Desafio 2050

Lideranças debatem o futuro da produção de ALIMENTOS

Desafio

Evento Desafio 2050 abordou desde os mitos sobre o uso dos defensivos, a qualidade da alimentação convencional, a meta de reduzir o desperdício de alimentos, até o exemplo brasileiro de agricultura sustentável do Programa ABC

O evento Diálogo: Desafio 2050 e Os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável reuniu em São Paulo debatedores por uma iniciativa da Embrapa, Associação Brasileira de Agronegócio (Abag) e Associação Nacional de Defesa Vegetal (Andef), com o objetivo de evidenciar a importância dos avanços científicos alcançados pela agricultura brasileira nas últimas décadas. Essa evolução tem assegurado a contínua ampliação da produção brasileira de alimentos, fibras e energia, de maneira a consolidar a posição do País como principal fornecedor mundial de produtos de alta qualidade, seguros e produzidos de forma sustentável. E diversas foram as abordagens sobre a produção e consumo de alimentos produzidos com segurança feitas pelos palestrantes.

Entre as palestras do Painel Mitos e Fatos, o professor da Universidade Estadual Paulista (Unesp) Caio Carbonari citou estudo que relaciona o consumo total de defensivos das lavouras brasileiras com a área em que são aplicados, o que contesta o mito de que o Brasil é líder na utilização desses insumos. Carbonari lembrou que a relação deixa o Brasil apenas na sétima posição, e que quando relacionada ao total aplicado com a produção das lavouras, o Brasil cai para o 11º lugar. A análise foi endossada pela toxicologista Elizabeth Nascimento. “Em termos científicos, tivemos um grande avanço nos últimos anos no que diz respeito a parâmetros sobre riscos de contaminação em alimentos. Temos hoje no País inúmeros instrumentos que podem nos dizer, com certeza, quanto podemos comer sem correr riscos. Claro que não existe risco zero e nem segurança absoluta”, observou, lembrando que é necessário ainda um esforço na área de comunicação para esclarecer o consumidor sobre essa realidade.

O endocrinologista Filippo Pedrinola lembrou que é preciso se basear cada vez mais em fatos e menos em mitos. “Vivemos uma era que eu costumo chamar de terrorismo nutricional e demonização de alimentos, embasados em pseudociência”, definiu. Para ele, a recomendação básica para ter uma alimentação mais adequada é fugir de dietas da moda, comer de forma mais consciente e evitar estresse. O presidente do Instituto de Tecnologia de Alimentos (Ital), Luis Madi, abordou as diferenças entre alimentos orgânicos e convencionais. E baseado em diversos estudos do próprio Ital e de outras instituições, Madi assegurou que não há evidências científicas que sustentem vantagens nutricionais dos orgânicos sobre os alimentos convencionais. “O resultado disso é que temos um consumidor confuso e desorientado que acaba deixando de consumir alimentos seguros e de qualidade por achar que não fazem bem à saúde. Em relação aos orgânicos, o consumidor compra um produto acreditando que tem benefícios que efetivamente não possui. Ele está sendo enganado”, concluiu.

Outras palestras trataram do momento e do futuro. O representante da FAO no Brasil, Alan Bojanic, sustentou que os mais recentes estudos da ONU indicam que a população mundial deverá atingir a marca de 9,8 bilhões pessoas em 2050, estabilizando- se apenas em 2100, em 11,2 bilhões. “Dessa forma, o volume total de alimentos a ser produzido no mundo deverá crescer em 70%, alcançando a marca de 2,6 bilhões de toneladas de grãos. Desse total, 8% deverá ser fornecido pelo Brasil”, informou Bojanic. E o tema do desperdício de alimentos foi abordado em outra palestra de Bojanic. “Temos como meta, até 2030, reduzir pela metade as perdas e desperdícios de alimentos no mundo, que atualmente estão na marca de 1,3 bilhão de toneladas, o que daria para alimentar aproximadamente 795 milhões de pessoas que são desnutridas”, mencionou.

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Baseado em estudos, o presidente do Ital, Luis Madi, assegurou que não há evidências científicas que sustentem vantagens nutricionais dos alimentos orgânicos sobre os convencionais

Carla Branco, diretora de Relações Institucionais do Conselho Empresarial para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS) destacou as ações voltadas para a sustentabilidade que a ONG tem colocado em prática no Brasil dentro da agenda dos “Objetivos de Desenvolvimento Sustentável”. “Todas as iniciativas são na direção de uma agricultura mais sustentável, com redução de resíduos no solo e também do desperdício de alimentos”, comentou. “O Brasil tem hoje uma boa vantagem competitiva na corrida verde por conta de sua matriz energética limpa, grande biodiversidade e outros inúmeros benefícios naturais. Porém, aqui, como em boa parte do mundo, a sustentabilidade e o desenvolvimento ainda são pouco pensados de forma integrada, o que dificulta a realização de projetos de médio e longo prazos. A adoção dos princípios e das práticas de sustentabilidade depende dessa integração”, disse. “O setor forma um dos segmentos mais complexos e dinâmicos da economia brasileira. Por isso, ter uma visão para o futuro é primordial para o crescimento econômico e sustentável do País. Ações como aumentar a produção de alimentos sem aumentar a área cultivada, promover a lógica do Plano ABC, garantir a redução de resíduos sólidos e controle e redução de poluição na produção agropecuária, entre outras, são importantes caminhos apontados pelo estudo ‘Visão Brasil 2050’”.

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O Brasil tem hoje uma boa vantagem competitiva na corrida verde por conta de sua matriz energética limpa, mas a sustentabilidade e o desenvolvimento ainda são pouco pensados de forma integrada, disse Carla Franca, do CEBDS

De 2030 e em 2050 — O encerramento do evento foi feito pelo presidente da Embrapa, Maurício Lopes, que abordou o tema “Caminhos para Chegar em 2030 e em 2050”. Conforme o dirigente, o Brasil deve utilizar iniciativas como o Código Florestal ou o programa de Agricultura de Baixo Carbono como uma verdadeira marca de país sustentável. “Temos de mostrar ao mundo que tivemos a coragem de adotar uma política na qual os produtores agrícolas destinam 20% de suas áreas para preservação ambiental. Nenhum outro país do mundo tem isso para oferecer. Essa deveria ser uma marca a ser trabalhada pelo Brasil no exterior”, ressaltou. “Em 2015, os líderes globais decidiram implementar uma ousada agenda para garantir um planeta mais próspero, equitativo e saudável até 2030.

Os 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), então definidos, compõem uma abrangente agenda, na qual se destacam erradicação da pobreza, agri-cultura e segurança alimentar, educação, saúde, redução das desigualdades, energia, água e saneamento, produção e consumo sustentáveis, mudança do clima, crescimento econômico inclusivo, dentre outros temas importantes”, lembrou Lopes. “Essa agenda fornece uma visão inclusiva e integrada de progresso sustentável – um ambicioso plano de promoção do desenvolvimento humano até 2030, e pavimenta os caminhos para uma jornada mais desafiadora – de garantia do desenvolvimento sustentável no horizonte de 2050”.