O Segredo de Quem Faz

O CAPRICHO e a braquiária fazem uma soja campeã

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Leandro Mariani Mittmann
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Até bem pouco tempo atrás, o médico-veterinário e pecuarista Raul Santos Costa Neto, 40 anos, nunca tinha colocado um grão de soja nas mãos. Hoje, apenas cinco safras depois de investir na oleaginosa, ele é o campeão da fase Centro-Oeste do Desafio Máxima Produtividade Nacional de Soja, concurso promovido pelo Comitê Estratégico Soja Brasil (Cesb). Ele e sua equipe – Costa Neto faz questão de registrar a importância dos funcionários que eram vaqueiros e, hoje, pilotam tratores. Todos, incluindo ele, recentemente, eram exclusivamente da pecuária. Neto e bisneto de pecuarista, Costa Neto descreve a seguir como e por que ganhou a concorrida competição e colhe uma média de 70 sacas de soja em 1.500 hectares em Poconé/MT. A seguir, uma aula de integração lavoura-pecuária (ILP).

A Granja – Por que o investimento em soja, uma atividade tão diferente da pecuária?

Raul Santos Costa Neto – Esta história toda começa seis, sete anos atrás. A propriedade onde eu trabalhava foi vendida pelo proprietário. A fazenda, que tinha a parte de melhoramento, foi vendida junto com o gado. O proprietário e eu saímos em busca de uma outra fazenda para continuar o negócio de pecuária e o que quer que seja. Encontrei esta propriedade, por coincidência, em Poconé/ MT, município da minha família, onde era uma usina de cana, mas a fazenda não era de cana, e sim uma pastagem degradada, e ali vislumbrei a possibilidade de trabalhar com soja, porque já era uma área de valor por hectare elevado para os padrões da região e da época, e propícia para a agricultura. E eu tinha que justificar essa compra com o dono fazendo com que a terra se valorizasse mais e coubesse aquele investimento. E isso com pecuária não seria possível. Montei o projeto, que, num primeiro momento, era de recuperação das pastagens com agricultura, com soja, e tendo a pecuária como ator principal. A soja seria uma segunda alternativa, ficaria em segundo plano. Já no primeiro ano de lavoura, consegui enxergar que a gente deixaria a pecuária de lado – “de lado”. Inverteria essa posição: a soja estaria em primeiro plano, e a pecuária, em segundo. E passamos a fazer a integração lavoura-pecuária, plantando a soja, colhendo, plantando a braquiária e podendo utilizá-la durante a safrinha. Então, a partir daí, a agricultura, a soja, passou a ser a safra principal, e o que hoje chamamos de “safrinha”, para nós, é a pecuária. Temos a oportunidade de engordar e recriar animais, engordar vaca que vem do Pantanal, arrendar espaços a outras pessoas. Enfim, as oportunidades a partir do momento em que tiramos as cercas da fazenda aumentaram muito. E aquele primeiro pensamento meu, que era agregar valor à terra, aconteceu. Praticamente quadriplicamos o valor do hectare, e o objetivo foi realizado. Dentro desse período de seis anos, passamos alguns problemas com o dono da fazenda, e, por fim, eu, há dois anos e meio, terminei arrendando a fazenda, depois de 15 anos trabalhando junto com ele, e “toco” o projeto junto com um vizinho, ajudando-nos mutuamente.

A Granja – E como foi o início com a soja? Quais foram as maiores dificuldades?

Costa Neto – Algumas dificuldades, principalmente, em torno da mão de obra. Mas confesso que foram dificuldades boas, que, no fim, tivemos grandes surpresas. A região toda é de pecuária, os nossos funcionários eram antigos, que vinham da pecuária Eu, da mesma forma que eles, vim da pecuária também. Nessa época, quando recebemos o primeiro lote de sementes para plantar, foi a primeira vez que coloquei um grão de soja na minha mão. A minha maior satisfação foi ter conseguido formar os colaboradores que vieram da pecuária, vaqueiros que, junto comigo, compraram a ideia de fazer a agricultura, de trazê-los comigo, e eles acreditaram na ideia de a gente poder e fazer uma agricultura. Isso, para mim, foi o principal de tudo. Foi a maior das dificuldades e a maior das vitórias que tivemos até hoje.

Foi trazer o pessoal, e, hoje, é um pessoal comprometido. Eles trabalham muito, como faziam na pecuária. Hoje, estão envolvidos com todas as tecnologias que se imagina: tratores com piloto automático, com programa de gestão dentro das máquinas, a tecnologia embarcada das máquinas é absurda. E eles estão lá, como sempre, e como eu, aprendendo a cada dia um pouco mais. Eles também têm muita responsabilidade por todo esse sucesso, por terem aceitado o desafio de aprender, assim como eu. Tem funcionário que praticamente só lê o nome, poucas palavras, e, hoje, é um grande operador de máquinas. Isso foi uma grande vitória para eles e para a gente também. Tivemos outras dificuldades, mais comuns para a região, que é nova, iniciou o plantio da soja sete anos atrás, tinha pouca experiência em lavoura na região. “Pouca” estou sendo bondoso; não tinha nada, na verdade. Tínhamos dificuldades em escolher cultivares.

A partir do plantio do primeiro para o segundo ano, podemos observar uma pressão... Os próprios técnicos e agrônomos que vinham prestar assistência percebiam também uma expressão de lagartas muito grande na região. O calor na região é diferente, é muito quente aqui na baixada cuiabana, e, depois, chegamos à conclusão que favorecia a proliferação, acelerava o ciclo de reprodução da lagarta. E essa alta temperatura, muitas vezes, prejudicava aquela planta de soja recém-germinada. Podemos observar, depois, que, com a braquiária fazendo uma palhada de cobertura, esses problemas seriam resolvidos. Mais uma vez, foi uma surpresa. A gente estava fazendo a braquiária para o gado, para melhorar a pecuária, e, a partir deste momento, pudemos observar e traçar uma outra meta: passamos a fazer braquiária para a soja, para o perfil de solo, cobertura de solo, e isso mostrou muitas coisas diferentes que podemos trabalhar, como a construção de um solo fértil, principalmente, com a braquiária. A região é de baixa altitude, 160, 170 metros, um regime de chuva um pouco restrito, de 1.000 a 1.100 milímetros de chuva ao ano, concentrados de novembro a março. Isso nos impede de fazer uma safrinha de milho ou qualquer outra cultura após a soja. Conseguimos a braquiária que, no final das contas, é a salvação da lavoura, que faz com que a gente tenha excelentes produtividades na região.

A Granja – Que dicas, orientações e conselhos você daria a outros pecuaristas que estão querendo investir em soja?

Costa Neto – Boa pergunta. Acho que é muito importante trabalhar a integração lavoura- pecuária em fazendas, principalmente de pecuária, hoje em dia. Sei que existe uma grande dificuldade para o pecuarista trabalhar com a agricultura devido ao tamanho do investimento e as dificuldades em si, que não são fáceis de ser superadas. É um pouco mais trabalhoso, apenas, mas dá para vencer. O que eu diria é que comece com pequenas áreas. Sei lá, pegue 30% da fazenda, um terço, e comece a fazer. Se tiver a oportunidade de ter na região pessoas experientes, vizinhos, procure parcerias com esse pessoal. Se não quiser fazer um investimento grande, se não tiver disponibilidade em fazer esse investimento em maquinário, procure parcerias com esse pessoal já experiente no negócio. Faça bons contratos. Numa última alternativa, se a pessoa diz “não quero, não é o meu perfil, não vou conseguir fazer, não vou me dar bem com um parceiro, com um sócio”, acho que não pode descartar a ideia de arrendar essa terra, porque a agricultura é fundamental hoje em dia para a pecuária. Os dois temas têm que andar juntos, um completa o outro. Então, a alternativa seria arrendar a parte da propriedade para pessoas que têm experiência. Procure não arrendar toda a área, mas um terço da área. E rotacione esse um terço a cada quatro, cinco anos. E, quando você menos espera, tem toda a sua fazenda recuperada, uma grande valorização da área, um tremendo incremento de fertilidade no solo, os pastos passam a se recuperar com muito mais facilidade, se fica menos dependente de chuva em função da fertilidade, principalmente do nitrogênio que a soja deixa para trás, a capacidade de reter nitrogênio no solo. É uma atividade que não tem como não andar junto com a pecuária. E vai indo, e a pessoa toma gosto, e acho difícil não conseguir se envolver numa atividade tão gostosa como a agricultura.

A Granja – Quais são seus retornos técnicos e econômicos com a ILP?

Costa Neto – A nossa ideia primária era plantar soja para recuperar pastagem para a pecuária. E aprendemos ali com as dificuldades da região, o déficit hídrico, as altas temperaturas durante o dia e à noite também que, no fim das contas, a braquiária é para a soja, é para o solo na realidade. Quando a gente protege um solo, consegue manter esse solo coberto o ano todo, é como se tivesse um solo embaixo de uma mata nativa, onde se encontra toda essa camada inferior do solo em harmonia, com presença de minhocas e outros seres que não se pode enxergar a olho nu, mas que você sabe que estão todos ali, em harmonia, em função do excelente ambiente criado naquele microclima que tem embaixo da palhada de braquiária. As raízes da braquiária promovem um crescimento esplendoroso para baixo. Cavoucamos, neste ano, uma trincheira para poder observar a profundidade da raiz e chegamos a quatro metros com muita raiz de braquiária. O que significa isso? A braquiária está promovendo um papel do arado natural, fazendo um afrouxamento do solo nas camadas mais profundas, o que proporciona reter uma quantidade de água melhor e maior. E tudo isso volta em benefício da soja. Quando se fala em análise de solo, temos observado que estamos progredindo a passos largos, principalmente quando vamos atrás de matéria orgânica. Partimos de 1,3%, 1,4% de matéria orgânica no solo e, hoje, estamos girando em torno de 2,8%, e tem talhões com 4,5%. É muita coisa para pouco tempo de agricultura. O caminho é esse, não temos dúvida. Procurar manter esse trabalho com a integração e a braquiária tem um papel fundamental ali dentro.

A Granja – Qual é o custo de produção e a rentabilidade?

Costa Neto – Nosso custo de produção não é dos mais baratos. Investimos muito em tecnologia buscando alta produtividade, principalmente em função de não poder fazer a safrinha de milho. Isso foi um conceito que tivemos lá atrás em tentar produzir mais, porque a gente não faria o milho. Não é um dos melhores conceitos, mas continuamos aplicando ele, porque estamos tendo resposta em produtividade. Então trabalhamos com produtos de primeira linha, fazemos uma agricultura de alto investimento, sim. Uma adubação elevada para a região, mas elevada sob recomendação. Não estou colocando adubo ali de qualquer forma. Todos os anos, fazemos coletas de solo em grid, trabalhamos com agricultura de precisão. Colocamos no solo o que o solo precisa, sempre pensando em altas produtividades. Então, toda a recomendação de adubação é para uma produtividade média de 80 sacas/ hectare. Colocamos muito, porque, quando se produz muito, essa soja produzida extraiu do solo. Com este conceito, hoje, estamos com 55 a 56 sacas de custo total por hectare, incluindo arrendamento e tudo o mais, custo direto da lavoura com a fazenda em si. A pecuária nos dá algo em torno mais 2 sacas, 2,3 sacas, a um custo de implantação de meia saca, que seria a semente da braquiária, que plantamos todo o ano. Então ficaria, líquido, 2 sacas para a pecuária. No ano passado, por exemplo, fechamos em média com 70 sacas/ hectare de colheita de soja. Foi uma produtividade muito boa, o ano favoreceu, foi chuvoso, tudo mais, mas esperamos melhorar. Aí dentro sobra, aparentemente, uma margem de 15 sacas. Saímos de 40 sacas/hectare e estamos sempre em crescimento de produtividade – de 40 para 56, de 56 para 64 e, na quarta safra, batemos em 70 sacas de média. Esperamos, na quinta safra, a 2018/19, superar essa média, porque os custos estão sempre ali atrás, não param de aumentar, os custos dos insumos sobem a cada ano.

A Granja – O que justifica a premiação do Cesb após tão pouco tempo?

Costa Neto – Essa história toda começa na safra 2016/17, em fevereiro de 2017. Todo o ano, fazemos um dia de campo junto com a AgroAmazônia, que é a empresa que trabalhamos com a compra dos insumos, para promover a agricultura de região, como é a região, mostrar o que estamos fazendo. Em 2017, tivemos uma grata satisfação de conseguir trazer na fazenda o Dirceu Gassen, falecido recentemente. Esse cara foi um grande professor para a gente. Tive a oportunidade de passar quatro dias na fazenda com ele, e ele fez questão de vir dois dias antes do dia de campo para conhecer a fazenda sobre o que ele iria falar e se cabia dentro da propriedade.

Tivemos uma verdadeira faculdade dentro desses quatro dias, tanto eu como meus funcionários. Ele foi a pessoa que falou “se você tivesse toda a sua área plantada deste jeito aqui”, mostrando uma linha de soja em um plantio perfeito, “seria campeão do Cesb deste ano, superaria as 149 sacas/hectare do campeão da safra 2016/17”, que era do Paraná. “Só falta um pouquinho mais de capricho para vocês”, foram as palavras dele. E essa história do capricho a gente sempre trouxe com a gente, desde o primeiro ano. É uma coisa que vem de mim mesmo, de quando eu trabalhava com o melhoramento genético, aquele capricho de trabalhar com o acasalamento, achar o melhor touro com as melhores características para aquela vaca, para complementar as deficiências do animal. Isso eu procurei passar para a agricultura, e meus colaboradores também. A partir do momento em que ele esteve na fazenda conversando, mostrando que tínhamos todas as condições de participar do Cesb e obter um bom resultado, não vou dizer ganhar o Cesb. Víamos que tínhamos excelente produtividade, mas, sinceramente, eu não enxergava (a primeira colocação). A partir da visita dele, passamos a enxergar, principalmente, onde estávamos falhando, na parte humana, em nós mesmos. A gente caprichava, mas faltava ainda mais capricho, faltava trabalhar um tanto mais com paixão, que era o mote principal do Dirceu Gassen. Já trabalhávamos o plantio em baixa velocidade, continuamos, no ano seguinte, limitando o plantio a quatro quilômetros por hora, caprichando mais na regulagem das plantadeiras, melhorando a dessecação da braquiária, pois uma dificuldade que temos é o plantio em cima da palha. Foram pontos pequenos de melhorias em caprichos que, no somatório final, nos levaram ao resultado de 100,4 sacas de soja/hectare, e ficamos em primeiro lugar no Centro-Oeste.