser entre 350 a 550 Ponto de Valor Cultural – PVC/ hectare (3,5 a 5,5 quilos/hectare de sementes puras e viáveis). Quando semeadas a lanço, por sua vez, entre 600 a 800 PVC/hectare (seis a oito quilos/ hectare de sementes puras e viáveis).

Para as condições de Cerrado, em anos normais de distribuição pluviométrica, espera-se que o consórcio esteja em condições de pastejo entre 45 a 50 dias após sua implantação. O monitoramento e o controle de pragas, sobretudo da vaquinha (Diabrotica speciosa) e dos pulgões (Aphis sp.), devem ser feitos nas três primeiras semanas após a emergência do consórcio.

Atributos físicos, químicos e microbiológicos — Após quatro anos agrícolas de experimentações na Fazenda Gravataí, os consórcios de braquiárias (B. ruziziensis, B. brizantha Cvs. BRS Paiaguás e BRS Piatã) com o feijão-caupi (BRS Tumucumaque) apresentaram efeitos benéficos e relevantes nos atributos físicos, químicos e microbiológicos do solo. Com relação aos atributos físicos, o Sistema Gravataí proporcionou redução significativa na resistência à penetração e na densidade do solo, notadamente na camada entre zero e dez centímetros de profundidade.

O aumento da matéria orgânica, refletido pelo incremento do carbono orgânico total e do nitrogênio total (Tabela 1), foi o principal benefício do Sistema Gravataí aos atributos químicos do solo. Além da redução do coeficiente metabólico, medida indireta do estresse do meio para a microbiota do solo, outro efeito principal sobre os atributos microbiológicos do solo pelo Sistema Gravataí foi o aumento da sua microbiota, refletido pelo incremento do carbono e do nitrogênio da biomassa microbiana (Tabela 1).

A melhoria dos atributos físicos, químicos e microbiológicos do solo, pela utilização do Sistema Gravataí, impactou positivamente nos desempenhos da pecuária e da soja. Apesar da massa de forragem não ter incrementado, sua qualidade foi superior no Sistema Gravataí.

Ou seja, apresentou maior teor de proteína bruta ao longo do período seco (Tabela 2). Esse fato permitiu maior produção de carne, notadamente no consórcio com a B. ruziziensis (Tabela 3), no qual, por exemplo, em 2017, o Sistema Gravataí produziu 5,19 arrobas/hectare, ante apenas 3,87 da braquiária solteira, caracterizando um incremento de 1,32 @ em apenas 90 dias de pastejo.

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O Sistema Gravataí é muito importante para ajudar na descompactação do solo e para a fixação do nitrogênio por meio do feijão-caupi

O desempenho da soja foi impactado positivamente pelo Sistema Gravataí nos três anos agrícolas avaliados. Já no primeiro ano, sob condições pluviométricas atípicas para a região, na média dos consórcios, o Sistema Gravataí incrementou um pouco mais de seis sacas/hectare quando comparada com as braquiárias solteiras. Já no acumulativo dos três anos agrícolas, na média dos consórcios, o Sistema

Gravataí incrementou um pouco mais de 20 sacas/hectare quando comparado com as braquiárias solteiras (Tabela 3).

Tais resultados tão promissores e convincentes fizeram com que, na safrinha de 2018, mesmo antes da tecnologia ter sido lançada oficialmente, diversos produtores rurais que estavam acompanhando os estudos já se antecipassem e implantassem o sistema em suas propriedades rurais. Assim, a ousadia da própria Gravataí Agro, que expandiu a implantação para outras áreas da fazenda, e de Jorge Schinoca, no Sul do Mato Grosso, bem como a de Ovídio Galina (Fazenda Agrolina) e Invaldo Weis (Fazenda Esperança), no Médio-Norte, fizeram com que essa tecnologia fosse validade em quase mil hectares antes do seu lançamento oficial.