Defesa Vegetal

Defensivos: por mais FATOS e menos mitos

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O debate sobre o consumo de defensivos na agricultura brasileira comete o equívoco de comparar áreas de lavoura e volumes de produção bem diferentes a de outras agriculturas mundiais. Além disso, estudo da Unesp em quatro culturas importantes com a ferramenta EIQ, que permite quantificar e comparar o risco dos defensivos, concluiu que as ameaças são até inferiores a de outros grandes países produtores

Caio Antonio Carbonari, professor adjunto da Faculdade de Ciências Agronômicas da Universidade Estadual Paulista (Unesp)

Quando se trata de agricultura, o Brasil destaca-se como um dos principais países, produzindo fibras, bioenergia e alimentos em grande quantidade e com reconhecida qualidade, uma vez que é grande exportador desses produtos para o mundo e tem inserção em mercados com altos níveis de exigências quanto a qualidade e sustentabilidade. A agricultura tem papel fundamental na economia brasileira, com grande impacto no PIB e na balança comercial e isso se traduz em renda, empregos, divisas e bem-estar para a sociedade. O Brasil consegue todo esse destaque no cenário nacional e mundial utilizando apenas 8% das terras para a agricultura e preservando 61% de vegetação nativa do território, de acordo com estudo do Grupo de Inteligência Territorial Estratégica (Gite) da Embrapa. Nossa produtividade cresce em ritmo acelerado, o que aumenta nossa eficiência no uso das terras agrícolas e o que se deve à constante adoção de novas tecnologias, à pesquisa e à inovação nesse setor produtivo.

O Brasil é modelo em sustentabilidade para o mundo e, apesar disso, a agricultura brasileira é alvo constante de críticas. No uso de tecnologias para proteção de plantas, especialmente no que diz respeito ao uso de defensivos agrícolas, são recorrentes as notícias e um debate absolutamente superficial e equivocado de que o Brasil é o maior consumidor mundial desses produtos. Diante da importância da agricultura brasileira, é fundamental que qualquer assunto que tenha impacto importante nas questões já apontadas seja discutido com seriedade e a profundidade que o setor agrícola brasileiro merece.

De forma recorrente, é dado destaque ao fato de o Brasil ser o maior consumidor mundial de defensivos agrícolas, apenas se levando em consideração o valor do volume desses produtos comercializados no mundo. Tal informação é verdadeira, mas não representa nada de muito relevante. Equivale a comparar o número total de homicídios, crimes, doenças, acidentes de trânsito entre cidades com populações completamente diferentes, e concluir que uma cidade do tamanho de São Paulo tem mais crimes do que uma cidade pequena do interior. Essa comparação não faz nenhum sentido se não avaliar, por exemplo, a taxa por 100.000 habitantes ou algo similar.

País tropical — O debate quanto ao consumo de defensivos agrícolas no Brasil tem se restringido a comparar países com áreas e produção agrícolas completamente diferentes. Quando transformado o consumo de defensivos agrícolas por unidade de área cultivada no País e em outros países, o Brasil ocupa a sétima posição, tendo à sua frente países como o Japão (consumo oito vezes superior), Coreia do Sul, Alemanha, França, Itália e Reino Unido. Se comparar a taxa de consumo por tonelada de produtos agrícolas, a eficiência no uso de defensivos fica ainda mais evidente, e o Brasil ocupa a 13ª posição, sendo superado também por Canadá, Espanha, Austrália, Argentina, Estados Unidos e Polônia. Deve-se acrescentar a isso o fato de o Brasil produzir em condições tropicais, o que permite fazer mais uma safra por ano na mesma área e promove condições mais favoráveis ao desenvolvimento de pragas, plantas daninhas e doenças, quando comparado aos países de clima temperado.

Essa análise com base na área ou no volume de produtos agrícolas produzidos é o mínimo de racionalidade que se espera para se avançar na discussão do uso seguro de defensivos agrícolas, mas ainda está longe de ser o ideal. Mais importante do que se discutir o volume ou valor do consumo de agrotóxicos por área ou produção é se avançar na análise do risco dos defensivos que estão sendo consumindos. A análise de risco é mais adequada para garantir o uso seguro das tecnologias utilizadas na proteção de plantas, acrescenta um ingrediente fundamental, levando em consideração também o nível de exposição e o perigo.

Importância do EIQ — Uma das ferramentas já consolidadas e com grande aceitação por agências reguladoras e instituições de pesquisa no mundo todo é o EIQ (environmental impact quotient of pesticides, ou quociente de impacto ambiental), desenvolvido em 1992 por pesquisadores do New York State Integrated Pest Management (Kovach et al, 1992). O EIQ permite quantificar e estabelecer comparações quanto ao risco do consumo de defensivos, levando em consideração uma série de fatores como a dose de ingrediente ativo aplicada, características físico-químicas e toxicológicas e dinâmica ambiental de cada composto. Essa ferramenta permite ainda avaliar o risco associado a diferentes componentes, como o consumidor dos produtos agrícolas, o trabalhador envolvido na manipulação e aplicação e o ambiente.

A Faculdade de Ciências Agronômicas da Universidade Estadual Paulista (Unesp) realizou um estudo com o levantamento do EIQ para o uso de todas as classes de defensivos agrícolas no Brasil, em algumas das culturas mais importantes quanto à área plantada e ao consumo de defensivos no período de 2002 a 2015 – soja, milho, algodão e Leandro Mariani Mittmann cana. Os resultados evidenciam o uso racional de defensivos no Brasil e demonstram que os EIQ associados a essas culturas são iguais ou em muitos casos bastante inferiores aos EIQ de outros importantes países produtores das culturas.

Mais do que isso, quando analisado o EIQ médio para cada aplicação de defensivos para o conjunto de informações dessas quatro culturas, observa-se uma tendência muito significativa de queda nos riscos. No período de 2002 a 2015 houve uma redução de 51%, 37%, 34% e 38% nos valores de EIQs, respectivamente para o trabalhador, consumidor, ambiente e campo (correspondendo à média dos três componentes). Todos esses indicativos evidenciam a responsabilidade e racionalidade quanto ao uso de defensivos agrícolas no Brasil e reforçam a afirmação de que o País é modelo de produção sustentável de alimentos, fibras e bioenergia, contrariando os mitos e as críticas rasas e mau fundamentadas que a agricultura brasileira tem recebido.

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A Unesp fez levantamento do EIQ para defensivos usados em soja, milho, algodão e cana, e concluiu que os riscos são iguais ou até menores que em outros grandes países produtores