Agricultura 4.0

BRASIL & CANADÁ

Agricultura

Carlos Otoboni

Sem dúvida alguma, o Canadá é um dos melhores países para se viver no mundo, com um dos maiores índices de desenvolvimento humano (IDH) do planeta. Todavia, acredito que muitos desconheçam que a agricultura tem sido a força econômica vital desse país ao longo do tempo. Segundo dados do governo canadense, lá, existem 480 mil fazendeiros, que produzem, principalmente, grãos, frutas, legumes, madeira, carnes e leite. Somente a área plantada com trigo, na região das pradarias, chega a 14 milhões de hectares, que produzem cerca de 36 milhões de toneladas desse grão. O Canadá possui o segundo maior território do mundo, e estima-se que existam 70 milhões de hectares agricultáveis. Juntamente com a forte indústria alimentícia, o agronegócio canadense responde por mais de 8% do seu PIB.

Estima-se, também, que mais de 500 empresas já estejam estabelecidas neste mercado bilateral, contudo, são aquelas grandes e que utilizam programas próprios ou governamentais para isso. Através da iniciativa de brasileiros que vivem no Canadá, recentemente, foi constituída a Federation of Canadian-Brazilian Businesses – FCBB (www.fcbb.org), que visa atender e facilitar relações comerciais e tecnológicas de pequenas e médias empresas entre os países. Como exemplo, se você é um produtor de café gourmet ou um pequeno empresário e deseja iniciar um processo de exportação/importação ou estabelecimento do seu negócio naquele país, essa organização pode lhe ajudar a se conectar com as instituições que vão permitir que você atinja seu objetivo.

Acredito que os leitores já ouviram falar em duas empresas canadenses que já operam fortemente na nossa agricultura, a Novatel e a Farmers Edge. Ambas são importantes parceiras da Fatec Shunji Nishimura, sendo a Novatel fabricante de receptores GPS (GNSS) e computadores de bordo de máquinas agrícolas, fornecedora para várias empresas de máquinas agrícolas nacionais bem conhecidas. A Farmers Edge atua, principalmente, na área de agricultura de precisão e é, atualmente, uma das maiores empregadoras de nossos ex-alunos.

É importante mencionar, ainda, que já há, na agenda dos governos do Canadá e do Brasil, o interesse no desenvolvimento conjunto de tecnologias, que está representado num acordo bilateral, criado em 2012, do Comitê de Cooperação para a Ciência, Tecnologia e Inovação. Esse comitê agrega várias instituições de amparo à pesquisa e ao desenvolvimento de tecnologias em ambos os países e tem um plano de ação focado na pesquisa, no desenvolvimento e na comercialização de projetos conjuntos nas áreas de biotecnologia e ciências da vida, tecnologia de comunicação, energias limpas, tecnologias verdes e dos oceanos, e nanotecnologia. Há, ainda, vários projetos em desenvolvimento em regiões como Ottawa e Waterloo de tecnologias voltadas para a agricultura com foco em produtividade e desenvolvimento de culturas em ambientes controlados, sem uso de defensivos. Esses desenvolvimentos podem ser de grande valia para a nossa agricultura, por isso, é de suma importância manter o foco dos ministérios da Agricultura e da Ciência e Tecnologia nessa cooperação, criando oportunidades de intercâmbio entre esses países.

Com efeito, o Canadá possui uma das maiores empresas da área aeroespacial, a Bombardier, que, recentemente, associou- se à Airbus em um de seus programas comerciais, possibilitando ao país tornar-se a quinta casa da companhia no mundo. A Airbus, além de ser grande produtora de aeronaves como a Bombardier, participa de inúmeros programas espaciais (satélites) ao redor do mundo, como o programa Sentinel, por exemplo, que utilizo rotineiramente em estudos nematológicos e que pode trazer inúmeras outras aplicações para a agricultura brasileira no monitoramento e na digitalização dos campos de produção. Além desse programa europeu, fazem parte da constelação de satélites da Airbus, por exemplo, Pléiades Neo, Pléiades 1A,1B, KazEOsat-1, Triple Sat, Spot 6/7, TerraSAR-X, TamDEM-X e PAZ. Alguns destes, destaquei em texto anterior e despertam bastante interesse para a agricultura brasileira.

Com dados de um grande país agrícola, o Canadá apresenta boas oportunidades bilaterais de negócio, uma vez que temos muitos produtos que eles não possuem para alimentar sua forte agroindústria, por exemplo, e eles, certos produtos e tecnologias que desejamos

Engenheiro-agrônomo, mestre e doutor em Produção Vegetal, pesquisador em Nematologia Agrícola e de Precisão em Proteção de Plantas, professor e diretor da Fatec Shunji Nishimura