Fitossanidade

Adjuvantes: ferramenta essencial na aplicação de fungicidas

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Entre as funções dos adjuvantes usados junto aos fungicidas está melhorar a atividade biológica defensiva na planta. E os óleos minerais e vegetais e os surfactantes são os mais importantes adjuvantes a serem aplicados junto a um fungicida

Leandro N. Marques, Marlon T. Stefanello, Mônica Debortoli e Ricardo S. Balardin, do Instituto Phytus

O bom funcionamento dos produtos fitossanitários é altamente dependente da qualidade da tecnologia de aplicação. A adequada cobertura do alvo, juntamente com adequadas taxas de absorção, contribui para elevar a eficácia de diversos produtos fitossanitários, incluindo os fungicidas. A superfície dos órgãos da planta, especialmente as folhas, possui obstáculos que por vezes,atrapalham a relação das gotas com os tecidos e na quantidade de ativo absorvido. Tais obstáculos variam entre espécies, de acordo com a idade dos tecidos, em função de condições do clima, entre outros fatores. No entanto, é possível adicionar determinados adjuvantes à calda de pulverização, de modo a melhorar o funcionamento desses produtos fitossanitários. Nas aplicações de fungicidas, o uso de adjuvantes é ferramenta indispensável. Assim, dentre as funções dos diferentes adjuvantes utilizados, uma das principais é melhorar a atividade biológica do fungicida na planta, ponto de maior ênfase neste artigo.

Dentre os principais adjuvantes adicionados junto à calda de pulverização do fungicida estão os óleos minerais e vegetais e os surfactantes. Importante ressaltar que os óleos utilizados contêm em sua formulação um percentual de surfactantes (tensoativos), média de 5% a 9%, mas que pode chegar até 20%. Além disso, na própria formulação do fungicida estão presentes também adjuvantes, dentre eles surfactantes e outros.

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Figura 1 Ângulo de contato da gota com a superfície

Qual a função dos surfactantes e dos óleos na relação do fungicida com a planta? O processo de pulverização tende a formar gotas esféricas, devido ao processo chamado de tensão superficial da gota. Sendo assim, quando uma gota é depositada sobre uma superfície, quanto maior for a tensão superficial dessa gota e quanto mais cerosa for a superfície, o ângulo de contato será maior. Superfícies menos cerosas podem ser mais fáceis de molhar, ao ponto que os adjuvantes que quebram a tensão superficial da gota aumentam o seu espalhamento na superfície.

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Figura 2 Esquema ilustrativo da interface gota e superfície foliar na ausência e na presença de adjuvantes do tipo surfactantes.

Os surfactantes são adjuvantes que têm maior função na melhoria da interface das gotas com a superfície depositada. A presença do surfactante melhora o espalhamento da gota e indiretamente poderá aumentar a taxa de absorção. Além do espalhamento, os surfactantes podem melhorar a adesão e a retenção de gotas reduzindo o salpico dessas. Em superfícies com abundante pilosidade, as gotas podem ficar suspensas nos pelos. A quebra da tensão é fundamental para aumentar a molhabilidade e o contato do produto com a superfície.

Dentre as classes de surfactantes, os adjuvantes organosiliconados têm sido bastante utilizados. A ação desses compostos em aumentar a área de contato da gota com a superfície, promover a desagregação de ceras epicuticulares e prevenir ou retardar a formação de cristais do ativo na superfície pode aumentar a taxa de absorção. A água que hidrata as gotas na superfície fica suscetível de evaporar e, quando isso ocorre, rapidamente a taxa de penetração é reduzida, devido à desidratação da gota. Por isso, o aumento das taxas de penetração pela presença do surfactante é extremamente importante. Os organosiliconados apresentam grande capacidade de quebra da tensão superficial das gotas. Por isso, tem sido muito utilizado com herbicidas, principalmente no controle de plantas daninhas com superfície cerosa e/ou em plantas com grande quantidade de estômatos. Inclusive, essa quebra da tensão superficial pode aumentar a taxa de penetração do herbicida via estômatos.

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Figura 3 Representação da formação de filmes hidratados na superfície e a extinção da gota, podendo formar cristais do ativo na superfície.

Os óleos, por estabelecerem uma intrínseca relação com as camadas cuticulares dos tecidos, têm como principal função aumentar a taxa de penetração dos fungicidas nas folhas e nos demais órgãos. Os óleos podem melhorar a passagem dos fungicidas pela cutícula foliar, que se apresenta como principal barreira aos produtos sistêmicos. Ao interagirem com os componentes da cutícula, os óleos podem criar caminhos favorecendo a Figura 1 Ângulo de contato da gota com a superfície difusão dos produtos por rotas polares (no caso de compostos menos lipofílicos) ou por rotas apolares (no caso de produtos mais lipofílicos).

As melhorias na taxa de penetração de fungicidas proporcionados pelos óleos refletem diretamente no aumento de controle de doenças, tornando indispensável a presença desses adjuvantes nas aplicações. Nesse cenário, é importante que exista a correta combinação entre o fungicida e o óleo acompanhante. Essa combinação é alcançada após longos anos de pesquisa em laboratório e a campo. A troca do óleo recomendado pode impactar em significativas reduções de controle e de produtividade.

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Além dos surfactantes e óleos, outros adjuvantes podem ser utilizados para ajuste da solução de pulverização, aumentar a adesividade, reduzir a espuma, ajustar o pH de calda, para ter efeito quelatizante e reduzir a deriva

A causa de problemas de fitotoxidade de fungicidas na soja, muitas vezes, é depositada no óleo utilizado. Porém, outros fatores exercem maior efeito para ocorrência de fitotoxidade, como por exemplo as condições de umidade no solo, conteúdo de água na planta e condições ambientais de temperatura, umidade e radiação. Por serem bons condutores de calor, se aplicados em horários quentes do dia, com baixa umidade e alta radiação, os óleos poderão queimar os tecidos. Porém, sob condições adequadas de aplicação, os riscos com fitotoxidade do óleo são reduzidos. Principalmente em períodos secos de baixo conteúdo de água na planta, os fungicidas devem ser aplicados em horários estratégicos como final do dia e à noite, porém, retirar o óleo ou substituí-lo não é prática recomendada.

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Figura 4 Variação no controle de ferrugem da soja pela presença ou ausência do óleo recomendado. Fonte: Instituto Phytus (2017)

Como na prática o volume de calda utilizado é bastante variável entre os produtores, a utilização da dose do adjuvante com base em litros por hectare implica em concentrações diferentes de óleo nas gotas produzidas. Quando se reduz o volume de calda e mantémse a dose do óleo em litros/hectare, a sua concentração na gota é aumentada. Tal fato pode aumentar os riscos com fitotoxidade em situações de aplicações sob condições inadequadas. Uma alternativa é adequar a dose do óleo de acordo com o volume de calda (v/v%). Assim, a concentração do óleo nas gotas é ajustada e os riscos, reduzidos.

Como na prática o volume de calda utilizado é bastante variável entre os produtores, a utilização da dose do adjuvante com base em litros por hectare implica em concentrações diferentes de óleo nas gotas produzidas. Quando se reduz o volume de calda e mantémse a dose do óleo em litros/hectare, a sua concentração na gota é aumentada. Tal fato pode aumentar os riscos com fitotoxidade em situações de aplicações sob condições inadequadas. Uma alternativa é adequar a dose do óleo de acordo com o volume de calda (v/v%). Assim, a concentração do óleo nas gotas é ajustada e os riscos, reduzidos.

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Figura 5 Eficácia de controle de três aplicações de fungicida em soja (A) com diferentes adjuvantes para controle da ferrugem asiática

Outros adjuvantes — Este artigo enfoca basicamente surfactantes e óleos. Porém, uma série de outros adjuvantes úteis ou especiais podem ser utilizados de acordo com a necessidade de ajuste da solução de pulverização. Esses outros adjuvantes poderão ser usados para aumentar adesividade, para reduzir espuma, para ajustar pH de calda, para efeito quelatizante, para reduzir deriva, para corrigir a dureza da água, enfim, uma série de necessidades que poderão surgir no campo. Ao longo de anos de pesquisa a contribuição dos adjuvantes no desempenho dos fungicidas a campo tem sido mostrada. Isso justifica que seja sempre utilizado o adjuvante recomendado pela companhia detentora do produto para aumentar a sua performance no campo. A troca do adjuvante recomendado implica em mau uso do fungicida e é de total responsabilidade de quem a pratica.