Trigo

Ações para aumentar a RENTABILIDADE

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Definição da mais indicada classe a ser cultivada ou de variedades desejadas nos mercados externos, plantio de cultivares de duplo propósito e racionalização em insumos. Essas atitudes podem levar o produtor de trigo a lucrar com a cultura que costuma ter cotações baixas

Eduardo Caierão, João Leonardo Pires e Mércio Luiz Strieder, pesquisadores da Embrapa Trigo

Arentabilidade do trigo e de outros cereais de inverno, desconsiderando aspectos de comercialização, está associada aos componentes genético e de manejo das lavouras. Sob o aspecto de sistema de produção, a área total dos cereais de inverno é pouco expressiva em relação à área cultivada no verão. Essa baixa ocupação de culturas de inverno para grãos, associada à pequena proporção de milho cultivado no verão em relação à soja, fragiliza o sistema de rotação de culturas, com reflexo na estruturação física e química do solo e, consequentemente, no potencial de rendimento de grãos das culturas de inverno. Diferentemente da soja, que ainda tem apresentado margens de rentabilidade consideráveis (não se sabe por quanto tempo), a cultura do trigo não tem margem significativa de rentabilidade e, por consequência, a escolha da melhor genética em associação ao melhor manejo em cada região e sistema produtivo é critério indispensável para que o retorno seja positivo.

O aumento do rendimento de grãos do trigo é uma missão sempre perseguida pela pesquisa e pelo setor produtivo visando à maior rentabilidade. Em relação à disponibilidade genética para alcançar altos rendimentos não se tem dúvida que as cultivares disponíveis hoje apresentam potencial muito mais elevado em relação ao que é obtido pela maioria dos produtores (veja gráfico). Algumas regiões/produtores têm conseguido reduzir essa diferença, mas isso mostra que a questão de potencial genético não seria o limitante atualmente. Para trigo, existem algumas estratégias que podem ser utilizadas visando à rentabilidade da lavoura, e todas elas estão focadas no maior retorno econômico e/ou maior liquidez do produto final, que partem da melhor estratégia de associação da genética com o manejo, além da comercialização.

Sendo assim, as principais abordagens são as seguintes: a) produção de trigo da classe pão com farinha branqueadora; b) produção de trigo da classe pão; c) produção de trigo biscoito; d) produção de trigo com perfil para exportação e/ou uso em ração de aves e suínos; e) produção de trigo em sistema de duplo propósito. A escolha do cultivo de trigos da classe pão com farinha branqueadora é uma escolha que garante, na grande maioria das situações, liquidez e rentabilidade da produção, principalmente se o produtor for associado a cooperativas que possuam moinhos, capazes de agregar valor a esse trigo comercializando a farinha. Trigo com esse perfil de qualidade é muito disputado para blends em diferentes proporções e diferentes finalidades. Algumas cooperativas do Rio Grande do Sul chegam a pagar um diferencial de acréscimo de 20% sobre o preço normal praticado se o trigo tiver o perfil de panificação com farinha branqueadora.

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Apesar de representarem a demanda de um mercado inferior aos trigos para panificação, a opção por trigos denominados “biscoito” é uma boa estratégia

A escolha de uma cultivar da classe pão com atributos estáveis frente aos diferentes ambientes e em diferentes anos, mesmo que não tenha farinha branqueadora também tem mercado, desde que seja segregada e mantida sua identidade.

Apesar de representarem a demanda de um mercado proporcionalmente inferior aos trigos para panificação, a opção de cultivo por trigos denominados de “biscoito” é uma boa estratégia visando à rentabilidade, já que essas cultivares são escassas e sua produção, absorvida rapidamente pelas empresas especializadas, seja via cooperativas, seja via cerealistas. Normalmente, essa estratégia de comercialização amarra a produção à demanda, com o volume da necessidade da indústria pré-definido.

Cultivares para exportação — Uma outra estratégia visando à maior liquidez e/ ou rentabilidade do trigo é a opção por cultivares que se enquadrem no perfil de trigo para exportação (principalmente para mercados do Norte da África e da Ásia), ou seja, que apresentem valores de força de glúten compatíveis com as Classes Doméstico ou Básico (dependendo do mercado importador), número de queda superior a 250 e expressem teores de proteína superiores a 12%, perfil esse mais facilmente obtido nas condições de ambiente instável do Sul do Brasil. Algumas cultivares disponíveis no mercado atendem a essas especificações e essa estratégia está começando a ser considerada por algumas cooperativas e cerealistas. Associado a isso, há a perspectiva que esse mesmo tipo de trigo possa ser utilizado para a alimentação de aves e suínos. A consequência é o aproveitamento desse produto, que muitas vezes é pouco valorizado pela indústria de alimentos por não ter um perfil para panificação estável.

Por fim, outra estratégia para obter uma lavoura de trigo rentável é optar por trigos de duplo propósito, ou seja, aquele trigo que pode ser usado tanto para pastejos, quanto para a produção de silagem ou colheita de grãos. A grande vantagem dessa estratégia diz respeito à possibilidade de ter retorno financeiro imediatamente após cada pastejo, na forma de leite ou carne, e, além disso, poder vender grão sem correr grande parte dos riscos da lavoura de inverno já que boa parte do retorno econômico já foi garantido. Uma necessidade em tempos de crise é rever os custos de produção e onde podem ser racionalizados sem impactar em redução do potencial produtivo. Nos cereais de inverno, adubação, sementes e agroquímicos representam os componentes com maior contribuição para os custos de produção.

Trabalhos realizados com trigo indicam que, na questão de adubação, ajustes são possíveis por meio da especificidade de recomendação, evitando- se pacotes generalistas e observando a análise do solo, as exigências das cultivares e condições do ambiente de cada região. No caso de sementes, por exemplo, tem-se verificado, em muitas situações, o uso de sementes acima do necessário para a obtenção de rendimentos elevados. Essa quantidade pode ser reduzida dependendo da cultivar e das condições de solo e clima, impactando positivamente na rentabilidade da lavoura.

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A estratégia para controle fitossanitário também é uma oportunidade. As culturas de inverno são vulneráveis a doenças importantes que podem limitar o potencial produtivo, entretanto, é possível racionalizar os custos por meio de estratégias que privilegiem o monitoramento e a aplicação somente quando necessária (com critérios), evitando aplicações calendarizadas. Essa última, apesar da facilidade, não observa variações ambientais de ano para ano, variações espaciais de ocorrência de doença, a presença do patógeno e de resistência das cultivares, entre outras. Como as culturas de inverno apresentam margem de lucro estreita, esses aspectos devem ser observados com muito mais critério do que a soja, por exemplo. Recentemente, algumas experiências têm sido realizadas no Rio Grande do Sul com um programa de validação para “trigo exportação”. O indicativo do trabalho é que a mudança no perfil de cultivares e o ajuste no manejo com foco no uso da melhor tecnologia e da racionalidade no uso de insumos pode melhorar a rentabilidade do trigo, independentemente da condição ambiental da safra.

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Custos podem ser racionalizados sem comprometer a produtividade, e na adubação é importante a especificidade de recomendação para evitar pacotes generalistas

Vários ajustes tecnológicos são possíveis para reduzir custos de produção, entretanto, alerta-se que, para realização desses ajustes, é fundamental buscar informação com a assistência técnica da região, com os obtentores das cultivares e as instituições de pesquisa que trabalham com culturas de inverno. O ideal é fazer a validação de cada tecnologia empregada na lavoura em escala regional, comprovando ou não sua efetividade e a relação custo/ benefício. O trigo, por apresentar maior área de cultivo no Sul no inverno, tem recebido maior esforço de pesquisa no desenvolvimento de soluções tecnológicas. Entretanto, culturas como aveia-branca, cevada, triticale, centeio e canola também representam alternativas importantes que devem ser utilizadas em sistemas de rotação/ sucessão de culturas e que apresentam oportunidades de comercialização e renda, muitas vezes, interessantes do ponto de vista econômico.