Fertilização

MICRONUTRIENTES decidem o tamanho da produtividade

Adubação

O crescimento e o desenvolvimento das plantas, assim como sua resistência a estresses bióticos e abióticos, dependem da fundamental disponibilidade de micronutrientes. Neste artigo, um verdadeiro guia sobre a importância e as formas de aplicação de Co, Cu, Fe, Mn, Mo, Ni, Zn, B, Si e Cl

Godofredo Cesar Vitti, doutor em Solos e Nutrição de Plantas, professor sênior do Departamento de Ciência do Solo da Esalq/USP, [email protected]; e Eduardo Zavaschi, doutor em Solos e Nutrição de Plantas, consultor agronômico da Vittagro, [email protected]

De acordo com a legislação brasileira (Decreto nº 4.954, de 14/01/ 2004, Instrução Normativa n° 5, de 23/02/2007), são considerados micronutrientes para as plantas: metais - Cobalto (Co), Cobre (Cu), Ferro (Fe), Manganês (Mn), Molibdênio (Mo), Níquel (Ni) e Zinco (Zn); semi-metais - Boro (B) e Silício (Si); halogênio - Cloro (Cl). A exigência dos micronutrientes pelas plantas geralmente é em gramas por hectare. As expressões utilizadas para micronutrientes na área agronômica são as seguintes: extração e exportação - gramas/hectare; teor foliar - miligrama/quilo; teor no solo - miligrama/ decímetro cúbico.

Os micronutrientes são de grande importância nas plantas para o crescimento e desenvolvimento das plantas e para a resistência a estresses (Tabela 1). A atuação dos micronutrientes na nutrição das plantas resulta em determinação da produtividade, qualidade do produto e resistência a estresses bióticos e abióticos, sendo fundamentais para a nutrição de culturas, animais e humanos em geral.

Para o adequado manejo nutricional das culturas, é necessário o fornecimento dos nutrientes na quantidade, na época e na forma adequadas para a cultura. Dessa maneira é necessário conhecer a demanda das plantas, a quantidade disponível no solo e essa diferença ser fornecida pela fertilização. Para se conhecer a demanda de micronutrientes, foram realizados estudos de extração e exportação. E para saber a capacidade do solo em fornecer nutrientes, é necessário avaliar a fertilidade do solo, utilizando-se principalmente do histórico da área, diagnose visual e foliar e análise de solo. Em termos práticos, a adubação pode ser definida pela seguinte expressão: adubação = (planta – solo) x f (eficiência do uso do fertilizante).

O histórico da área é necessário para conhecer o potencial que a mesma tem em fornecer nutrientes. Para isso, devese analisar qual sistema de manejo está implantado e há quanto tempo, quais culturas vêm sendo plantadas, a adubação utilizada e as produtividades alcançadas. A técnica de diagnose visual baseia-se no princípio de que todas as plantas necessitam dos mesmos nutrientes, e se houver deficiências no solo, estas irão provocar sintomas semelhantes (alterações morfológicas), provenientes de alterações fisiológicas (Malavolta et al. 1997). A diagnose foliar para avaliar a capacidade de suprimento do solo, segundo Malavolta et al. (1997), justifica-se pelo fato de as folhas serem órgãos que refletem o estado nutricional da planta, isto é, respondem ao suprimento de nutriente pelo solo ou fertilizante.

A análise química do solo, como técnica utilizada para avaliar sua fertilidade, baseiase nos teores de nutrientes disponíveis no solo para as plantas. A interpretação dos níveis de micronutrientes está na Tabela 2. Para determinação de B no solo, o extrator utilizado é água quente e, para os micronutrientes metálicos, utilizam-se os extratores DTPA ou Mehlich 1.

Disponibilidade de micronutrientes — A eficiência da adubação (f) depende do sistema de plantio (direto, mínimo ou convencional), práticas corretivas como a calagem, gessagem, fosfatagem e fontes e parcelamento dos nutrientes. Em razão dos baixos teores de micronutrientes na maioria dos solos agricultáveis brasileiros e de práticas culturais que diminuem sua disponibilidade, o fornecimento adequado desses elementos torna-se fundamental para o aumento de produtividade e qualidade das culturas (Vitti et al., 2006). A disponibilidade de micronutrientes para as plantas, isto é, a presença desses na solução do solo, depende de vários fatores, como os seguintes: material de origem, reação do solo (pH), textura e aeração do solo (nos casos do Fe, Mn e Cu), práticas culturais (calagem, adubação fosfatada, plantio direto), características genéticas da planta, desbalanceamento entre cátions metálicos (Fe, Cu, Mn e Zn) e altas produtividades (lei do mínimo), conforme apresentado por Vitti e Trevisan (2000). Para fornecimento adequado dos micronutrientes, deve avaliar a solubilidade das fontes e do local de aplicação (solo, foliar, herbicida, sementes ou mudas).

Os micronutrientes podem ser fornecidos no solo via parte aérea das plantas, principalmente através da adubação foliar, e nas sementes. O método de aplicação, a solubilidade, a forma física (pó ou grânulo) das fontes de micronutrien- No milho, soja e arroz o boro deve ser aplicado preferencialmente via solo, por apresentar baixa mobilidade na planta, e a quantidade varia de meio a um quilo/hectare e certas condições de solo podem interagir de modo a resultar em maior ou menor eficiência na adubação de correção ou de manutenção. Assim, no caso de fontes aplicadas via solo, atentar para a solubilidade em citrato neutro de amônio (CNA) + H2O (Cu e Mn) e ácido cítrico (HCi) a 2,0% para os demais micros, a qual deve revelar valor mínimo de 60% do teor total.

A aplicação de Co, Ni e Mo via semente é prática viável na cultura de soja e feijão. Recomenda-se a aplicação desses nutrientes via tratamento de semente visando potencializar a fixação biológica de nitrogênio (FBN) e a eficiência de uso do nutriente pela planta. A dose recomendada é de 15 a 20, 1,5 a 2 e 3 a 4 gramas/ hectare de Mo, Co e Ni, respectivamente. A adubação via solo apresenta correção lenta, mais duradoura e preventiva, dandose preferência para a ulexita como fonte de B e oxisulfatos ou óxidos finamente moídos como fonte de Zn, Mn e Cu. Salienta-se que a melhor forma de aplicação dessas fontes é agregado aos grânulo dos fertilizantes NPK, tecnologia esta que resulta em maior uniformidade e solubilidades dos micronutrientes.

Adubação

No milho, soja e arroz o boro deve ser aplicado preferencialmente via solo, por apresentar baixa mobilidade na planta, e a quantidade varia de meio a um quilo/hectare

O B deve ser aplicado preferencialmente via solo, por apresentar baixa mobilidade na planta. As quantidades de B normalmente aplicadas nas culturas de soja, milho, arroz etc. no sulco de semeadura, objetivando rendimentos elevados, é cerca de 0,5 a 1 quilo/hectare. Em área total, quando agregado ao grânulo de KCl ou MAP por exemplo, a dose recomendada varia de 1 a 1,5 kg/ha, sendo as doses menores e maiores aplicadas em solo arenosos e argilosos respectivamente. Há também a possibilidade da aplicação desse nutriente em área total na dessecação simultaneamente ao herbicida, na dose de 0,4 a 0,5 kg/ha, em que as fontes mais utilizadas nesse manejo são ácido bórico (17% de B), octaborato de sódio (20 % de B) e boro monoetanolamina (130 a 150 g/L de B).

A vantagem do uso do ácido bórico é que esse fertilizante diminui o pH da solução, portanto potencializa a ação do herbicida (principalmente glifosato). Porém, o produto apresenta baixa solubilidade. As fontes octaborato de sódio e boro monoetanolamina possuem maior solubilidade, menor risco de toxidez, entretanto aumentam o pH da água da mistura, sendo que, quando utilizar esses produtos, deve-se atentar para o uso de redutores de pH e fazer a mistura de tanque da seguinte forma: água (3/4 do tanque)  redutor de pH de 4,5 a 5 > herbicida > octaborado de sódio ou boro monoetanolamina  completar o volume do tanque.


FISIOLOGIA DOS MICRONUTRIENTES NAS PLANTAS

Boro (B): está relacionado ao transporte de açúcar, lignificação e estrutura da parede celular e metabolismo de carboidratos. Tem reflexo na germinação do grão de pólen e crescimento do tubo polínico.

Cobalto (Co): faz parte da composição da vitamina B12 e da coenzima cobamida (cobalamina). A vitamina B12 é responsável pela leghemoglobina que transporta O2 para o interior dos nódulos (Kerbauy e Arashiro, 1998);

Cobre (Cu): está envolvido nos processos da fotossíntese, respiração, desintoxicação dos radicais superóxidos e lignificação.

Ferro (Fe): está ligado ao metabolismo do nitrogênio através da sua atuação na nitrogenase e na ferrodoxina, ou seja, na fixação do N atmosférico. Atua também na catalase, ou seja, na dismutação do peróxido de hidrogênio, e na peroxidase.

Manganês (Mn): tem importante participação na fotossíntese, na denominada “reação de Hill”, pela “quebra” da molécula de água e sistema de remoção de O2 na fotossíntese. Ativa a enzima redutase do nitrito, sendo que em plantas deficientes de manganês há acúmulo de nitrato (NO3).

Molibdênio (Mo): está ligado a utilização e metabolismo de nitrogênio, através da participação nas enzimas nitrogenase e nitrato redutase.

Níquel (Ni): apresenta duas funções nas plantas: a) composição da urease (Dixon et al., 1975), sendo que em plantas deficientes em Ni há acúmulo de ureia nos tecidos, com desenvolvimento de necrose na ponta das folhas (Shimada e Ando, 1980); e b) ativação da enzima hidrogenase, para a fixação biológica do N2 do ar (Klucas et al., 1983).

Zinco (Zn): faz parte da composição e ativação de enzimas. O aminoácido triptofano, precursor do ácido indolacético (AIA), responsável pela elongação dos internódios e tamanho das folhas requer zinco em sua composição. O zinco, assim como o cobre, faz parte do superóxido dismutase, cuja função é remover radicais superóxidos e, portanto, proteção das membranas e proteínas contra oxidação.


Com relação à aplicação de Zn, Mn e Cu via solo, na forma de oxisulfatos ou óxidos finamente moídos agregados aos grânulos dos fertilizantes NPK, a recomendação varia de acordo com o teor de nutrientes e o tipo de solo (Tabela 3). O fornecimento de micronutrientes metálicos, via foliar, permite correção rápida, porém, menos duradoura, e com efeito corretivo, principalmente com fontes a base de sais de sulfato, cloreto ou nitrato, podendo ser na forma quelatizada ou de fosfito. Caso a fonte aplicada seja quelatizada ou fosfito, a dose recomendada é de 30% a 50% da utilizada para fontes na forma de sais. Quanto ao Mo, as fontes mais tradicionais são molibdato de sódio, de amônio ou de potássio.

Considerações finais — No Brasil, as culturas, devido principalmente às condições climáticas (luz, temperatura e precipitação), apresentam potencial genético para altas produtividades, sendo a nutrição com micronutrientes um fator limitante. Para o adequado manejo nutricional com micronutrientes deve-se realizar as seguintes etapas:

a) amostragem de solo e determinação dos teores de micronutrientes na camada de 0-20 centímetros;

b) práticas corretivas como calagem, gessagem, fosfatagem;

c) uso de Mo, Co e Ni via tratamento de semente e/ou foliar;

d) adubação com B via solo (agregado ao grânulo dos fertilizantes NPK), herbicida e/ou foliar;

e) adubação com os micronutrientes metálicos Zn, Mn e Cu via solo (agregado ao grânulo dos fertilizantes NPK) e complementação via foliar;

f) a utilização de micronutrientes é a última etapa do manejo nutricional das plantas.