Plantio Direto

A agricultura CONSERVACIONISTA e o Sistema Plantio Direto

Luís Carlos Hernani e Alba Leonor Martins, pesquisadores da Embrapa Solos

O solo é um meio natural e, assim como a água, é a base de vida, em especial da vida humana como a conhecemos. A vida existente no solo, representada pela comunidade de organismos, é marcada pela sua complexidade. Componente essencial dos ecossistemas, no solo ocorrem relações fundamentais para a manutenção da teia alimentar da biota (entre organismos produtores, consumidores e decompositores) e integrações entre os principais ciclos biogeoquímicos (água, carbono, nitrogênio, oxigênio) que mantêm a vida no planeta. E por que o solo preocupa? A primeira das respostas é que, na escala de tempo do ser humano o solo não é um recurso renovável. Para formar apenas dois centímetros de solo, a natureza leva pelo menos mil anos.

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Segundo a Febrapdp são 32 milhões de hectares de áreas sob PD, mas a sua qualidade tem sido frequentemente questionável visto que os produtores não abrem mão da monocultura

De acordo com a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO, 2015), aproximadamente 33% dos solos no mundo encontram-se em avançado estágio de degradação. Nessas condições, se tem verificado perdas de produtividade, preocupando ainda mais porque há forte pressão do crescimento populacional para se aumentar em 60% a produção mundial de alimentos até 2050. O que há de errado com os solos? Segundo Edward Faulkner (1943), “não há nada de errado com nossos solos, exceto a nossa interferência”.

Agricultura conservacionista: conceito — A agricultura conservacionista (AC), segundo Denardin et al. (2014), é a agricultura praticada segundo os preceitos da Ciência da Conservação do Solo, que consiste em um complexo de tecnologias de caráter sistêmico, com a finalidade de preservar, de manter e/ou recuperar os recursos naturais, mediante o manejo integrado do solo, da água e da biodiversidade, devidamente compatibilizado com o uso de insumos externos. A implementação desse tipo de agricultura estabelece as relações entre o ser humano e os elementos da biosfera, na busca de benefícios de natureza econômica, social e ambiental, tanto para a atual como para as gerações futuras.

A agricultura conservacionista compreende o seguinte:

1. preservação de ecossistemas frágeis (aptidão agrícola de terras);

2. consideração às limitações do solo (capacidade de uso do solo);

3. preparo reduzido ou plantio direto;

4. preservação dos restos culturais (erradicação de queimadas);

5. diversificação de culturas (rotação e consorciação de culturas);

6. controle de tráfego e uso eficiente de insumos (agricultura de precisão);

7. terraceamento, semeadura em contorno, culturas em faixas, canais escoadouros, estradas rurais etc.

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O SPD requer a geração contínua de fitomassa em quantidade, qualidade e frequência compatível com a demanda de solo e clima, e com isso mantém a cobertura permanente do solo

Desses preceitos fundamentais da AC, destacam-se o preparo reduzido do solo, que desde a década de 1940 já se questionava sobre o uso de implementos agrícolas no preparo do solo para a semeadura das culturas agrícolas. Um marco importante foi o lançamento, em 1943, do livro Ploughman’s Folly, de Edward Faulkner que enfatizava o seguinte: “Não há nenhuma razão científica para o preparo do solo” e “Podese dizer com segurança que o preparo de solo tem destruído a produtividade dos nossos solos”. Portanto, em não havendo razão científica que justificasse o preparo intensivo, Faulkner ressaltava a necessidade da adoção de práticas mais conservacionistas do solo. Nas regiões tropicais/subtropicais, excetuando-se nos casos de solos com limitações específicas, isso é ainda mais que verdadeiro!

A diversificação de culturas (rotação e consorciação de espécies vegetais) consiste em um outro preceito importante da AC que se refere à contribuição do solo no ciclo biogeoquímico do carbono (C). A fotossíntese e a respiração são os processos que governam esse ciclo, que se inicia quando as plantas absorvem o gás carbônico (CO2) da atmosfera para, na fotossíntese, produzir energia bioquímica e liberar o oxigênio (O2). O carbono é devolvido continuamente à atmosfera por meio da respiração durante a vida dos seres.

Portanto, o balanço entre o C perdido pelo processo de respiração e o acumulado pela adição de fitomassa/raiz conduzem o solo à função de dreno ou fonte desse elemento. A mitigação das emissões de CO2 e dos demais gases de efeito estufa (GEE), como o N2O e CH4 para a atmosfera é favorecida por rotação, sucessão e consórcios de espécies vegetais com reflexos no aumento da produtividade, sustentabilidade e qualidade ambiental.

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O SPD prioriza a diversidade de espécies vegetais, que engloba os sistemas integrados de produção como ILPF (foto), ILP, e Sstema Agroflorestal (SAF)

Além da alteração dos estoques de C no solo, a diversificação de espécies vegetais traz inúmeros benefícios à rizosfera, região do solo que recebe influência direta das raízes em interação com microrganismos, favorecendo a formação de bons agregados, que definem a boa qualidade estrutural do solo que, por sua vez, propicia a infiltração, a permeabilidade, o armazenamento e a disponibilidade de água; a permeabilidade e disponibilidade de ar; a difusão e o armazenamento do calor; a disponibilidade e a absorção de nutrientes; o bom crescimento radicular e a resiliência do solo que mantém suas propriedades sob forças internas/externas.

Plantio Direto e Sistema Plantio Direto — O Plantio Direto (PD), denominação adotada no Brasil inserida nos preceitos da AC, constitui uma tecnologia caracterizada pela manutenção da palha sobre a superfície do solo e mobilização de solo restrita à linha de semeadura. A técnica foi desenvolvida na Inglaterra em 1960, e logo em seguida adotada nos Estados Unidos. Na década de 1970, foi introduzida no Brasil pelo agricultor pioneiro Herbert Bartz. Originado de regiões temperadas, a técnica do PD apresentou algumas limitações especialmente por não envolver necessariamente a diversificação de culturas, o que induzia a não manutenção de adequada estrutura do solo e às elevadas taxas de decomposição dos restos culturais, ocorrência comum nas condições de solo e clima das regiões tropicais e subtropicais. Por isso, o PD precisou ser submetido a uma forte adaptação que culminou com o Sistema Plantio Direto (SPD).

PD é diferente de SPD — O SPD é, portanto, uma tecnologia adaptada às regiões tropicais e subtropicais que, além da ausência de preparo de solo para o plantio e a manutenção de resíduos culturais sobre a superfície do solo, enfatiza o uso das plantas vivas e diversificação de espécies, via rotação e/ou consorciação de culturas, incorporando o processo colher-semear, que representa a minimização ou supressão do intervalo de tempo entre colheita e semeadura, prática relevante para elevar o número de safras por ano agrícola e construir e/ou manter o solo fértil. O SPD, requer, portanto, a geração contínua de fitomassa em quantidade, a qualidade e a frequência compatíveis com a demanda de solo e clima, e com isso mantém a cobertura permanente do solo. Para isso, é fundamental o não revolvimento ou preparo de solo.

O conceito de SPD significa gestão da terra que visa maximizar biodiversidade, atividade fotossintética, raízes ativas/ efetivas e cobertura do solo, para gerar, de forma econômica, produtos diversificados e melhorar a qualidade ambiental. Nesse sentido, o SPD, ao priorizar a diversidade de espécies vegetais, englobam os sistemas integrados de produção (ILPF, ILP, SAF etc.). Em 2010, o Plano para a Agricultura de Baixa Emissão de Carbono (Plano ABC) para mitigação e adaptação às mudanças climáticas foi proposto para reduzir as emissões de GEE. Estruturado em sete programas e várias metas, vem incentivando várias tecnologias sustentáveis de baixa emissão de carbono, sendo uma delas a ampliação da adoção do SPD em 8 milhões de hectares no Brasil. Segundo a Federação Brasileira de Plantio Direto e Irrigação (Febrapdp, 2014), existem 32 milhões de hectares de áreas sob PD no Brasil. No entanto, a qualidade do PD tem sido frequentemente questionável, na medida em que se tem adotado sob monocultura, com uso frequente de formas de preparo de solo e retirada completa dos terraços, tornando- se imprescindível avaliar a qualidade do manejo adotado.

Desde 2014, em contribuição ao Plano ABC, sobretudo em função da necessidade de estabelecer indicadores para avaliar a qualidade do PD adotado no Brasil, a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), em parceria com Itaipu Binacional e outras 21 instituições, tem atuado na Rede de Pesquisa SoloVivo, em cinco estados no Centro-Sul (GO, MS, SP, RS e PR). Dos primeiros resultados da Rede de Pesquisa, foi desenvolvido o Diagnóstico Rápido da Estrutura do Solo (Ralish et. al., 2017), uma metodologia simples que permite ao próprio produtor avaliar a qualidade do manejo adotado no seu PD pela avaliação da estrutura do solo, verificar o que está limitando a adoção adequada do SPD recomendado para as regiões subtropicais/tropicais.

O SPD é o caminho para se chegar à agricultura conservacionista, elo fundamental para a transformação de um sistema de produção agrícola próximo ou ainda melhor do que um ecossistema natural. E isso depende apenas da conscientização e da decisão do agricultor, principal responsável pela gestão do manejo do solo e da água no âmbito de sua área agrícola e de bacias hidrográficas.